Frederico Pedreira

 

George Saunders, reconhecido autor de vários livros de contos (entre os quais Dez de Dezembro [Ítaca, 2016] e Pastoralia [Antígona, 2017]), publicou o seu primeiro romance, Lincoln no Bardo, um livro manifestamente excêntrico. Esta obra mereceu vários elogios, em recensões publicadas, por exemplo, no The Guardian e no The New York Times. Em Portugal, o livro saiu pela Relógio D’Água (com tradução de José Lima) no mesmo ano em que foi originalmente publicado nos Estados Unidos. Também no nosso país tem sido merecedor de iguais elogios, sobretudo pela inovação contida na sua narrativa.

Os livros em prosa (sobretudo os estrangeiros) que tornam evidente uma inovação narrativa costumam ter em Portugal um efeito nefasto mascarado de benesse: deixam os críticos e os autores portugueses atordoados com a novidade (daí a torrente de encómios); o entusiasmo (geralmente de curta duração, porque assente no frágil sentido de novidade dos pós-modernismos) leva a um incremento de vendas; torna o nosso país um bocadinho mais parecido com os Estados Unidos ou com a Inglaterra (um pouco como a chegada da Netflix a Portugal); e deixa-nos a todos um pouco mais tolerantes quando respiramos o perfume diferente dos turistas em Lisboa. O problema é que o espanto desinteressado pelo efeito da novidade com sotaque estrangeiro nos deixa progressivamente mais afastados do que realmente importa num livro, que não é bem o seu plot (é tão fácil dizer enredo), mas outra coisa.

Naturalmente, com o advento das séries norte-americanas em Portugal, ficámos todos mais conhecedores (especialistas, quiçá) no que diz respeito à cultura americana. Não raras vezes, o brilhozinho nos olhos do jovem português que refere os nomes Obama, Trump, ou Kardashian é ligeiramente mais intenso do que quando ouve os nomes Costa, Cavaco, Sobral. Hoje, reclamamos para nós o direito de termos algo a dizer sobre o ponto de situação político e cultural dos Estados Unidos. Somos uma espécie de eleitores à distância dos Estados Unidos, e, de forma ténue, muito ténue, o nosso brilho nos olhos quando fazemos coro da lista de compras da The New Yorker denuncia a nossa utopia estadunidense.

O clichê da crítica portuguesa é um exasperante mas natural resultado das páginas dos suplementos culturais estrangeiros. Um livro como o de Saunders anda nas bocas de muitos leitores portugueses, mas ninguém sabe muito bem porquê. Diz-se que é um livro «estranho», que trata do falecimento do filho mais novo de Lincoln, Willie, que a «acção» (como nas ditas séries norte-americanas) decorre numa só noite (fala-se nessa habilidade narrativa como se constituísse de facto novidade e Joyce nunca tivesse existido), num cemitério em Georgetown. «Bardo», explicam-nos os comentadores, diz respeito a uma espécie de estado transicional entre a morte e o retorno à vida, definido na tradição do budismo tibetano. Ora, acontece que Willie, o filho de Lincoln que morreu precocemente, ainda criança, é levado para o cemitério de Oak Hill e aí permanece durante algum tempo nesse estado de transição. Só se despedirá definitivamente das preocupações terráqueas quando sentir que o pai, que visita várias vezes o seu túmulo, está pronto para lhe acenar o adeus eterno. Roger Bevins III, Hans Vollman e o Reverendo Everly Thomas são personagens constantes ao longo de toda a obra e partilham do mesmo estado transicional. Ora fechados nas suas «caixas-de-enfermo» (não reconhecem que estão mortos), ora esvoaçando pelo cemitério nas mais diversas formas (psicológicas, fisionómicas) distorcidas, estes espíritos entretêm-se a recapitular até à exaustão as histórias do seu passado, entrecortadas com remorsos, surtos de autocomiseração e repulsa alheia. Lemos as falas destas personagens (digo falas porque o livro pisca constantemente o olho ao teatro), deparamos com as tais caixas-de-enfermo, percebemos os seus tormentos e as suas angústias com restrito espaço de manobra (física, emocional), e lembramo-nos da macabra gargalhada conjunta de Winnie e Willie, o casal de Happy Days, peça de Beckett, ou da imobilidade forçada e da inércia espiritual de Hamm, Clov, Nagg e Nell, em Fin de partie, do mesmo autor.

Lincoln no Bardo faz as delícias do académico. Cumpre os requisitos todos do pós-modernismo em literatura: a polifonia de vozes, a rasura da noção de género literário por via da sua escrita aberta, o uso de factos históricos enxertados na tessitura ficcional. O tempo é o do presidente Lincoln e da Guerra Civil Americana, de uma situação política e social em ponto de ebulição, em que as pressões de toda a espécie vergam um homem já vergado por natureza pela depressão: o próprio Lincoln. Mas por mais voltas que Saunders dê ao enredo, servindo-se de um armamento de técnicas narrativas, a sua verdade está presente tão-só na figura deste homem vergado, que visita o túmulo do filho sempre como se fosse pela última vez. É o silêncio negro de Lincoln o brilharete deste romance, a grande técnica, tão antiga: um ser humano desolado pela dúvida e pelo medo que se impõem após a inevitabilidade da separação.

