Tatiana Faia

 

Numa das minhas últimas viagens a Atenas, passei algumas horas de um final de tarde no Classic Acropol Hotel, que acolheu em Maio de 2017, sob os auspícios da Fundação Onassis, uma exposição sobre Fukushima. Concebido por um dos grandes arquitectos gregos de meados do séc. XX, Emmanuel Vourekas, o edifício foi originalmente projectado com um relevo no átrio da autoria de Dimitris Pikionis, amado em Atenas por ser o arquitecto que projectou as áreas pedestres em redor da Acrópole. O luxuoso hotel de oito andares, que em tempos teve mobília desenhada por Le Corbusier nos espaços em redor do átrio, convenientemente localizado numa das praças mais centrais de Atenas, e numa das que a crise tornou mais dolorosamente degradadas e perigosas — a praça Omónia —, tem ainda a particularidade de ter sido conservado exactamente como estava no dia em que foi encerrado.

Naquele espaço, é possível sentarmo-nos ao balcão no bar da entrada, onde copos ainda meio vazios se amontoam e sobre as mesas mais copos e pratos fossilizam. Nesse fim de tarde, errámos, sem grande supervisão, pelos corredores e pelos quartos cheios de pó, com as camas ainda feitas, as mesas ainda preparadas para o jantar no salão de um dos pisos inferiores. Na atmosfera irrespirável de um edifício onde se acumulou o pó de anos e onde não havia nenhuma janela aberta no calor da tarde, a analogia evidente seria dizer que a crise atingiu a Grécia como um desastre natural. O amigo que caminhava à minha frente parou num dos quartos vazios, luxuosamente mobilado e completamente coberto de pó, para reparar que aquele lugar lhe inspirava a mesma sensação de estar em Pompeia. Fukushima. Pompeia. Lugares abandonados à pressa, onde se tem de deixar tudo para trás porque qualquer tentativa de conservar algo envolve um risco que o valor do que é abandonado não pode cobrir. O preço são vidas humanas. Qualquer coisa como uma despedida de fantasmas habita as divisões do Hotel Acropol. E, no entanto, Atenas é uma cidade viva, vibrante e completamente habitável, de onde — não assim tão diferentemente de Lisboa — os meus amigos foram partindo porque não há, em certo sentido, a mínima hipótese de a habitarem, isto é, de procederem a dar suficiente sentido ao que quer que se entenda que a expressão «construir uma vida» encerra. Mas quem, no trânsito caótico da tarde, atravessar de Omónia em direcção ao centro e prestar atenção à beleza dos edifícios de fachada neo-clássica, à confusão das ruas, andando com vagar pelos bairros em redor de Syntagma e da Acrópole, sabe que não há como não amar Atenas. Não que nos escape a contradição: que Atenas tem um centro turístico que não se parece nem um pouco com Omónia, essa face da cidade onde a crise paralisou os centros nevrálgicos e mudou a paisagem. Mas é em redor de todas estas partes que diariamente se compõe a renovação cultural que a crise trouxe à cidade.

«Não» (em grego, «oxi») é uma palavra politicamente carregada na história grega do séc. XX. Lawrence Durrell escreveu sobre ela em The Greek Islands, no capítulo sobre as ilhas de Citera e Anticitera: «Where did it come from, this smiling calm, this simple confidence, this warmth of plenitude? We had no right to feel like this, for the world had come to an end. Why then this happy fulfilment of quiet talk and laughter? The reason is that a word had been uttered, a single small word for which the whole of Europe had waited and waited in vain. It was the word ‘No’ (ohi) and Greece had uttered it on behalf of all of us at a time when the so-called great powers were all cringing, fawning and trying to temporize in the face of the Hitlerian menace.»[1] Porque é que estas palavras, escritas sobre a Grécia por um autor inglês na década de 50, me parecem tão relevantes hoje?

