A convivência entre a música tradicional portuguesa e a música dita comercial tem uma história complicada, com o manto da língua com que se canta a cobrir outro tipo de discussões mais importantes. A história da música moderna portuguesa não pode, no entanto, descurar a relação que alguns dos melhores mantiveram com a tradição, a maneira com a subverteram e a modernizaram. Terá sido crucial, certamente, a emergência dos artistas associados à FlorCaveira ou à Amor Fúria, duas editoras que renovaram o interesse pela música cantada em português. Mas antes, mesmo que não considerados devidamente, já havia nomes como os Três Tristes Tigres ou os Sitiados do saudoso João Aguardela a reciclar e a modernizar não só canções em português, mas uma base de tradição que, nalguns casos, era menos reconhecível do que seria expectável quando falamos de recuperar coisas. O papel de Pedro Ayres Magalhães, quer nos Heróis do Mar quer na Madredeus, será uma das histórias cruciais que falta contar devidamente, nomeadamente na influência que teve para a música portuguesa hoje.

A proliferação de nomes importantes a cantar em português tem crescido, sem dúvida favorecidos pelo trabalho de A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. A Forma de Vida procurou dois projectos que, curiosamente, vincam o seu tradicionalismo nos circuitos mais cosmopolitas: os Lavoisier (ver entrevista) e as Sopa de Pedra, um grupo que canta essencialmente a capella, composto por dez mulheres. Viajámos até ao Porto para conversar com dois dos seus elementos, Sara Yasmine e Mariana Gil, que assumiram a posição de ligação com a imprensa, embora relutantemente — as ideias e as histórias misturam-se e sobrepõe-se no entusiasmo pelo trabalho que têm vindo a elaborar nos últimos anos, especialmente nos últimos meses em que gravaram o primeiro registo oficial. Numa conversa mais do que numa entrevista, falaram-nos da génese, do funcionamento, dos objectivos e dos planos para o futuro.

O encontro teve lugar no Centro Comercial Stop, no Porto, um espaço onde as lojas foram convertidas em estúdios e locais de ensaio de vários músicos. Ao longo dos três pisos do edifício, as montras das antigas lojas estão pintadas de preto e o ambiente chega a ser soturno, mas por trás de cada um desses vidros escurecidos ensaia uma banda, grava-se uma demo, um disco, ou dá-se um concerto, e os sons que durante as vinte quatro horas do dia povoam (e chegam a ensurdecer) os corredores e escadas do centro atestam isso. É aqui, na sala 311, que Sara tem uma sala de ensaio.

Mariana explica o começo da banda: «No centro havia a aspiração de fazer uma coisa bem feita, continuada, e o gosto de cantar o que cantamos e de gostarmos de estar juntas. Sem saber muito bem o que poderia acontecer com isso: se criar uma banda ou sermos só um grupo que cantava, uma coisa de bairro. Mas isso fez com que agora as músicas estivessem muito maduras. Levámos muito tempo a chegar aqui. Os arranjos foram todos esmiuçados até chegarem ao ponto em que estão. Escolhemos as músicas e fazemos os arranjos, só as dez.»

As Sopa de Pedra são Teresa e Inês Campos, Rita Costa, Inês Loubet, Maria e Benedita Vasquez, Inês Melo, Sara Yasmine, Rita Sá e Mariana Gil, «todas entre os vinte e muitos e os trinta». Dia 28 de Outubro vão lançar o seu primeiro álbum, Ao Longe Já Se Ouvia, na Casa da Música, no Porto, cinco anos depois de se juntarem oficialmente. São primas, irmãs, amigas, algumas viveram em Macau na infância, com as famílias, encontraram-se no Porto, perderam o rasto umas das outras, voltaram a cruzar-se nos tempos da universidade, em Lisboa ou em Londres. Algumas chegaram a viver juntas. Traçar a genealogia de parentesco e afinidades de cada um dos elementos das Sopa de Pedra assemelhar-se-ia muito a um romance de Agustina Bessa-Luís, com o Porto sempre enquanto ponto de união e de encontro.