A mestria de Saunders consiste em tratar um assunto mais do que tratado (o precoce falecimento do filho de Lincoln, o agravamento da sua disposição melancólica, todas as implicações sociais e políticas que as suas decisões tiveram no decorrer desses anos da Guerra de Secessão que dividiu os Estados Unidos, entre 1861 e 1865) com um distanciamento extremamente apurado. Não se trata somente da recusa do sentimentalismo, muito menos dos enxertos em forma de relatos e descrições de natureza histórica com que o autor engrossa o volume, ou sequer do desvario espiritual que atravessa as falas das muitas personagens que povoam o romance, e que no final (num acesso de sentimentalismo, felizmente de curta duração) se reúnem, esquecendo as suas querelas e os problemas de consciência com as suas acções e a sua orientação ética em vida, para ajudar o pequeno Willie a libertar-se da sua caixa-de-enfermo, esse símbolo da indecidibilidade do período de transição do bardo, e a partir para a vida eterna num outro lugar imaterial, ao mesmo tempo quevão perdendo os traços desfigurados que reflectem a fraca índole moral que os marcara em vida. Também o presidente Lincoln é ajudado, achando-se momentaneamente invadido (literalmente) por estes espíritos, que procuram levá-lo a dar ordem de partida ao filho, mas desta feita de coração aliviado. A poderosa e derradeira imagem do pai atormentado que retoma o corpo inerte do filho nas suas mãos, no silêncio de uma noite fúnebre, é diluída na triste comédia das tribulações pessoais das personagens.

Mas falava do distanciamento da narrativa de Saunders. Chamar-lhe-ia um distanciamento de fundo metafísico. A condição da própria escrita é momentaneamente colocada em xeque. Os vórtices existenciais que afligem as personagens, por via da indecisão das suas existências, encontra um correspondente apurado na polifonia de vozes e no histerismo da técnica narrativa. Tudo isto é salutar quando não se revela mero aventureirismo de escrita criativa. Não é o caso, felizmente. O distanciamento de Saunders é a sua poesia; é, digamos, a inclinação poética deste romance. Não só o distanciamento, mas a forma distanciada como é tratada a intimidade torna este livro um parente chegado de uma outra obra recentemente editada em Portugal, louvada igualmente (aqui e lá) pelas suas qualidades «multifuncionais» (cruzamento de géneros literários, equilibrismo entre o real e o fantástico, polifonia de vozes, trejeitos cénicos): O Luto é a Coisa com Penas, do britânico Max Porter (Elsinore, tradução de Daniel Jonas). Em ambos os casos, fala-se de um luto (no primeiro de um filho, no segundo de uma esposa). À semelhança de Porter, Saunders apropria-se de um assunto verdadeiramente íntimo e representa essa intimidade de costas voltadas para o leitor: Saunders não torna a dor teatral, pese embora a elevada circulação de espíritos no seu romance. É nas entrelinhas das historietas de cada personagem e nas descrições hiperbolizadas dos factos (veiculados através das colagens dos já mencionados textos que o autor resgata dos arquivos históricos) que o carácter inóspito e inexplicável da morte de uma criança se revela inteiro. É no contraste com interesses secundários (para o efeito) de uma sociedade americana prestes a renascer que a aflição, sentida como gigante e ao mesmo tempo minúscula pela figura invariavelmente vergada do presidente Lincoln, se torna palpável ao leitor. É também numa tradição rememorativa e biográfica da escrita, por meio de uma por vezes mesquinha recapitulação das vidas das personagens, que a morte ganha o seu devido e receoso peso. Porém, poucas vezes Saunders trata a intimidade de outrem como se a transportasse em si mesmo (o que seria desleal), na condição de autor com um assunto pesaroso em mãos. O seu devaneio é explícito e afirma-se enquanto tal, um devaneio inspirado, uma escrita encantada com o seu estado de diversão. Sendo o tema negro, custa-nos a acreditar que assim seja. Esta diversão nota-se igualmente em Beckett, precisamente no humor, que é a linguagem a falar pelos cotovelos. Sorrir na penúria torna Saunders herdeiro de Beckett, e é esse legado tenebrosamente bem-disposto que faz deste livro um romance respirável.