Os dois livros que mais notoriedade internacional tiveram fora da Grécia em 2016, e talvez os que mais notoriedade tiveram desde o início da crise, foram Austerity Measures, uma antologia de poesia contemporânea organizada por Karen van Dyck, professora de literatura grega moderna na Universidade de Columbia, e um livro de contos da autoria de Christos Ikonomou, Something will Happen, You’ll See, publicado em língua inglesa em tradução de Karen Emmerich.

Numa das edições do podcast Biblioteca de Bolso, Gonçalo M. Tavares discorre sobre a actualidade e fala sobre um exercício que gosta de praticar com os seus alunos. Levar para a aula um excerto das Cartas a Lucílio de Séneca e o jornal diário e pedir-lhes que identifiquem o que julgam ser mais actual: o excerto de Séneca escrito há dois mil anos ou as notícias do dia. Séneca vence o combate com o jornal diário sem grande dificuldade. O exercício que Gonçalo M. Tavares propõe talvez se multiplique e ressurja sob outras formas na sua própria prática de escrita: o que é actual tem um pé posto no essencial. Faz sentido. Volumes que povoam as bibliotecas do planeta sob a etiqueta de «clássico» receberam esse epíteto talvez porque o que as caracteriza é esse elo entre a actualidade e o essencial que o leitor não pode ignorar.

E se uma antologia tentasse medir o pulso de um país, num determinado momento histórico, sob o signo daquilo que tem monopolizado a imagem desse país nas notícias, como o faria? Esta pergunta pode bem resumir o desafio a que se propôs Karen Van Dyck em Austerity Measures.

Antologias são operações colectivas. Austerity Measures reúne 49 poetas, com um espectro de idades que vai dos 30 aos 60 anos de idade, gregos que nasceram e vivem na Grécia, gregos da diáspora, poetas nascidos noutros países, mas que, em virtude de terem emigrado para a Grécia, escrevem os seus poemas em grego. Há poetas representados com um poema apenas (em qualquer dos casos uma decisão empobrecedora), poetas reconhecidos tanto na Grécia como no estrangeiro, e poetas que ainda não publicaram um único livro, ou que existem apenas como poetas em blogues. Digno de nota é o cuidado em cobrir a totalidade da geografia do país, da capital às vilas isoladas nas ilhas, passando por Nova Iorque ou Londres.

Antes de nos perguntarmos se achamos que esta antologia traduz a Grécia de aqui e agora, e se pelo que nela fica patente este país se possa reduzir culturalmente ao discurso da crise, talvez possamos pensar melhor o que é o objecto desta antologia se nos perguntarmos o que é que ela traz de essencial. O enigma da relação entre precário e perene parece presidir às decisões editoriais que moldaram esta antologia. Um classicista aqui escreveria que este podia bem ser o enigma que preside a toda a literatura da Grécia desde as suas nebulosas origens, tão antigas como Homero. Em epígrafe lê-se William Carlos Williams: «It is difficult/ to get the news from poems/ yet men die miserably every day/ for lack/ of what is found there.» Antologiar, como qualquer ofício de curadoria, é prestarmo-nos a um exercício em limitação. Uma certa imagem é fabricada e encapsulada num determinado conjunto, sob um determinado pretexto e certos paratextos, que propõem um determinado objectivo.

Bem entendido, este não é, nem por sombras, um exercício tão limitado como (parece-me ser o caso) de outras antologias recentes que tentaram em língua inglesa dar uma visão da poesia grega contemporânea; neste sentido, veja-se Cross-Section: An Anthology of Contemporary Greek Poetry (editada por Jack Hirschman, publicada em 2015 pela Erato Press). É verdade que esta antologia reúne um número de poetas bem mais vasto do que Austerity Measures, mas é difícil apreciar o quão representativos são os poemas das obras dos poetas selecionados, uma vez que se publicou um e apenas um poema para cada poeta. E é também verdade que o âmbito de Austerity Measures não é tão concentrado na crise como duas antologias anteriores feitas justamente acerca desse assunto, ambas publicadas em Inglaterra por editoras independentes: Crisis: 30 Greek Poets on the Current Crisis, organizada por Dino Siotis e publicada na Smokestack Books em 2014; e Futures: Poetry of the Greek Crisis, editada por Theodoros Chiotis e publicada na Penned on the Margins em 2015.

