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  Fée Couturière,  de Louise Bourgeois (a imagem foi retirada de  The Return of the Repressed,  Phillip Larrat-Smith.   Violette Editions, London, 2012).

Fée Couturière, de Louise Bourgeois (a imagem foi retirada de The Return of the Repressed, Phillip Larrat-Smith. Violette Editions, London, 2012).

 

 

Fée Couturière é um pássaro pequeno.* O título é em francês desde o princípio. Trata-se de uma peça onde há buracos, vários andares e que é uma espécie de labirinto. Podemos meter a mão lá dentro e não sabemos onde é a entrada e onde é a saída. É um ninho de pássaro pendurado nas árvores. Lá em cima está um gancho e a peça pode girar sobre si própria.[1]

 

Fée Couturière [Fada Costureira] é uma escultura[2] de características irregulares, pela forma como foi modelada e pelo modo como o gesso foi aplicado. Circular e arredondada, a forma da peça vai afunilando à medida que é modelada. Feita para ser suspensa, a escultura tem um gancho na parte superior que a segura e a faz girar sobre si própria. Não há molde, não há polimento e/ou não há embelezamento do material — a peça deseja o orgânico, a natureza, o corpo e a vida. Construída sem molde, os buracos e/ou orifícios da escultura são escavados com a mão ou com ferramentas que abrem o interior da peça, deixando a luz penetrar. No exterior, o gesso cria saliências que, ora côncavas, ora convexas, modelam o corpo da escultura de modo a produzirem texturas, irregularidades e marcas traçadas pela mão ou pela espátula. O aspecto do material, aliado ao significado da escultura — é um ninho de pássaro pendurado nas árvores —, produz uma semelhança entre o fazer de Bourgeois e o fazer do pássaro, que pouco a pouco constrói o ninho com pequenos galhos, ramos, folhas e/ou penas, onde irá pôr os ovos e onde os seus filhos hão-de nascer.

Tal como outras esculturas realizadas na primeira metade dos anos sessenta, Fée Couturière relaciona o interior com o exterior e sugere um vai-e-vem entre estar «dentro de» e estar «fora de». Interior e exterior provocam uma dialéctica entre ficar dentro de si e consigo ou aprender a estar fora com os outros e a (sobre)viver. No interior do corpo, da casa, do passado, da infância, da segurança, da protecção, está, para a artista, a sua história ou a sua trama. No exterior há o relacionamento com os outros, com as coisas, com os acontecimentos e com o modo como se (sobre)vive ao dia. Esta dialéctica é permanente na obra de Bourgeois, cuja vida é urdida com a arte. Fée Couturière evoca essa dialéctica entre vida e arte: uma peça onde há buracos, vários andares, que é uma espécie de labirinto, como a vida, que tem várias tocas e patamares, cuja caminhada procura, algumas vezes, descobrir a saída do labirinto. De outra maneira, esta escultura é, também, uma evocação de um espaço íntimo que promete ser um abrigo ou um lugar seguro, como a casa da nossa infância. Encontro nas palavras de Gaston Bachelard[3] essa evocação da intimidade: «descobrir um ninho leva-nos de volta à nossa infância, a uma infância».[4] Os buracos e/ou orifícios de Fée Couturière remetem para pequenos ninhos: em cada espaço escavado ou aberto, a artista pode regressar à infância ou refugiar-se.

Sem dúvida, para o pássaro que sai do ovo, o ninho é o melhor dos abrigos: acolhedor, quente, o sítio onde a comida vai ter com ele; no entanto, se o pássaro não sair cá para fora, corre o risco de morrer no seu abrigo. Bourgeois sabe, como o pássaro, que, caso não enfrente o exterior e/ou não saiba estar «fora de», pode morrer na sua intimidade.

Dentro e fora, interior e exterior, são lugares de promessa pela multiplicidade de significados: esconderijos, concavidades, orifícios e buracos oferecem aberturas de difícil entrada para o pássaro, a lebre e/ou o coelho, que fogem do predador e não conseguem entrar no ninho, na toca e/ou no covil, porque na fuga a camuflagem encobre a entrada e desorienta a presa.

Independentemente do lugar que se toma, Fée Couturière deixa à vista tanto o interior como o exterior: olhamos para dentro da peça e observamos um labirinto formado por espaços escavados e côncavos; algumas zonas iluminadas criam, pela luz do exterior, zonas de sombra que prometem lugares de recolhimento e lugares de preenchimento.

