Alexandre Andrade

Este livro assenta sobre um postulado que surge explicitamente poucas páginas depois do início, como algo de fatal e não sujeito a contestação: o de que escrever sobre a música de Johann Sebastian Bach é uma empreitada impossível ou inútil. (Ou seja, a ideia de que aqueles que metam ombros à tarefa e que a concretizem acharão no fim irrisórios os frutos desse esforço – a música permanecerá inabordável e incomensurável e as palavras nada dirão a não ser a própria irrelevância.) Aceitar isso não implica uma derrota e tão-pouco condena o livro a ser a crónica de uma derrota. A batalha e a guerra estavam perdidas à partida.

Pedro Eiras compreende perfeitamente que o espectáculo do autor a procurar desesperadamente ângulos de ataque e brechas naquilo que é inefável não é dos mais interessantes. A abdicação é expressa, de forma firme e categórica, no segundo dos curtos capítulos em que Bach se divide: “Não procuro uma biografia, nem um tratado, nem uma análise. O que procuro? Devo falhar este livro. Mas talvez possa escrever sobre a falha da linguagem. Escrever as tentativas, os erros, aceitar que a linguagem falhe.” (p. 32).

Escrever sobre a falha: o mote fica dado. O modo, esse, será o das aproximações. Treze pessoas, mais ou menos directamente envolvidas com a música de Bach, desfilam nas páginas deste livro e descrevem as suas tangentes pessoais ao universo inefável do Cantor de Leipzig. Ao fazê-lo, servem diligentemente o propósito do autor que as convocou: encenar o efeito do indizível numa vida ou num fragmento de vida. O papel que lhes cabe é humilde mas crucial: a ausência de Bach, julgada condição necessária para se falar do próprio Bach, torna necessário que seja brandida a sua influência e que sejam  apontadas as vidas que a sua música mudou. Essa influência pode ocorrer por escolha (Gustav Leonhardt, Glenn Gould, Maria Gabriela Llansol), por afinidade conjugal (Anna Magdalena), por antecipação (Martinho Lutero, que viveu 200 anos antes) ou por coincidência que passa subitamente de acessória a fulcral (Leibniz, que, na velhice, recorda um tema de órgão tocado anos antes por um jovem músico em Arnstadt, um dos poisos de Bach durante a fase mais errante da sua vida). Nalguns casos, a presença do compositor é duplamente indirecta (os técnicos do estúdio de gravação em que Glenn Gould grava a segunda versão das Variações Goldberg, deambulando pelas ruas de Manhattan enquanto comentam as excentricidades do pianista canadiano). O grau e as variedades da influência fazem parte das circunstâncias pessoais e não são importantes. Aquilo que Eiras procura é o denominador comum inscrito em todos estes curtos episódios: o traço, pesado ou oblíquo, que um compositor deixou nos outros. Como se o sublime precisasse da carne, do tempo e da melancolia para ser descrito.

E é assim que, por um lado, o objectivo assumido de falhar se transforma num trabalho que se quer frutuoso e que, por outro, o côncavo da ausência revela o convexo destas vidas palpitantes e soçobrantes, mostradas com paciência e ternura em momentos de intensidade, dor, dúvida. A música de Bach, linguagem aérea, doméstica e grandiosa, materializa-se como a única banda sonora concebível para aqueles passos, aqueles gestos. O feito maior deste livro consiste em convencer o leitor (este leitor, pelo menos) de que essa convocatória é com efeito a forma mais justa de trazer para o livro este inefável ofuscante. Esse argumento não é apresentado com a lábia desenvolta do polemista, mas é de um argumento que se trata. Em Bach, o autor argumenta e faz-se presente, apesar da tendência para se apagar e da atenção plena que dedica às personagens, mostrando-se ainda um ouvinte extraordinário (e raras vezes um livro terá exigido de quem o escreve tão elevados atributos de ouvinte).

Usar o propósito assumido da falha e o álibi da insuficiência da linguagem poderia redundar na tentação perigosa de subtrair a escrita ao alcance da crítica e à apreciação. Nada disso acontece aqui: obviamente, Pedro Eiras sabe que expor as limitações da linguagem de forma interessante e honesta é das mais tarefas mais delicadas que existem. O mundo está demasiado repleto de autores menores que, cientes ou não de quem foi lorde Chandos, não duvidam de que a sua esterilidade e os seus becos sem saída são matéria suficientemente suculenta para assumir a forma de livro. Merece por isso ser assinalada uma obra escrita com a consciência de que é possível falhar dentro do falhanço. Outro risco maior seria o de confundir o retraimento em face do inefável com um aniquilamento pusilânime do autor,  confiante de que o Absoluto se basta a si mesmo e dispensa as efusões verbais alheias. Em Bach, o autor nunca deixa de estar presente: as personagens que escolheu foram pessoas de carne e osso (ou são-no, no caso de Jean-Marie Straub) e são agora personagens fugazes impelidas pelo desejo e pela pessoalíssima “pura paixão [que] não se pode escrever” (p. 32).

Pedro Eiras afirmou-se já, dentro da literatura portuguesa e (para quem liga a estas coisas) dentro da geração nascida nos anos 70, como um caso invulgar de prolificidade mas também e sobretudo de multiplicidade de registos, a tal ponto que o nome de Gonçalo M. Tavares surge como o termo de comparação mais óbvio, neste particular. O cruzamento de géneros e o gosto pelo híbrido surgem como consequência natural dessa multiplicidade. Bach é uma obra inclassificável – mas isso diz pouco sobre os seus méritos, numa época em que fugir às categorias se transformou em banal estratégia comercial (quem nunca se cruzou com livros ou filmes entusiasticamente rotulados de “inclassificáveis” que afinal se vêm a revelar dolorosas concessões à ortodoxia?). Acima de tudo o resto, é um livro de fé e de fidelidade, uma homenagem centrífuga que escolhe a substância humana como matéria. Mas talvez o maior e último elogio seja este: sem alguma vez pôr em causa a validade e a grandeza da literatura, Bach é uma obra literária cujo movimento é o de dar um passo atrás para deixar o lugar à música e à urgência de ouvir incessantemente essa música, de BWV 1 a BWV 1128.