Talvez o âmbito desta antologia seja uma solução de compromisso entre as possibilidades deixadas em aberto pelas antologias mencionadas acima. O prefácio de Karen Van Dyck parece encaminhar o seu gesto antológico nessa direcção: «My goal was to deepen and thereby alter the way readers think of poetry in Europe...» (p. xxiv). Tal objectivo parece convidar a pergunta sobre o que esta antologia nos diz ao certo acerca do lugar da poesia grega no quadro mais vasto da poesia europeia contemporânea: se a poesia contemporânea da Grécia é representativa da poesia a ser escrita na Europa de hoje, se haverá uma unidade tão sistemática neste continente aqui e agora que nos permita reconhecer nesta antologia essa força de paradigma, se o conjunto aqui antologiado se reduz a símbolo de um momento político que explicaria e sancionaria essa homogeneidade, ou se, pelo contrário, é por um movimento de ruptura e resistência em relação a esse contexto que esta antologia se afirma como paradigmática. A este propósito, deve ser notado que as críticas menos calorosas que Austerity Measures recebeu na Grécia estão intimamente ligadas a essa noção de que a literatura produzida naquele país se define pelo discurso da crise.

E, no entanto, os poemas aqui coligidos compõem um quadro que está muito para lá da crise, e daí a pertinência de recordar William Carlos Williams. Algo de essencial está em jogo nesta colecção de autores e poemas, alguma coisa que ao mesmo tempo pertence e não pertence ao mundo das notícias, ainda que esteja profundamente enraizada no quotidiano. Como traduzir o combate com o dia-a-dia, mais do que a crise, talvez seja a matéria que una estes poemas e dê a esta antologia a sua unidade. Neste sentido, os poemas que contêm alusões directas ao contexto político grego, contêm-nas no sentido em que certos poemas emergem organicamente desse contexto, mais do que o tematizam.

Encarada desta perspectiva, esta antologia surge em diálogo com outra obra de um autor grego que teve um considerável destaque internacional durante 2016, Something Will Happen, You’ll See (Κάτι θα γίνει, θα δεις) de Christos Ikonomou. Este foi o livro mais recenseado na Grécia em 2011 e Ikonomou foi descrito pela imprensa italiana como o Faulkner grego. Esta colecção foi, sem dúvida e de longe, um dos melhores livros que li no ano passado. A notoriedade internacional que o despretensioso Ikonomou, autor de um livro incrivelmente bem escrito, herdeiro de uma tradição de literatura grega e anglo-saxónica onde se podem discernir ecos de Faulkner, Steinbeck, Tim O’Brien, e Alexandros Papadiamantis,[2] entre outros, que revê as suas histórias ad nauseam, e cujo único leitor foi durante muito tempo a esposa, é um reconhecimento conferido ao trabalho de um autor que, um pouco como Orhan Pamuk em A Casa do Silêncio, retrata um país na véspera de um momento agudo de instabilidade social, se não nas vésperas de uma revolução.