Os lugares de recolhimento são não só espaços de refúgio, mas também espaços de armadilha: por um lado, a entrada de cada buraco está camuflada pelas reentrâncias que produzem sombra nas seguintes e, por outro, a peça, ao girar sobre si própria, engana os predadores e também as presas, que não entram à primeira nos buracos escavados e distribuídos pelos vários andares. O espaço como refúgio pode tornar-se um túmulo, porque convém encontrar a saída, mas também é indispensável descobrir a entrada e em Fée Couturière não sabemos onde é a entrada e onde é a saída. É preciso entrar com as mãos dentro da peça e escavar, abrir, modelar o espaço, que permite construir uma espécie de carapaça para o exterior, isto é, que oculte o interior. Há um movimento transitório entre sair e entrar que é semelhante à relação que Bourgeois tem com o passado e à dificuldade de viver no presente. Uma vez que o passado não a abandona e a artista quer viver «o hoje», na actividade de esculpir, ela começa por estabelecer uma correspondência entre estar dentro do passado e/ou estar fora com ele, no presente.

Os lugares de preenchimento são os espaços vazios: aqueles que estão disponíveis para receber novas expectativas. Em Fée Couturière o vazio traz à memória um desenho que já foi traçado e vivido, mas que no presente não existe mais. É preciso proceder à sua reconstituição, repor os fios e urdir a trama para que o vazio seja colocado ao dispor do preenchimento, como a artista aprendeu na juventude: a sua aproximação à tarefa de desenhar nasce do convite[5] que a sua mãe, Joséphine Bourgeois, lhe dirige para integrar a equipa familiar na conservação e restauro de tapeçarias. Deste modo, a partir de uma necessidade prática, a artista descobriu que «a arte é interessante e pode ser útil».[6] Bourgeois tinha um papel essencial no restauro das tapeçarias: refazia e repunha o desenho que dava unidade e estabilidade à peça. O gesto de repor, refazer, restituir e restaurar integra não só o modo como a artista virá a fazer e criar, mas também o modo como irá aprender a costurar o seu passado no presente: o pedaço de tecido que foi desfeito, separado e/ou cortado, no qual o passado é um rasto, agora, à luz do presente, e pode ser novamente unido e preenchido.

A passagem de um lugar de recolhimento a um de preenchimento ou de uma acção de entrada e outra de saída é um sintoma de mudança que, entre passado e presente, afirma a sombra da morte sobre a sombra da vida. Por outras palavras, o rasto do passado é visível no presente, pela tangibilidade da forma esculpida: em Fée Couturière, a morte revela-se em cada buraco, orifício e/ou concavidade que ora se abre para o exterior, ora se fecha para o interior. A morte invade o interior com a sua sombra, a qual é projectada pela luz que vem do exterior e entra para o interior através desses buracos e/ou orifícios. Os espaços vazios de Fée Couturière criam formas côncavas que, prontas a serem preenchidas, criam a possibilidade de voltar a (re)criar o passado no presente. Dentro dos espaços ocos ou das formas côncavas, Bourgeois cria a possibilidade de preencher no presente o que não foi viável no passado: a «vida é organizada em redor do que é vazio».[7]

Se, ainda jovem, Bourgeois compreende através do restauro de tapeçarias que as mulheres que integravam a equipa da sua mãe, ao coserem as peças de tecido umas às outras, restituíam a totalidade da peça e da narrativa bordada, mais tarde, enquanto artista, no acto de coser, ela descobre a passagem do desenho à escultura. O acto de coser, sem dúvida, ensina a artista a bordar no tecido e no papel, mas o que importa é a passagem de um lado ao outro realizada pelas agulhas que perfuram o papel e/ou o tecido. Nesta acção, Bourgeois segura, fixa, agarra e mantém a união das partes. Por conseguinte, a artista inaugura o princípio da tridimensionalidade ao verificar que não só cose, mas também junta as peças umas às outras. Costurar transforma-se num acto simbólico: devolve no presente a possibilidade de repor o que ficou para trás solto e junta o que antes estava separado.

Há um duplo efeito em Fée Couturière, que, pelo movimento de vai-e-vem entre interior e exterior e/ou entre dentro e fora, acentua o caminho do desejo e o do medo. Encontrar a saída e a entrada provocam desejo e medo. Ambos são duplos em Bourgeois: existe desejo de sair e curiosidade em espreitar para «dentro de»; do mesmo modo, o medo actua em semelhança com o desejo. O movimento de vai-e-vem, juntamente com a acção de meter a mão lá dentro e não sabermos onde é a entrada e onde é a saída, cria um caminho subterrâneo, uma espécie de labirinto, como a própria vida, cuja jornada é guiada pelo desejo e/ou pelo medo.

