Ana Cláudia Santos

 

Uma das premissas de Mémoire de fille, o livro mais recente de Annie Ernaux, é a de que este levou quase sessenta anos para poder ser escrito. O livro é a memória da «rapariga de 1958» (p. 17), que Annie Ernaux diz ter tentado esquecer: ela aos dezoito anos. Além de nunca a ter conseguido esquecer, a escritora francesa cedo se apercebeu da necessidade de escrever sobre ela. O «projecto 58» (p. 17) rapidamente se esboça, mas até à sua concretização, com Mémoire de fille, Annie Ernaux publica mais de uma dezena de livros, em que faz silêncio sobre os acontecimentos do Verão dos seus dezoito anos. Saber que relação existe entre os acontecimentos e o silêncio é talvez menos interessante do que reconhecer a importância do «projecto 58» para Annie Ernaux — isto é, reconhecer a sua crença na verdade daquela rapariga e a importância dela para a sua vida de escritora.

O livro que nunca tinha sido escrito correspondia a um vazio, a um espaço em branco cujo preenchimento foi sendo adiado ao longo dos anos, embora tenha havido algumas tentativas frustes nesse sentido. Em 2003, tendo-se dado a coincidência de o dia 16 de Agosto ser, como em 1958, sábado, Annie Ernaux experimentou começar a escrever sobre aquela rapariga. Nessa altura, limitou-se a registar recordações, seguindo o curso dos dias que correspondiam aos do ano ido, como se escrevesse um diário de 1958 em 2003, e recusando «a dor da forma» (p. 18). Entende-se que a «forma» que procurava não estava naquele inventário, consumado ao fim de cinquenta páginas; passariam mais de dez anos até Annie Ernaux a encontrar, com Mémoire de fille. Em causa está a noção de que a busca da forma na escrita — aquilo em que consiste, afinal, o trabalho de escrever — comporta um ganho cognitivo maior do que aquele que advém do mero registo de recordações, algo que a escritora tem dito também em entrevistas.* Admitindo-se ainda que a busca da forma é uma busca da verdade — neste caso, a verdade sobre a «rapariga de 1958» —, evitar a dor da forma poderá corresponder a uma fuga mais ou menos consciente da verdade, uma fuga que colide com a própria necessidade de se escrever determinado livro.

No Verão de 1958, Annie Ernaux chamava-se Annie Duchesne (Annie D) e ainda não tinha lido Proust, Simone de Beauvoir, ou Virginia Woolf. Diz-nos em Mémoire de fille: «Não construo uma personagem de ficção; desconstruo a rapariga que fui» (p. 56). Annie Ernaux quer mostrar ao leitor como era Annie D em 1958, como era viver com os pais em Yvetot (Normandia, França) e sair pela primeira vez de casa para passar as últimas semanas do Verão como monitora numa colónia de férias em S (Sées), província de Orne. A pretensa «desconstrução» consiste em citar partes de cartas, diários e agendas, e descrever fotografias, mas materializa-se sobretudo no uso da terceira pessoa («ela») em relação à rapariga de 1958, e da primeira («eu») em relação à mulher que escreve, entre 2014 e 2015, as cerca de 150 páginas de Mémoire de fille. O efeito de dissociação pretendido deverá contribuir para a busca da verdade sobre aquela rapariga, descrita como uma estrangeira ou, de acordo com outra imagem, uma prisioneira que, através da escrita, é «desencarcerada» (p. 79) do lugar onde ficara cativa: a colónia de férias em S.

Em Agosto de 1958, tudo em Annie D era «desejo e orgulho» (p. 25): o desejo de estar longe da família e perto de outros jovens que partilhariam as mesmas esperanças e inquietações; o desejo de ser independente; o desejo de viver uma história de amor e de perder a virgindade. Aos dezoito anos, aluna brilhante e protegida pelos pais, merceeiros, Annie D lia Baudelaire e Sartre, duvidava da existência de Deus e tinha «orgulho nos seus desejos», entendidos como um «direito devido à diferença» (p. 28) — a diferença estava em ser a única na família a estudar matemática, inglês e latim; a única a ter, como se dizia, uma educação. Aos dezoito anos, vinda de um internato católico, a rapariga de 1958 sente-se desconcertada pelo facto de, na colónia, rapazes e raparigas conviverem, revelando-se a inexperiência em relações de simples camaradagem com o sexo oposto (p. 40) em todos os seus comportamentos. Quanto ao desejo de perder a virgindade, este pode ser descrito como uma abstracção em que se confundiam a vontade de viver uma história de amor e o pressentimento de que atrás do mistério do sexo se escondia a vida verdadeira.

O núcleo do livro é o episódio da primeira experiência sexual da rapariga; o que decorre dessa experiência é o resto do livro. A experiência sexual é narrada em poucos parágrafos, constituindo um episódio curto aparentemente adequado à curta duração que teve. Longas são, no entanto, as repercussões do episódio, podendo nelas incluir-se a necessidade de escrever sobre ele e, simultaneamente, a duradoura impossibilidade de o fazer. Annie D tinha chegado à colónia de férias havia três dias; H tinha vinte e dois anos e era o chefe dos monitores. «Fui para a cama com o chefe dos monitores» (p. 46), diz a rapariga à companheira de quarto quando se junta a ela de manhã, após ter passado a noite de sábado no quarto de H. A brusquidão e a inconveniência da declaração transmitem a estupefacção de quem ainda não é capaz de reflectir sobre o que aconteceu — a brutalidade do desejo do outro, a sensação de paralisia perante uma vontade alheia, a discrepância entre o que é desejado e o que é vivido.