O fio condutor destas histórias, lê-se em introdução da tradutora a uma entrevista com o autor publicada no Literary Hub, é a tensão que a crise instaurou nas relações entre as pessoas, mais do que uma análise sociológica ou de um ponto de vista individual deste fenómeno. O que se lê não tem, então, como ponto de partida uma escala macro-social, ou seja, uma perspectiva do contexto histórico que supõe, para os poemas de Austerity Measures, um ponto de partida comum, em parte porque o livro de Ikonomou, publicado na Grécia pela Polis Press em 2010, começou a ser escrito entre 2002 e 2003, numa época supostamente anterior à crise. No entanto, o autor refere dois aspectos relevantes para tentar entender como é que também Austerity Measures é uma antologia que excede em muito o contexto que documenta. Isto mau grado a blurb assinada por Varoufakis na capa da antologia,[3] uma dessas decisões sensacionais dos departamentos de marketing da Penguin Random House, que de resto corre o risco de reduzir esta antologia a um mediatismo e a um imediatismo que nos podiam fazer pensar em homens que gostam de usar blazers com a gola levantada, o que de outro modo não exibe qualquer relação com as frases de belo efeito que o ex-ministro frequentemente assina no The GuardianMas, como disse, algo de mais relevante une estes dois livros.

A dada altura, Ikonomou nota que, quando começou a escrever o livro, a sua preocupação principal era passar para lá da mera observação superficial do contexto grego, numa tentativa de documentar a situação no seu país, mas, sobretudo, falar acerca da condição humana. Mais abaixo na mesma entrevista, Ikonomou nota que muitas histórias são passadas no Pireu, o bairro onde o autor vive há cerca trinta anos, porque o seu objectivo não era falar de uma mera perspectiva biográfica, mas de situações e de pessoas que ele conhecia bem. Estes dois pontos parecem-me relevantes também para uma leitura de Austerity Measures, mas a eles voltarei mais abaixo.

Os contos de Ikonomou acontecem na intercessão entre pobreza, recurso e humanidade. Atenas, pessoas e precariedade são o fio condutor que une quase todos os contos. A unidade que se encontra nesta colecção é consequência de as histórias partilharem a mesma temática. A empatia que esta galeria de personagens desperta assenta num paradoxo: ao mesmo tempo, sentimos que estas pessoas não são exactamente elas próprias e que nunca vão ser tanto elas próprias como aqui. As personagens de Ikonomou não nos parecem bem ser elas próprias porque o trauma da precariedade e da crise as alterou completamente e, paradoxalmente, são mais elas próprias porque há uma urgência que as revela com uma autenticidade e uma força inesperadas, uma mistura de traços que, quando evocada, não raro tem o efeito de nos recordar que a dignidade humana é uma coisa real e imprescindível.

Veja-se a este propósito «The Things they Carried», em que se narra a espera de cinco homens à porta de um posto de Segurança Social, numa noite de Janeiro, e em que se parte de enumerar os objectos que cada uma das personagens carrega consigo para uma enumeração mais inesperada:

 

Number two, who had brought his folding stool from home, carried in his wallet a photograph from his son who had died the previous month in a car accident in Halkidons... They all carried years of hard work on their backs. They carried deprivations and dreams that hadn’t come true. (pp. 137-8)

 

A crise que cada um dos contos encerra está intimamente inscrita no quotidiano. Ao longo dos dezasseis contos que compõem o livro, são examinadas relações entre pais e filhos, irmãos e irmãs, namorados, colegas de trabalho, entre perfeitos desconhecidos, entre um bairro e o seu anjo da guarda. Sobre a Grécia, Christos Ikonomou diz em entrevista que sente acerca do seu país uma esperança sem optimismo.

 

I’m not optimistic. I have hope, because hope is something different than being optimistic. I don’t think so. I hope that you can understand that being here in Greece, in a place where you can see how all these things can lead people to such regretful situations — it’s living an experiment, unfortunately.

