Joana Meirim

A toponímia lisboeta costuma ser a guardiã da memória póstuma de muitos poetas. Se muitos são indissociáveis das ruas a que deram o seu nome, há outros que estão ligados à topografia e, felizmente, não por terem o nome de uma rua. Qualquer habitante da zona de Arroios, qualquer cliente assíduo do café-restaurante Danúbio ou da Tarantela, ao largo de Neptuno, já terá reparado na figura de Adília Lopes. Vivi mais de duas décadas na rua José Estêvão e observei várias vezes esta figura, antes mesmo de saber que a Adília é uma poetisa (conhecimento que devo ao Herman José, que a entrevistou num programa em 2001). Depois do programa do Herman, a rua José Estêvão passou a ser, pelo menos para mim, a rua da Adília Lopes.

O bairro da Adília está presente no seu novo livro de poesia, Manhã, desde logo explícito na nota final à primeira secção – José Estêvão, Verão de 2014. Esta rua em particular e todo o bairro da Estefânia são os espaços frequentados por Adília Lopes e dos quais faz questão de não sair. Adília diz-nos que vive na mesma casa há 54 anos (p. 43) e que o bairro da sua infância é o bairro da sua vida, a que já tinha dedicado um poema de amor: “Rua José Estêvão, mon amour/ Minha aldeia/ Com rio e sino” (A Mulher-a-Dias).

Adília Lopes evoca neste livro memórias de infância associadas a muitos dos espaços físicos desta zona da cidade: a padaria defronte da casa que exibia na montra uma “boneca de faiança, da cintura para cima, a comer um pão-de-leite com fiambre” (p. 15); uma loja dos anos 60 na Rua de Arroios onde só se vendia plásticos (p. 14); as explicações de inglês com Miss Helen, na Rua de Macau, no antigo Bairro das Colónias (p. 16); ou o episódio traumático da perda do biberon para bonecas numa viagem de eléctrico a descer a Rua da Palma (“O biberon sumiu-se na Rua da Palma com o eléctrico em andamento e eu a ver o asfalto pela fresta a correr vertiginosamente. Não fiquei triste, fiquei abismada”).

Neste livro, como nos diz numa entrevista recente ao Público, Adília fala do primeiro tempo da vida, a infância, daí o título. Este foi um tempo em que felizmente se festejavam os dias dos anos com bolos: “No meu bolo de aniversário, mais do que das velas, gostava de pralines. Esferazinhas prateadas sobre a neve, sobre a cobertura de claras em castelo e açúcar” (p. 15). A capa do livro, de Ilda David, é a imagem perfeita de que este texto é a legenda.

Recuperando o gesto de Barthes em Roland Barthes par Roland Barthes, Adília apresenta algumas fotografias da sua infância e juventude e também Proust é associado a vários episódios destas fases: “Fui com a minha avó materna no eléctrico da Praia das Maçãs a Sintra” (p. 11). Ao contrário de Barthes, que parece ter medo do estigma da biografia, pedindo explicitamente aos leitores que o leiam como se de uma personagem de romance se tratasse, Adília não encara a biografia como sinónimo de improdutividade, que só pode existir quando não há texto. Escrever e viver são gestos que não separa, fazendo jus aos versos de O’Neill, como comenta na já referida entrevista ao Público: “conforme a vida que se tem o verso vem”. Adília aproveita outro sábio conselho de Alexandre O’Neill, que constitui a primeira epígrafe do seu livro: “(Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avó, que era escritora)”. É, pois, no espaço doméstico da sua casa e no bairro onde sempre viveu que faz as pesquisas produtivas sobre a história da sua vida, sobre o seu romance familiar.

A par das memórias dos espaços da sua infância e juventude e das figuras familiares que a marcaram (a relação com a avó materna é a mais proustiana de todas), este livro refere também as memórias bibliográficas. A sua maior influência é assumida sem angústias e sem vergonha da pretensa puerilidade: “Devo tudo à Condessa de Ségur” (p. 41). São raros os casos de poetas contemporâneos portugueses que revelam, sem pejo, que os seus heróis literários são a Condessa de Ségur ou Enid Blyton e que os seus prémios literários são distinções recebidas em contexto escolar. É num tom schoolgirlish (adjectivo certeiro com que Hugo Williams descreve uma leitura de poemas por Adília Lopes num artigo do Times Literary Suplement) que evoca os sucessos na escola, para quem “estudar e ler é quase o melhor que há” (p. 126): “Foi a escrever ‘as mãos tisnadas da acácia’ em vez de ‘os ramos da acácia’ que ganhei um prémio literário aos 11 anos” (p. 51).