Os espaços, lugares e/ou zonas interiores que são visíveis no exterior pretendem camuflar entradas e/ou saídas, estabelecendo uma correspondência com as dificuldades da vida, que nem sempre encontram uma saída. Do mesmo modo, o espaço exterior ou o estar «fora de», que também é visível no interior da peça, cria a possibilidade de preencher «o dentro» com outra forma. Fée Couturière é uma espécie de modelo entre vida e arte, como um molde — embora não seja construída a partir de um, remete para a sua fabricação: preenchido, recebe no seu negativo o positivo de uma forma renascida.

No restauro e na conservação de tapeçarias existem duas tramas: uma como elemento da tecelagem que integra e une o pano; e outra como história ou composição dos acontecimentos que narra a história que contada. Tanto uma como outra fazem parte da obra e não podem ser separadas: quando um pedaço da tapeçaria é cortado, tanto o elemento da tecelagem como a história se desfazem. Esta descoberta será decisiva e fundamental para o trabalho artístico de Bourgeois: a vida é inseparável da arte e vice-versa.

Para o pássaro, «o ninho é indiscutivelmente uma cálida e doce morada».[8] Para o pássaro costureiro de cauda comprida, que constrói o ninho perto do chão, ele é não só uma cálida e doce morada, mas também uma morada segura, protegida e cosida. Este pássaro costura o ninho entre folhas largas e resistentes — com o bico, ele fixa a sua morada. Protege a sua casa. O pássaro costureiro é um tecelão, tal como Louise Bourgeois, que tece a vida à arte, conservando as coisas juntas.

O desejo de construir e criar é um movimento constante entre dentro e fora, pela mão que modela, talha e/ou corta. Este movimento encontra um ritmo de vai-e-vem, ou de ir-e-voltar, quer na arte, quer na vida. Bourgeois estabelece uma correspondência entre passado e presente semelhante às mãos que trabalham no interior e no exterior da escultura: ela (re)constrói e (re)cria um modo seguro de sair e de voltar a entrar. Descobrir um espaço de refúgio e/ou um de armadilha dentro ou fora da peça como na vida, garante-lhe a sobrevivência: dar forma no exterior ao que permanece no seu interior. A artista concebe uma dialéctica entre vida e arte, passado e presente, dentro e fora, que lhe dá lucidez para continuar a trabalhar: na passagem de uma escultura a outra, ela conserva as coisas juntas, reconstrói, recria, repara e renova-se.

 

 

[1] Marie-Laure Bernadac, Louise Bourgeois, Louise Bourgeois: «La Fée Couturière est un petit oiseau. Le titre était en français dès le début. C’est une pièce où il y a des trous, plusieurs étages et c’est comme un labyrinthe. On peut mettre sa main dedans et on ne sait pas où est l’entrée, où est la sortie. C’est un nid d’oiseau pendu dans les arbres. En haut il y a un crochet et la pièce peut tourner sur elle-même», p.70.

[2] Escultura em gesso, 1963. Dimensões: 47 x 74 x 54,3 cm.

[3] A Poética do Espaço. Tradução António de Pádua Danesi. Martins Fontes, São Paulo, 2008.

[4] Ibid., p.106.

[5] Bourgeois conta como começou a desenhar: um dia, Monsieur Genault, o desenhador das tapeçarias, faltou ao trabalho quando era preciso e, como não havia telefone, a mãe de Louise sugeriu que ela ajudasse a fazer os desenhos, Donald Kuspit, An Interview with Louise Bourgeois, pp.19-20.

[6] Ibid.: «And it also taught me that art is interesting, and that it can be useful, (...)», p.20.

[7]Robert Storr, Paulo Herkenhoff, Allan Schwartzman, Louise Bourgeois, Louise Bourgeois in a conversation with Paulo Herkenhoff: «Life is organized around what is a hollow», Phaidon, Londres, 2003, p.25.

[8] Gaston Bachelard, A Poética do Espaço, Tradução António de Pádua Danesi. Martins Fontes, São Paulo, 2008, p.105.

Todas as traduções são da autora, excepto onde assinalado.

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* Todas as traduções são da autora, excepto quando assinalado.