Naquele Verão passava na rádio a canção de Dalida, «Mon histoire c’est l’histoire d’un amour», que acompanha as seis semanas de Annie D na colónia e a memória de rapariga de Annie Ernaux. Sob a influência da canção, e auxiliada pelo imaginário de romances lidos, a rapariga de dezoito anos imagina que acabou de viver a sua primeira «noite de amor» (p. 46) e que a essa se seguirão outras, experimentando o orgulho adolescente de ter sido o objecto de desejo de um homem. A rapariga começa a ver em H o seu amante para tentar dar sentido ao absurdo daquela primeira relação sexual, acontecimento descrito como uma experiência de passividade absoluta e de anulação da própria vontade. Mais tarde, Annie D é rejeitada por H à frente dos outros monitores, e vê-se envolvida num conjunto de situações de derisão e indignidade. Mémoire de fille não é um livro parco na descrição de situações de humilhação, em que o humilhado se comporta de modo abjecto para se integrar num grupo, adoptando os seus valores, atitudes, e até usos de linguagem (para os quais, como canções que passam na rádio, a escritora mostra ter bom ouvido). Em todos estes episódios, como no livro em geral, a linguagem é sóbria, quase chã. É de assinalar, no entanto, uma característica que pode enfadar, e que consiste em rematar um determinado relato com uma frase ou um parágrafo muito curtos, em que se colhe um tom de autocomiseração. Isso verifica-se, por exemplo, quando nos é dito que, dois anos após a estadia na colónia de férias, durante o período de seis meses em que Annie D vai trabalhar como au pair na casa da família Portner, em Londres, o seu nome era pronunciado como a palavra inglesa any, isto é, «qualquer coisa de indefinido» (p. 134).

Ao longo do Verão de 1958, H vem a ser substituído por outros monitores, em quem a rapariga procurava, lê-se, «a erecção consoladora» (p. 60). Quatro anos após ter deixado a colónia em S, Annie D faz uma lista dos monitores com quem dormiu durante esse período — talvez um dos primeiros esboços do «projecto 58». O recenseamento tinha já sido feito numa agenda desse ano, que a mãe da rapariga queimara; graças à nova lista, mas sobretudo graças ao livro, Annie Ernaux pode concluir que a verdade sobreviveu ao fogo (p. 61). A par de outros temas caros a romances sobre as angústias dos anos que antecedem a entrada na idade adulta, a relação da protagonista com a mãe é um tópico presente neste pequeno livro, embora não se lhe possa atribuir a amplitude psicológica de outros, como o da relação com o próprio corpo — o qual, de resto, é tradicionalmente associado ao primeiro.

No Outono de 1958, Annie D transfere-se para Ernemont e começa a frequentar o Liceu Jeanne-d’Arc, em Rouen, onde se prepara para o exame de filosofia. A partir de Janeiro de 1959, perante a perspectiva de voltar para a colónia de férias no Verão seguinte e lá reencontrar o chefe dos monitores, a rapariga decide pôr em prática «um autêntico programa de perfeição» (p. 97), para estar à altura de H. O projecto, caracterizado pela severidade, tem duas linhas de acção: a excelência no estudo e o emagrecimento radical. A rapariga começa a padecer de uma perturbação alimentar cujo nome só virá a saber nos anos 80. A relação entre os acontecimentos do Verão de 1958 e a doença é enunciada nestes termos: na experiência sexual (segundo Annie D), o corpo perde a vontade; a alimentação torna-se um dos meios pelos quais o corpo pode recuperar a vontade, isto é, o controlo sobre si. Por ser mal direccionada, trata-se, porém, de uma «vontade infeliz» (p. 100). Ainda no período de Ernemont, a rapariga lê O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, livro que lhe fornece uma interpretação para os acontecimentos da colónia de férias. Da vergonha de ter tido orgulho em ser tratada como um objecto de desejo (p. 99) decorre a perseguição de um ideal de renúncia ao desejo, como modo de recuperar o controlo (leia-se: querer atrair H para depois o recusar). Para Annie D, ser mulher significava ser capaz de controlar o corpo; um corpo que, por ter necessidades e desejos, considerava vergonhoso. Na Primavera de 1959, ao saber que não tinha sido aceite para voltar a ser monitora em S, interpreta a recusa como uma consequência do seu comportamento indigno no ano anterior. A memória da vergonha — «uma vergonha de rapariga» (p. 99) — é a mais gritante neste livro.

Em 1960, em Londres, Annie D faz a primeira tentativa de escrever um romance (p. 143); por essa mesma altura, começa a sentir que vive as coisas que vive como se um dia elas viessem a ser escritas. Das não mais de duas páginas que produziu então, entretanto desaparecidas, Annie Ernaux recorda a imagem de uma rapariga que está deitada numa cama com um rapaz, e que depois se levanta e vai embora. Seja qual for a relação entre certa noite de um sábado de Agosto em 1958, numa colónia de férias em França, e a emergência da «rapariga de 1958», o que é assinalável é a crença da autora de Mémoire de fille nesse ser literário, quase mitológico. Cantava Dalida, na canção que Annie D ouvia naquele Verão: «Un roman comme tant d’autres qui pourrait être le vôtre». A «rapariga de 1958» pode ou não interessar ou comover o leitor, mas este não duvidará de que a busca da verdade sobre aquela rapariga é uma demanda literária: a primeira que Annie Ernaux quis empreender, e, enfim, uma das mais ambiciosas, se for tido aqui em conta o verso da canção dos Supertramp que constitui uma das epígrafes de Mémoire de fille: «I know it sounds absurd but please tell me who I am».

 

* Veja-se a entrevista a Annie Ernaux conduzida por Claire Devarrieux, a propósito de Mémoire de fille, no jornal francês Libération.