 

Em alguns dos contos encontramos um ambiente opressivo que nos faz pensar na aldeia de Zorba, o Grego, de Kazantzakis (veja-se especialmente o conto «Mao»), tal como imortalizada no filme homónimo ou numa novela de Papadiamantis, The Murderess, sobre o modo como certas estruturas opressivas numa sociedade convidam a actos de monstruosa loucura.[4] Ikonomou escreve a partir do que o rodeia. É isto que explica como esta colecção de histórias relativamente breves pode medir o pulso de um país. Despedimentos, greves onde quem protesta exibe um cartaz em branco por não saber o que escrever, emigração, a revolta dos mais jovens, a crise não enquanto processo histórico mas estado mental que impõe uma tensão constante. Leia-se um conto como «The Blood of the Onion», em que o narrador recorda um emprego numa fábrica de gelo e um colega, Michalis:

 

I used to work in Kaminia at a factory that made ice. I checked the machines, tossed the ice into sacks. Carried the sacks out of the truck. An easy job, ludicrous, a job to be ashamed of. But Michalis, the guy who did the deliveries, saw it differently. (p. 105)
 

Michalis tinha decidido estudar medicina na Roménia, mas não tendo dinheiro para continuar os estudos, arranjara aquele trabalho. O seu verdadeiro objectivo era emigrar para Espanha. Na solidão da fábrica de gelo, Michalis passa horas a declamar os poemas de Miguel Hernández, sendo o seu favorito «Lullaby of the Onion». Hernández, feito prisioneiro durante a Guerra Civil de Espanha, escreve uma balada sobre a mulher e o filho, que nada mais tinham para comer além de pão e cebola. O narrador, no entanto, que vai aprendendo os poemas enquanto Michalis os declama, tem o seu próprio poema favorito, que nos diz ser sobre um companheiro de Hernández, Ramón, que morre jovem:

 

I liked that poem even though it was long and I couldn’t remember most of the lines. I liked the sound of the words, their rhythm. I liked how Michalis said them. No pretense, just simply and sadly, the way you might read something you’d written a long time ago in some old notebook, a promise of undying love or friendship, some big statement you’d written about the future. We have so many things to say/ Comrade of my soul comrade. (p. 110)

 

Os poemas de Hernández carregam com eles o contexto em que foram escritos, contexto que se torna a atmosfera do conto. Kaminia, um quarteirão do Pireu, em Atenas, é visto a partir da ressonância dos versos de um poeta da Guerra Civil de Espanha, não podendo ser extricado daqueles. O espaço opressivo da fábrica espelha a prisão de Hernández. Há o reverso disto, claro, a tal esperança de que falava Ikonomou: os poemas de Hernández são cantados por Michalis contra a erosão dos dias, a promessa de desastre em «a job to be ashamed of» esconde também o processo que explica em parte a força deste livro — um acto de resistência, a persistência de alguma esperança, sejam sonhos ou as baladas de um jovem poeta espanhol morto no cárcere no final da Guerra Civil.

O fio que une os contos de Ikonomou não se confunde com uma retórica do desespero; é antes o modo como as suas personagens tentam encontrar alguns pontos de luz numa escuridão de onde parece não haver saída, numa busca constante que as impele para a frente, o que talvez possa ajudar a clarificar um aspecto sublinhado tanto por Karen Van Dyck,[5] como por Stephanos Papadopoulos,[6] acerca do modo como a crise fez a poesia na Grécia ressurgir com uma força inesperada.

Há nos poemas coligidos em Austerity Measures um sentido de antecipação constante, que está mais ou menos presente em toda a colecção. Este sentido de antecipação responde às linhas de força que habitam estes poemas, radicados no presente, uma força que vem de olhar de e para a frente. Pode bem ser uma esperança sem optimismo. A esta ideia podia somar-se outra proposta mais ou menos programática, e que pode ou não ser consequência daquela: a de lançar um olhar crítico sobre o contexto recente da Grécia, a sua história, o seu cânone literário, o seu passado clássico,[7] recuperando assim a função mais antiga da poesia, aquela de que, em última análise, a polis grega foi o berço — a de usar a poesia para reflectir sobre o contexto mais imediato, revelando as várias dimensões da sua profundidade, forçando a que uma sociedade reflicta e se veja reflectida nessa manifestação cultural.

