Lauro Reis

 

Paterson é um poeta e condutor de autocarros. Vive em Paterson, Nova Jérsia, com a sua companheira chamada Laura, que sonha abrir uma pastelaria e tornar-se uma estrela de música country. Paterson escreve poemas antes de começar o seu turno no trabalho, durante a pausa de almoço e quando tem algum tempo livre. Gosta de escutar as conversas dos passageiros enquanto conduz o autocarro e de contemplar as quedas-d´água do rio Passaic, enquanto come o almoço que Laura lhe preparou. Todas as noites passeia um Bulldog Inglês chamado Marvin até ao seu bar habitual, onde toma a sua expectável cerveja, assinalando assim o final desse dia.

Esta é a rotina de Paterson (Adam Driver). Poder-se-ia argumentar que uma descrição como esta seria possível de escutar a partir da boca de alguém que nos quisesse descrever um amigo próximo ou um familiar seu. Deste modo, descrições sobre a rotina de uma pessoa são suficientes para se estabelecer uma relação de proximidade e reconhecimento entre quem escuta, quem descreve e quem é descrito. Este grau de proximidade assemelha-se à relação entre a audiência, Paterson o filme, e Paterson enquanto personagem.

A estrutura repetitiva do filme estabelece o tempo como uma inevitabilidade que determina todas as personagens a uma actividade rotineira e previsível, da qual Paterson não é excepção. Um detalhe curioso reside no facto de nenhuma das personagens procurar escapar ou alterar os seus hábitos (por mais insatisfeitas que se encontrem: Paterson encontra-se repleto de diálogos ou momentos de possível ruptura, mas que nunca são levados para além da mera possibilidade); sem o desejo de fuga ou de simples mudança, não ocorre qualquer quebra de tempo ou desfecho inesperado. Paterson retrata então pessoas que, face às circunstâncias que as rodeiam, não parecem querer realizar qualquer mudança. Pelo facto de ser possível observar uma certa insatisfação com a vida que levam, seja sobre que aspecto for, é possível contrastar a atitude dessas personagens com a predisposição quase estóica de Paterson em relação a qualquer acontecimento que possa colocar em risco a sua previsível e, arriscamos, agradável rotina.

É esse comportamento em relação ao que o rodeia que fará com que certos eventos que acontecem no final da sua semana (tais como a avaria do autocarro e a destruição dos seus poemas pelo Marvin), que poderiam provocar alguma ruptura, acabem por se revelar inócuos. Quando Paterson conhece, no último dia da sua semana, domingo, um poeta japonês que partilha o mesmo fascínio que ele por William Carlos Williams, esse diálogo incomum acaba por provocar o reverso do que normalmente se espera de um evento extraordinário: após os eventos trágicos de destruição do seu trabalho, aquele encontro anormal (à la deus ex machina) serve, não para incentivar uma ruptura, ou para provocar uma mudança possibilitada pelos acontecimentos anteriores, mas para manter tudo idêntico. Paterson recomeçará a próxima semana exactamente como começou a anterior: Paterson é uma história sobre pessoas que não mudam.