O que prevalece de poético em Lincoln no Bardo não é uma ou outra passagem de excessiva beleza, um ou outro trecho que podia ser partido em verso, mas a acentuação de uma verdade que atravessa a melhor poesia: a intimidade não é dada por adquirida entre autor e leitor, isto é, o que é dito não merece, por definição, lugar cativo nas emoções do leitor. A intimidade implícita no enredo é apresentada às avessas, o que torna claro o facto de Saunders perceber que a compreensão do outro, da sua dor e da sua consciência, envolve uma consciencialização da distância que necessariamente nos separa de outras mentes. Ao mesmo tempo, o distanciamento que marca o seu tratamento da intimidade das personagens torna também evidente um certo respeito pelo leitor, no sentido em que mostra que é difícil chegar a ele, e que prefere a via cómica e divertida, sabendo que se o leitor estiver interessado ser-lhe-á natural tornar-se cúmplice nessa partilha íntima da escrita.

Não basta tratar um episódio histórico célebre (a morte do filho de Lincoln) para garantir público. Saunders faz do funeral uma festa, ainda que não se converta ao caminho fácil do absurdo. Volvidos tantos anos, o desplante do seu riso na desgraça alheia é a melhor homenagem que pode fazer ao episódio da morte do pequeno Willie. Ao invés do cansado romance histórico, Saunders faz o salutar reconhecimento de que só por intermédio de vislumbres lhe é possível  tratar o acontecimento histórico em causa. Como não lhe é possível capturar do passado uma atmosfera, que muitas vezes é o que realmente motiva a descrição histórica, decide-se a substituir uma atmosfera perdida por outra, da sua lavra, disfarçando-a com elementos factuais retirados de inúmeras obras sobre a vida de Lincoln e sobre a Guerra Civil Americana. A sua diversão é incalculável, e como ninguém pode fazer um esgar sorridente num funeral, cobre o rosto com as páginas dos arquivos históricos. A melancolia de Lincoln torna-se grotesca, já no final do romance, e Saunders leva-o a tomar o filho morto nos braços. Saunders aguarda este momento durante a narrativa com uma impaciência mal disfarçada, e ao longo das muitas páginas antes deste momento nota-se como o escritor se assemelha a uma criança aos pulos antes de entrar na festa. A festa, como já se sugeriu, decorre num cemitério. De morte propriamente dita, pouco se fala. A forma displicente como é tratada a intimidade de cada personagem atormentada é reveladora de que só a energia da escrita tem a capacidade de libertar os espíritos do bardo, e sendo tudo invenção de Saunders, deixemo-lo então ficar com os louros.

Cada romance realmente inovador que surge a conta-gotas nestes dias parece tornar cada vez mais urgente a questão de se resolver de uma vez por todas a necessidade ou a pertinência deste género literário nos nossos tempos. Livros como o de Saunders ou o já referido O Luto é a Coisa com Penas, de Max Porter, para além de nos espantarem pelo vazio literal que deixam em muitas das suas páginas (como pequenos poemas ou trechos de peças de teatro), levam-nos a considerar que o romance padece nos nossos tempos de sucessivos ataques de tosse convulsa: não há, de todo, linearidade, e o leitor pergunta-se: para quê tanta invenção e retorção estilística? Não se trata apenas de contar uma história? Saunders e Porter parecem dar voz à zanga com essa noção de romance. Precisaremos nós de mais histórias, quando os melhores enredos se têm encontrado muitas vezes em séries televisivas (e agora até já temos a Netflix)? À luz desta pergunta, podemos fazer outra: será que a história do livro deve ser contada aos soluços ou ao pé-coxinho para merecer deveras a nossa atenção, como o bobo mais habilidoso da corte? Muitas páginas do livro de Saunders mereciam o toque da tesoura de poda, e o devaneio estilístico soa por vezes a pirueta colorida para impressionar o crítico-escritor na sua tribuna de fim-de-semana. Não deixemos, contudo, de apreciar a poesia deste livro: Saunders, nos seus momentos mais cansados de ser escritor, acaba realmente por se revelar um desses espécimes, precisamente quando se mostra obcecado com a figura curvada do presidente (infantil no atabalhoamento das suas emoções), com o vício da moral que faz transpirar cada personagem-espectro dentro da respectiva caixa-de-enfermo (em pleno cemitério), com o prejuízo existencial em que o pequeno Willie se acha quando percebe que a dor do seu pai não deverá abandoná-lo tão cedo. Sobretudo, Lincoln no Bardo é um livro fundamentalmente engraçado, de uma graça fundadora da razão de ser das suas personagens, e quando estas ficam sérias, isto é, quando se libertam do bardo e rumam ao paraíso ou ao inferno, movidas pelo espírito missionário com que ajudam o pequeno Willie a descolar-se da memória do pai e vice-versa (como duas sensibilidades siamesas), o livro termina numa espécie de catarse mal resolvida. Esta indecisão é o emblema da obra de Saunders: reflecte a desagradável ideia de que, nas reticências do bardo, do limbo ou das nossas «caixas-de-enfermo», nunca teremos sossego, tal como em vida. Para isso, basta uma vontade, uma ambição ou uma mera desavença com as nossas consciências. Até ao ponto final da morte, seremos sempre a assombrosa figura do presidente Lincoln, curvado a exumar o que restou de nós e já não regressa.