Tem sido uma das grandes alegrias da minha vida de escritora enviar o leitor por caminhos e veredas enganadoras. Não o faço com deliberação malévola ou por vontade de iludir. Faço-o levada pela minha própria ilusão, e parte da citada alegria é descobrir que me enganava. Sabe-se que o mentiroso eficiente é o que se convence da sua própria mentira. Parece-me hoje crível que o livro raramente tenha a ver com o que se diz dele e, se tem mais que dois dedos de testa, acomodará mil e uma palestras.

O Pequeno Mundo teve a sorte de ser pouco lido, o que o mantém ainda fresco. Mais lidos foram a nota inicial e a dedicatória, fazendo por vezes as vezes da leitura do livro, com a vantagem de não desperdiçarem tempo e recursos ao leitor e ao crítico. Aquela advertência inicial parecia programa ou manifesto, enxotando quem não suportasse livros assim — embora duvide muito do bom resultado da advertência, hoje subida ao céu dos indecidíveis; se sacudia por um lado, aguçava a curiosidade e agudizava o engenho de outros, que se aventuravam para inspeccionar a cada passo as ideias negativas do manifesto. Entravam no mundo dos livros que não eram sobre o 25 de Abril. No acumulado da História, já não eram poucos. A nota queria fazer crer que no livro por vir não se ia falar do que todos falavam na altura, embora estes todos, em análise, se revelassem problemáticos, tratando-se de uma época que, em retrospectiva, se rebolava como poucas no realismo mágico sul-americano. Vá-se lá saber o que entende o comum dos mortais por «realidade». O livro não era sobre o 25 de Abril, nem sobre o 11 de Março, nem sobre o 25 de Novembro, nem sobre a guerra colonial, nem sobre a identidade nacional. Queria dizer, esse pré-aviso, que a autora dessas linhas sobranceiras não alinhava pelo que ela julgava ser o lugar-comum da época. Mas o romance, ele próprio, não desalinhava dela em excesso. Acabava por tornar central um tema da política ordinária, a partir dele revelava preocupações pós-modernas e meta ficcionais, essas sim, de época, recuperando clássicos em todas as suas declinações, em que O Pequeno Mundo rabiscava e que catrapiscava a bom catrapiscar. Entre elas o esquecido e pouco praticado género epistolar, espécie dramática, de diálogo meramente diferido. A acção principal do romance, como muito bem viu Abel Barros Baptista no prefácio da edição da Assírio e Alvim, é a troca de cartas. Mas grande parte dessa actividade é constituída pelos desesperos de quem tem de lidar com o seu tempo. 

Depois, O Pequeno Mundo dedicava-se a Camilo Castelo Branco. Dedicava-se primeiro no sentido maternal, de quem se dedica a filhos e família. Nesses anos em que preparei e escrevi o romance, dediquei-me a ler e amar a obra de Camilo, achando-lhe graça, admirando-lhe o génio inventivo nas maneiras, de ser, de dizer, de escrever, a sua rebeldia, o seu pragmatismo, o seu profissionalismo, o seu destino — sempre injusto, o maldito destino. Não sei donde terá surgido a ideia epistolar, talvez venha a sabê-lo. Mas não estou acima de imaginar que, tornando-me amiga de Camilo, tenha querido escrever-lhe. Ou escrevê-lo. Porque, sabeis? It is what we do.  A meio do romance surgiu-me a correspondência de Camilo com o homicida deportado, o seu grande amigo Vieira de Castro, que assassinara friamente a linda adúltera com quem era casado. E vejo um Camilo novo, cego para o seu próprio adultério, que me intriga e justifica no inquérito romanesco pela moralidade aplicada. O que há nesta dedicatória? Primeiro, o que se espera, penso, uma oferenda mística que dizia admiração e identificação. Uma romancista que, ao entrar no ofício, entrega ao seu patrono a humilde criação. Ela vem dissimulada de «imitação», para maior glória do “imitado”, mas é afinal um subterfúgio. Dedicando a obra a Camilo, restrinjo o universo da identificação (minha), logo da referência (de outrem). A obra passa a ser do Camilo e a ter o seu beneplácito tácito. É uma submissão estratégica, uma instrução de leitura. Pode ser um punhado de areia nos olhos de quem lê. Agora que penso nisso, a intenção de imitar, melhor, de fazer um pastiche do «estilo» de qualquer autor, dificilmente pode considerar-se uma actividade de admiração unívoca. Dito simplesmente, a dedicatória implica apenas isto: «Querido Camilo, gostei muito de te ler e conhecer. Andei a boiar nos teus livros um par de anos. Foi uma felicidade de descobertas literárias que me vão dar jeito para o livro. Se não te importas, vou levar tudo o que me for conveniente. Uma das descobertas é que a excitação eléctrica da linguagem deve reinar, se há alguma coisa que deva reinar. A tua liberdade como escritor ensinou-me a minha liberdade.» Dito assim é um bocado piroso, eu era muito sensível ao piroso (mas nunca no Camilo, embora algumas passagens precisassem de folga crítica).  Por outro lado, a autora da dedicatória, ao entrar na arena, diz tomar partido pelo velho contra o novo, voltando pós-modernamente às linguagens refulgentes, contornando nouveaux romans, neo-realismo, realismo mágico, et  tantos al. Tinha esta fantasia coalescente de enxertar novo no velho, enfim, uma ideia que não pegava. E ainda, já agora, tomava a dedicatória o seu lado no combate literário da época: Eça de Queirós ou Camilo Castelo Branco? Aquilino, regional, estava fora do combate nacional. Eça de Queirós representava a realidade dos grandes centros urbanos do Chiado às Avenidas Novas, através da luneta da ironia sofisticada de quem vê o Chiado pelo canudo dos Campos Elíseos. Muito Eça não entra neste comboio para a cafraria, a começar pelas Minas de Salomão, Suave Milagre e outros. Não querendo com isto dizer que O Primo Basílio e Os Maias não sejam fantasistas e bem sensacionalistas. Do outro lado da barricada, Camilo, com as suas berças, as suas brenhas, os amores de perdição, a linguagem arcaizante, os arquivos senhoriais, os cronicões, os fidalgotes, os fojos, os padres, os bastardos, as solidões povoadas por uma gente primitiva do tempo da guerra civil, as suas fases, romântica, realista, romântica…E a ironia? Sim, a ironia também, mas do Porto e de Seide. Ou seja, Camilo era o passado provincial e rústico, Eça o futuro na União Europeia. E a autora era contra, o normal é contra.

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