A Grécia é um país que enfrenta uma crise humanitária, a que se soma uma crise de refugiados. Em alguns bairros de Atenas, as autoridades fecham os olhos à destruição que a crise impôs por simplesmente não lhe poderem dar resposta. Os meus amigos, meio a sério, meio a brincar, dizem que na Grécia se está sempre a dois salários de distância de acabar a viver na rua. E no entanto, algo tem de trespassar o quotidiano. Os poemas de Austerity Measures comentam o hino nacional, o legado da Junta, fazem ressurgir personagens da Antiguidade em roupagens menos do que míticas para ler o quotidiano. Introduções úteis e breves a cada poeta e a cada secção traçam a geografia por que a poesia da Grécia tem evoluído nas últimas duas décadas, nomeando as publicações mais influentes, os grupos literários de Atenas e Tessalónica, e os poetas de periferia, os estabelecidos e os insurgentes. Num país onde um dos mitos mais arcaicos, o da guerra de Tróia, tem a sua origem numa ofensa à hospitalidade, esse laço muito antigo que num tempo mais isolado e violento garantia a um estrangeiro uma travessia segura, escreve-se até sobre isso mesmo, os hotéis abandonados, que se enchem de fantasmas. Turistas que se sentem inexplicavelmente ligados a este país onde não nasceram e onde não vivem, às vezes revisitam a Grécia para intimar a ideia de que um poema sobre o aqui e agora não se equilibra só no movimento pendular em que se sente o balanço do sentido da história num país. Muitos menos se dá o caso de encontrarmos nestes poemas uma inclinação para a condenação fácil e pessimista, que por sua vez legitimasse uma relevância fácil e sem peso, mas antes isso que se procura sempre num belo poema, a linha de fuga de um entendimento onde comece o sentido:

 

Poetry 2048
We were so bankrup, comrades,
that even the hotels,
those built from the bones of the dead,
the lovely seaside hotels
which we made with silver
from the treason of Ploumbides,
yes, even those, were abandoned
and they rot from underneath with the mud and the
rain. Not even this age is an age
for poetry: we are still paying
in the coin of Civil War. (Stamatis Polenakis, p. 233)

 

O que quer que seja a poesia na Europa hoje, o que nela se pode encontrar de mais forte e mais relevante está sem dúvida patente nesta antologia. Nunca podemos estar certos acerca dos jornais, mas William Carlos Williams mantém-se actual.

 

[1] Lawrence Durrell. 2002. The Greek Islands. Londres: Faber & Faber (pp. 112-113).
[2] Um autor grego da segunda metade do séc. XIX, cujos contos, escritos numa prosa que nunca perde de vista a noção de Terêncio de que nada do que é humano nos é alheio, mapeiam a vida nos bairros pobres de Atenas e das ilhas. Christos Ikonomou fala sobre algumas dessas influências nesta conversa.
[3] Na capa, acima do título, a letras cor-de-laranja: «This deserves an international audience. Now!»
[4] Alexandros Papadiamantis. 1983. The Murderess. Peter Levi (trad.). Nova Iorque: The New York Review of Books.
[5] «Since the crisis hit in 2008, Greece has played host to a cultural renaissance unlike anything seen in the country for over thirty years. Poems of startling depth and originality are being written by native Greeks, émigrés and migrants alike. They grapple with the personal and the political; with the small revelations of gardening and the viciousness of streetfights; with bodies, love, myth, migration and economic crisis.»
[6] «In spite of the distasteful system of publishers requiring many poets to pay for their own print run — a form of veiled self-publishing — slim new volumes continue to emerge, even if no one buys them. Copies are handed out to friends; readings pop up and though the wine is boxed no one seems to mind.»
[7] Neste ponto temos de discordar do artigo recente de David Wallace na The New Yorker, «Greek Poetry in the Shadow of Austerity». O autor propõe que as referências clássicas não abundam, ou que elas não significam o que seria esperado. As objecções evidentes a esta noção são as de que alguns dos poemas mais significativos desta antologia são apropriações dos clássicos. Ruptura não deixa de ser recepção, isto é, leitura crítica.