Foi em 2012 que Sara Yasmine chegou ao grupo, que ainda não tinha nome, com uma proposta arrojada: irem ao HISTeRIA, um festival de dança e música étnica, na Eslovénia. Daí surgiram as Sopa de Pedra e a música tradicional portuguesa que recriam. Sara explica que a sua adesão aconteceu quando «já havia um grupo, ainda sem nome, amigas que cantavam juntas. Não conhecia algumas delas. Quando me juntei foi com uma proposta concreta: organizarmo-nos para ir tocar à Eslovénia.» As bandas participantes teriam de levar material do seu país, por isso a música tradicional seria um requisito obrigatório. «Cada grupo fazia um workshop prévio ao festival, de duas semanas, só para outros músicos e intervenientes artistas, em que também havia formação. Passar duas semanas só com artistas foi a parte que mais nos apelou. Precisávamos de ter material para levar e tinha de ser português. Todas nós temos um background relacionado com a música, inclusive em projectos de educação pela arte. Eu estudei música e ouvia música de intervenção desde pequena.» O Festival HISTeRIA assume importância na solidificação da banda, na consolidação de um repertório, e na necessidade de tomar decisões sobre como proceder enquanto grupo. Mas essa relevância resumiu-se a uma necessidade de conversar sobre aquilo que faziam e a maneira como o queriam fazer dali para a frente, uma vez que acabaram por não ir (entre as razões para não terem ido à Eslovénia havia coisas tão prosaicas como o facto de terem exames na faculdade).

O projecto ganhava, no entanto, solidez, e a união à agência Turbina foi essencial para o seu crescimento. Essa união dependeu da ligação a Bruno Rocha, por via do movimento para salvar o Stop: «Em 2012 conhecemos o Bruno Rocha, da Turbina, enquanto colega na Stopestra, uma orquestra de músicos amadores e profissionais que se juntou no Stop para impedir que fosse demolido», explica Sara. «Quase em tom de desafio, dirigiu-se a nós a perguntar se éramos um grupo a sério e o que é que aconteceria se ele nos marcasse uns concertos. Foi essa provocação que nos levou a pensar que tínhamos de definir um repertório fechado para nos apresentarmos naquela que seria a nossa tour de Inverno: quatro concertos pelo Norte, dois numa feira do livro, um num bar e outro num auditório.» Bruno Rocha e Pedro Nascimento formavam a Turbina e a ligação da banda à agência consolidou ideias: «Foi aí que ficou definido que seríamos as dez, nem mais nem menos, e que seria só a vozes com alguns apontamentos de percussão para as fazer sobressair.»

A logística para juntar dez mulheres para concertos, ensaios ou gravações é complicada. Mariana, que faz investigação em Matemática, confirma a dificuldade, notando que «várias têm outras profissões e vivem o grupo como um hobby. Outras, como a Sara, dedicam-se só à música». Sara intervém para enumerar as várias actividades de que se ocupam os membros da banda: «Tenho outros projectos paralelos, com colectivos, eu em parceria com outros. Mas são só relacionados com a música. Assim como a Inês Loubet e a Teresa Campos. A Rita Costa, a Benedita e a Inês Melo estão entre a educação e a música, como a Rita Sá. A Maria dedica-se à produção. A Inês Campos é licenciada em Dança.» 

As crianças são, aliás, outra das dificuldades logísticas, à medida que vão aparecendo os bebés: a todas as actividades que têm, as Sopa de Pedra juntam a maternidade (Sara e Mariana contam-se entre as cinco que já são mães). Em várias alturas ainda cantaram grávidas; noutras, revezaram-se para não interromperem os concertos. Num caso específico, apenas três delas compareceram num concerto em França — Sara estava grávida e um atraso com autocarros deixou-as desfalcadas. Sara sublinha que é impreterível estarem preparadas para continuar a trabalhar quando alguma está ausente: «não é impossível fazer concertos sem as dez», apesar de as ausências terem impacto no grupo, na maneira como soam as canções. Mariana explica que «os graves soam bem sempre dobrados. Quando falta uma ou outra fica a faltar força nos graves, mas põe-se um agudo para compensar»; porque «não são vozes trabalhadas, procuram a contribuição mais adequada para cada voz», embora a «participação de todas seja importante para criar um arranjo». A maioria não tem formação vocal, e o exercício de cantarem a três ou a quatro assume uma tonalidade «crua». Por outro lado, a heterogeneidade do grupo permite que diversas mais-valias possam contribuir para o todo, não apenas em termos musicais: é Inês Campos, por exemplo, a responsável pelo design do disco.

O recente descolar da música tradicional da conotação pejorativa que lhe vinha associada, um certo provincianismo latente que parecia afugentar os músicos portugueses, parece não lhes passar despercebido. Esse afastamento do negativismo associado ao que é provinciano sente-se, aliás, em várias áreas, como admite Sara: «Tenho a impressão de que está na moda pegar no tradicional e apresentá-lo de uma nova forma. Até em outras matérias que não a música, como em recuperação de património imóvel, na ocupação de edifícios antigos, ao habitá-los e torná-los úteis. No artesanato, criando objectos singulares, com um design diferente. Há um certo movimento e o objectivo é preservar a cultura portuguesa. A música roça isso.»