Na forma de falar sobre literatura e sobre a poesia que escreve, também se aproxima da família poética de Alexandre O’Neill, sobretudo quando diminui as expectativas sobre aquilo que faz. Numa crónica de 2001, intitulada “Fazer Prosa, Fazer Rosa”, Adília diz que a poetisa, ao contrário de uma prosadora, é mais comedida e o fôlego é menor do que aquele que se exige a Rosa Mota: «Eu não sou uma prosadora. Sou uma poetisa. Entendo esta situação do seguinte modo: uma prosadora é como a Rosa Mota. Corre durante muito tempo e corre grandes distâncias, tem muito fôlego, corre a maratona [...]. Uma poetisa é uma lançadora de pesos ou uma atleta que dá saltos.»

Nesta passagem, Adília redimensiona o valor da poesia. Em vez de a empolar, de inflacionar o seu valor (já há tanta gente que o faz), mostra, afinal, que a poesia não tem de ser superior ao mundo, não tendo o poeta de ser um arauto solene e melancólico da tribo ignara.

Num ensaio sobre o livro Florbela Espanca espanca, Osvaldo Manuel Silvestre destaca esta recusa de conferir à poesia um estatuto diferente daquele que se atribui à conversa mundana dos comuns mortais: “nos seus textos o mundo fala tanto como a poesia, não reconhecendo a esta nenhum direito fundamental”. A poesia não tem de ser mais importante do que a vida que se leva e não vem mal ao mundo se nos esquecermos dos versos de um poeta adequados à  caracterização de uma memória de infância: “Há um verso de Rimbaud que me lembra muito esta visão da minha infância mas agora não o encontro” (p. 11).

Adília conta, na crónica já referida, que em casa a pomposidade da poesia e o empertigamento de quem a lê sempre foram rejeitados. Este episódio é novamente retomado num texto de Manhã, intitulado “Palavras Caras”:

«Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê:

– Fiquei muito confrangida.

Passámos a chamar-lhe “a confrangida”.

Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligávamos a televisão.»  (p. 56)

O projecto poético de Adília Lopes é contido e está certamente nos antípodas da dita geração pós-Herberto Helder. A sua poesia começou a ser publicada nos anos 80 e, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, não deve nada à de Herberto Helder. Adília gosta do pop, de coisas engraçadas e inocentes (p. 121), e o seu modo de falar é avesso a psitacismo. Professa uma pobreza franciscana e é nestes termos que descreve o seu estilo: “Ou, como dizia S. Francisco de Assis (cito de cor), preciso de pouco e, desse pouco, preciso de muito pouco. É o que tenho a dizer sobre estilo” (A Mulher-a-Dias).

Manhã é um daqueles livros a que a poesia portuguesa contemporânea ainda não nos habituou, reunindo características que em simultâneo raramente se juntam: douto, biográfico, antiverborreico e jocoso.

 

 

Adília Lopes. 2000. Obra, Lisboa: Mariposa Azual.

Adília Lopes. 2002. A Mulher-a-Dias, Lisboa: & etc.

Adília Lopes, “Fazer Prosa, Fazer Rosa”, in Pública (18 de Junho de 2001).

Adília Lopes, “Poetisa e Infantil no Bom Sentido”, entrevista de Hugo Pinto Santos, in Público (20 de Fevereiro de 2015).

Alexandre O’Neill. 2005. Poesias Completas. Lisboa: Assírio & Alvim.

Hugo Williams, ‘Freelance’, in Times Literary Supplement (30 de Junho de 1995).

Osvaldo Manuel Silvestre, “Adília Lopes espanca Florbela Espanca”, Ciberkiosk, Letras, Artes, Espectáculos, Sociedade, 8 de Março de 2000.

Roland Barthes. 2009. Roland Barthes por Roland Barthes. Lisboa: Edições 70.