A poesia que Paterson compõe (da autoria de Ron Padgett, poeta e amigo de Jarmusch), possui alguns pontos interessantes: a sua inspiração para escrevê-la advém principalmente de objectos quotidianos que o rodeiam, do seu amor por Laura, ou das paisagens da cidade de Paterson, Nova Jérsia. É possível assim descortinar a influência que o imediato, a localidade, o hábito e o ordinário exercem sobre Paterson. Não há qualquer intuito da sua parte em transcender tais contextos. Aliás, Paterson afirma que não necessita de telemóveis, computadores ou outros dispositivos que estimulem a comunicação para além de Paterson, Nova Jérsia. (Tudo o que escuta, recebe ou vem a saber é sempre filtrado pelas vozes e interesses de pessoas que o rodeiam; a sua curiosidade reside nessas pessoas e na maneira como lidam com as suas vidas, não com a informação em si. Para Paterson, só o microcosmo apresenta verdadeiro valor.) Apesar de possuir, na sua biblioteca privada, diversos autores de qualidade reconhecida, todos os caminhos parecem ir dar a William Carlos Williams, também natural de Paterson, Nova Jérsia, médico de profissão e poeta por paixão. Por trás da sua admiração por Williams não reside qualquer desejo de transcender o seu lugar, de procurar suplantar este seu precursor, ou adquirir um lugar cativo em algum panteão poético e intemporal. Não há qualquer espécie de crise ou pressão exercida para elaborar os poemas e obter reconhecimento; não existe sequer qualquer desejo em publicá-los. O que Paterson representa quando faz poemas é a paixão do amador pelo ofício poético. No conforto da rotina e do hábito, não existe qualquer desejo de transcender as suas influências, pelo contrário: Paterson coabita com elas harmoniosamente, como se se tratassem de mais uma rua por onde viaja com o seu autocarro, ou de mais um par de vozes que escuta no trabalho. Não existe a ambição de exceder o que o rodeia, somente de celebrá-lo poeticamente. Desta forma, ao focar-se na vida, rotina e poesia de Paterson, Jarmusch torna possível demonstrar a poética do quotidiano que, felizmente, não se encontra circunscrita a poetas e coabita entre todas as pessoas. (Paterson parece, contudo, ser o único que tira algum tempo do seu dia-a-dia para contemplar a beleza que o rodeia.)

É pelo facto de ser dado um papel de destaque à rotina de Paterson e à sua poesia que o filme confere ao ordinário uma aura especial, como se se tratasse de uma celebração do comum. O dia-a-dia de Paterson é empático e verosímil: não ocorre nada de extraordinário, e os seus dias são previsivelmente idênticos a tantos outros. Desta forma, torna-se possível discernir afinidades entre a sua vida e a de quem a observa. É o acto extraordinário de fazer um filme para celebrar este ordinário que coloca assim esse extraordinário ao serviço do comum.

Um exemplo disso é a galeria de famosos oriundos de Paterson, Nova Jérsia, que decoram uma das paredes do bar que Paterson frequenta todas as noites. A certa altura, quando Doc, o dono do bar, pergunta a Paterson se uma menção de um concerto de Iggy Pop em Paterson merece pertencer à galeria, Paterson responde: «Yeah, sure, why not? It's Paterson, right?» Qualquer famoso que possua uma ligação com a cidade vai lá parar, pelo facto de ser uma celebração do ordinário no extraordinário: não são os feitos do famoso que o colocam na galeria, mas o facto de ser um famoso que (por acaso) partilha momentaneamente o mesmo local onde Paterson e Doc nasceram e vivem. Tal como nesta galeria, em Paterson celebra-se tudo o que é comum, repetido, previsível, quotidiano, partilhável.

Com Paterson, Jarmusch consegue imprimir ao ordinário uma poética do quotidiano. Qualquer sentido de humanidade ou beleza que possa advir encontra-se, em Paterson, nos pequenos detalhes: um casal na iminência da separação (repetida até se tornar inócua); a preparação de uma venda de bolos; o escutar de pequenas histórias de passageiros; o acto de passear um cão que não gostamos; o contemplar de uma paisagem natural. O mundo em Paterson é de observação e contemplação, mais do que de participação e dinamismo. É celebrado o facto de haver pessoas que apreciam os pequenos instantes da vida. E Paterson é, durante todo o filme, alguém que reconhece a beleza que o rodeia e que, por isso mesmo, não procura superá-la. Como tal, o mundo de Paterson nunca se expande, apenas se confirma. Solidifica-se com o que o rodeia, e nunca se dilata para além do seu microcosmo.

Muitos filmes começam com a entrada repentina do herói numa taberna moribunda, obscura e quase deserta. A sua chegada provoca uma ruptura violenta e força o desenvolvimento da história, tornando impossível um retorno ao estado de coisas anterior a essa irrupção. Jarmusch, no entanto, não procura recriar isso. Paterson é um filme sobre os dias em que ninguém extraordinário entra pela porta. É sobre as pessoas que frequentam essa taberna todas as noites e que não esperam por algo excepcional que os retire da sua rotina. Essas pessoas procuram lidar, como todos nós, com a repetição nas suas vidas, um dia confortável de cada vez.