João Pedro Vala

No segundo volume da trilogia acerca da vida em Gilead, Marilynne Robinson desloca o centro da acção de casa do pastor John Ames para a casa do reverendo Robert Boughton, tirando da sombra personagens que, em Gilead, permaneciam obscuras, ao mesmo tempo que prepara o volume final, ao adensar o mistério à volta de Lila, a mulher de John Ames.

Em Home, conta-se a história do regresso a casa de Glory e de Jack. Jack e Glory são adultos quando voltam para junto do seu pai, para uma casa que já tivera quatro baloiços pendurados num carvalho, “announcing to the world the fruitfulness of their household”, mas que é agora apenas uma memória de um tempo distante e feliz, como se “the present slight desolation were confetti and candy wrappers left after the passing of some glorious parade.”

Glory é uma mulher cansada. Glory sempre imaginara a sua casa como qualquer coisa projectada no futuro, numa cidade maior que Gilead, com um marido e não mais que três filhos, mas sabe agora que o caminho para casa é afinal um regresso, que a casa dela é a casa onde cresceu, onde vive o pai moribundo e onde os irmãos voltam apenas para contar histórias de um passado que está morto para todos, menos para ela. Glory viu-se forçada a olhar para trás, para este sítio que é visto por todos os outros irmãos ao mesmo tempo como “the kinder place on earth” e enquanto exílio e, como a mulher de Lot, transforma-se numa estátua de sal.

Jack é um homem cansado. Está farto de não conseguir aproximar-se de nada, de se ver a si próprio como um estranho, de não conseguir sequer perceber por que faz tudo aquilo que faz. Jack tenta explicar precisamente isto a Glory ao falar do quinto capítulo do Evangelho Segundo São Mateus: “Did you ever wonder what that means? If thy right eye offend thee? As if it were not part of thee? It’s true, though. I offend me – eyes, hands, history, prospects”. Jack volta a casa porque já desistiu de procurar uma maneira de se encontrar consigo próprio, volta à procura de uma redenção quando já desistira de se tentar perdoar a si mesmo, e volta porque se quer tornar “less unworthy of blessing”. Nas palavras de Jack, “it is the desire of the tattered moth for the shining star that has brought me home”. Jack tenta ir à igreja de John Ames, tenta, ao regressar a casa, viver lá verdadeiramente pela primeira vez. Não consegue. A certa altura, quando John Ames visita a casa de Robert, Jack resume a sua vida, ao cantar um hino cuja letra diz: “I’m on a road that leads to nowhere, I want a Sunday kind of love”. É precisamente de um Sunday kind of love que Jack anda o romance todo à procura. Mas não o encontra. Jack ouve Jesus dizer: “Ye who are weary come to me”, mas já não consegue encontrar o caminho e passa a querer apenas perder a única virtude teologal que nunca o abandonou: a esperança, que descreve como “the worst thing in the world (…) when it’s gone it’s like there’s nothing left of you at all. Except (…) what you can’t be rid of”.

O pai está muito velho, quase a morrer, mas quando sabe que o filho predilecto está a voltar a casa, recupera parte das forças, levanta-se e põe todos os dias um laço para o receber. Mas Jack demora a chegar e, quando finalmente chega, Robert, cansado de esperar, deixa-se adormecer, recebendo o filho pródigo em pijama e com cara de sono. É a aproximação da morte do pai que leva a que Jack perca finalmente a esperança de que não se conseguia livrar. Jack percebe então que não irá conseguir aguentar a morte de Robert e decide fugir de Gilead, fugir da casa para onde tentou voltar mas à qual nunca pertenceu verdadeiramente. Jack desiste de procurar um sítio onde possa reclinar a cabeça e sai de Gilead para que o pai não veja o seu filho muito amado a cair novamente. E é quando Robert já está morto, Jack longe e incontactável e Glory a viver sozinha numa casa que odeia por lhe trazer memórias de um tempo feliz quando já nada pode fazer para recuperar essa felicidade, que aparece em Gilead Della, uma rapariga afro-americana de quem Jack fora forçado a afastar-se, acompanhada do filho de ambos. E aí Glory percebe que um dia, daqui a muitos anos, o pequeno filho de Jack aparecerá no seu alpendre, exactamente como Jack aparecera poucos meses antes. Percebe que todos os passos que damos são sempre passos em direcção a casa e que ninguém se consegue nunca livrar completamente da pior coisa do mundo: a esperança. No fim, Glory percebe que “the Lord is wonderful”.

Home foi traduzido para português pela editora brasileira Nova Fronteira, com o título Em Casa.