O movimento de interesse pelo tradicional que varre a sociedade portuguesa desde há uns anos pode não ter tido ainda o impacto que muitos conservacionistas esperavam, mas tem permitido, por outro lado, e como no caso óbvio das Sopa de Pedra, que seja um início para algo novo ao invés de uma maneira de conservar tradições. Mariana diz-nos que as Sopa de Pedra não fogem desse movimento, apesar de não estarem muito preocupadas com regras: «Vamos todos um bocadinho nessas modas e marés, mas não há a moral de “deve manter-se a tradição, deve dar-se voz aos pais e aos avós”. Mas a verdade é que há regiões com tradições, harmonias e instrumentos tão ricos que não há mais ninguém que possa fazer isso a não ser quem mantém essa ligação ao país e às tradições. Para nós é uma grande mais-valia. Às vezes parece que há uma grande condescendência em relação às tradição, um “nós é que vos estamos a trazer para cá, e vos estamos a levar ao colo”, quando pode ser ao contrário — a tradição é que nos leva ao colo e, se formos por ali, temos muito a ganhar.» A convicção de que a tradição é apenas uma base e não um fim parece reforçada pela ideia de Mariana de que as canções, e o trabalho que fazem sobre essas canções, é permeável às mais diversas influências: «Nada nos impede que a influência da música búlgara, africana, asiática e de outros grupos polifónicos se revele um pouco nos nossos arranjos. Apaixonámo-nos por essa riqueza que não é tão conhecida do público.»

Mas como é que dez mulheres, com actividades diversas e habitando em locais tão diferentes entre si, sobretudo em centros urbanos como Lisboa, Londres ou Porto, vêem a ligação ao mundo rural a que a sua música tão obviamente apela? «Estar de fora, não ser das aldeias, influencia o olhar e as possibilidades das formas que as canções podem tomar», admite Sara. «Musicalmente temos influências muito diferentes, e quando ouvimos alguém a cantar no campo, tias ou isso, vamos por outro lado porque temos outras influências. Àquele registo, àquela candura, àquela música tão despida, trazemos um olhar novo, para o qual contribui o facto de vivermos sujeitas a influências diversas.»

A ligação com o mundo rural não foi premeditada, nem teve «o intuito de recuperar». A atenção que dedicaram às canções colocou «a música de recolha como um princípio inspirador», não como um propósito. Aliás, Sara deixa claro que não fazem nada que já não tenha sido feito, por exemplo, pela Banda do Casaco nos anos 70 e 80, e Mariana revela que «vamos buscar a música a discos de artistas dos anos 40, 50, 60, 70, que fizeram a recolha; eventualmente, uma ou outra chegou-nos de ouvido». Apesar de não se dedicarem exclusivamente ao trabalho de recolha, e assumindo uma postura claramente diferente quanto ao tratamento das canções que usam no repertório, ainda assim acreditam que o que fazem pode ajudar a «recuperar e a manter no tempo valores importantes culturalmente». A música tradicional portuguesa é uma consequência daquilo que estão mais à vontade a fazer.

As Sopa de Pedra admiram o trabalho de artistas que colocam nas suas músicas «batidas electrónicas misturadas com samples de pancada do bombo, do ornamento da voz da dona Idalina, do riff da sanfona», algo que «revela o potencial e o número de coisas que se podem fazer quando se ultrapassam as regras». Aquilo que esses artistas fazem é dar às canções «uma dimensão diferente daquela que têm no habitat natural». Contudo, ainda não é por aí que seguirão num futuro próximo. Sara, no mesmo espírito com que imaginamos ter abordado o grupo já existente em 2012, anuncia que «o arrojo estará presente no que viermos a fazer», confessando que todas sentem um misto de vontade de se libertarem e, por outro lado, de continuarem neste caminho, uma «vontade de explorar outras coisas sem esquecer o que temos feito», até de escreverem letras em nome próprio; mas permanece sempre a consciência de que aquilo que as distingue é o conjunto das suas dez vozes, e o que vier será construído em torno dessa singularidade.

 

O álbum saiu no dia 6 de Outubro e terá lançamento oficial num concerto na Casa da Música, no Porto, dia 28 de Outubro; O primeiro single já está disponível: «Cantiga de la Segada»

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