António Pereira

 

A associação da figura do Artista ao Deus hebraico — o grande criador por excelência — não é propriamente uma ideia nova. No entanto, talvez essa comparação nunca tenha sido explorada de forma tão pungente e destemida como em mother!, filme em que Deus e Artista são uma só entidade, e onde alegorias bíblicas se cruzam com meditações acerca do processo criativo e dos seus efeitos na relação com o Outro, num sonho febril que consegue fundir a violência cerebral de um Polanski com a excentricidade macabra de um Jodorowski.

A insistência de Aronofsky em recorrer a temas e episódios da Bíblia, depois de Noah (2014), com a sua adaptação tolkianesca do episódio clássico do Génesis, se ter revelado um flop tanto na bilheteira como na crítica, poderia constituir à partida razão de receio relativamente a este seu novo trabalho. Felizmente, mother! revela ter em comum com o seu antecessor apenas uma das fontes a que foi buscar inspiração. Se, por um lado, Noah foi uma tentativa de blockbuster de proporções épicas, amplo em escopo mas demasiado linear, esparso em conteúdo e impessoal, já mother!, manifestando logo desde o primeiro momento uma maior liberdade artística por parte do realizador, é ancorado num cenário íntimo e humilde — toda a ação tem lugar na casa dos protagonistas — mas possui uma densidade simbólica e temática que o torna um dos mais vastos e ambiciosos trabalhos de Aronofsky até à data. A casa é transformada num palco onde são representados alguns dos mais significativos episódios da Bíblia, e esta encenação, por sua vez, fornece ao realizador um ponto de referência a partir do qual pode explorar, através de uma multiplicidade de ângulos, as relações entre o Homem, Deus e a Terra.

Despido de todo o simbolismo latente, mother! começa como uma história singela acerca de um casal que vive isolado numa casa no campo. O marido (Javier Bardem) é um escritor que passa os dias a esforçar-se em vão para começar uma nova obra, enquanto a mulher (Jennifer Lawrence) se ocupa do restauro da casa, que terá sido destruída num incêndio algures no passado. Na placidez que carateriza esta fase inicial, é possível perceber desde logo que a relação do casal possui algumas fendas: a comunicação entre os dois é ténue e artificial; ele vive para o seu trabalho e não parece dar muita importância à esposa, e o comportamento dela é demasiado passivo, quase submisso. Há uma certa ideia de infelicidade sublimada na atmosfera idílica da vida na casa.

Esta paz é interrompida com a chegada de um casal desconhecido (Ed Harris e Michelle Pfeiffer), cujos comportamentos viciosos e intempestivos vêm contrastar brutalmente com a tranquilidade ascética que até então se sentira. Ele acolhe os recém-chegados com entusiasmo, vendo neles uma mudança de ares bem-vinda e uma distração benéfica do seu trabalho; ela mostra-se relutante em confiar neles, e receia que a presença de estranhos constitua um perigo para o seu lar — o que de facto se verifica. É por esta altura que o filme assume, por um curto período de tempo, a forma de thriller psicológico sob a qual foi promovido (o que deve ter induzido em erro muitos espectadores ultimamente traídos e desapontados pela experiência muito diferente da que esperavam): perante um anfitrião demasiado leniente e indiferente às preocupações da esposa, os novos hóspedes apoderam-se da casa e revelam de forma cada vez mais agressiva a sua natureza maligna. Esta fase é verdadeiramente aterradora — Aronofsky já tinha mostrado em Black Swan que sabe como injetar pequenos elementos de horror na narrativa de forma a catalisar o valor catártico do drama sem cair no grotesco; aqui, esses elementos são utilizados para realçar o terror desencadeado pela experiência da invasão de privacidade e pela apropriação auto-intitulada por parte de outros dos nossos bens mais íntimos. Neste ponto há que destacar as atuações de Jennifer Lawrence, excelente a desempenhar o papel da «mãe» frágil e passiva que se vê obrigada a lutar para defender o que é seu, e Michelle Pfeiffer, que, no papel antagónico, consegue impor uma presença verdadeiramente diabólica quando se apodera do lar e destitui moralmente a «mãe», tratando-a como se fosse esta a invasora.

A chegada dos filhos do casal hóspede, com a morte do mais novo às mãos do mais velho devido a uma disputa sobre a herança da fortuna do pai, marca o ponto de viragem do filme, o momento em que se torna explícita a sua natureza alegórica, que até então havia apenas sido sugerida de forma subliminar: os hóspedes serão Adão e Eva, e a casa representará por metonímia a Terra, o grande paraíso; o escritor (Bardem) é Deus, e a personagem de Lawrence pode ser interpretada como uma personificação da própria natureza — a «mãe» que dá o nome ao filme poderá deste modo ser literalmente a Mãe Natureza. A partir daqui, com a subsequente invasão da casa pelo Homem e todo o caos e destruição que se segue, o filme inebria-se, solta as suas próprias rédeas e, num crescendo cada vez mais negro, vertiginoso e surreal (culminando num último ato de uma visceralidade verdadeiramente apocalíptica), abre-se a uma multiplicidade de interpretações possíveis. Poderá a invasão e a pilhagem da casa-paraíso pela enchente de pessoas constituir uma crítica de cariz ecológico? Será a indiferença do escritor relativamente à profanação do seu lar, cego pela idolatria de que é alvo pela multidão de fãs enlouquecidos, representar um comentário ácido a um deus orgulhoso, que as Escrituras dizem ser capaz de desencadear os maiores cataclismos por forma a que o seu nome seja aclamado por toda a Terra, ou, por outro lado, uma reflexão de Aronofsky relativa à sua própria experiência enquanto artista? Será o último ato do filme uma denúncia do processo da corrupção das religiões no fanatismo? Todas estas hipóteses de interpretação não esgotam o potencial hermenêutico que mother! nos oferece.

Particularmente fecunda parece ser a personagem de Bardem, cuja situação inicial, bem como a relação com a «mãe» e com os hóspedes, adquirem significados muito mais intricados quando consideradas na dupla dimensão escritor-deus. Pode dizer-se que o seu bloqueio de escrita, que só será destravado quando o conflito e a morte — o Mal — invadirem a sua vida, reflete a esterilidade da existência edénica que marca o primeiro ato do filme. No Paraíso há paz, há o Bem, mas esses, sem os respetivos opostos, anulam-se a si mesmos, provocam estagnação e asfixiam o processo criativo; o surgimento do Homem, com todos os seus vícios e defeitos, é a faísca necessária para o começo da história — tanto a que Bardem procura escrever como a própria História do mundo. Assim, Deus — o Eterno Criador — precisa do Homem imperfeito, imprevisível, tanto quanto o Homem precisa d’Ele, e prefere-o em detrimento da Mãe Natureza, obra acabada, incapaz de surpreender e gerar espanto, condições essenciais para desencadear o ímpeto criativo.

Para mais, em mother! esse ímpeto criativo, ou melhor, o desejo dele, torna-se uma força nociva. A arte mergulha num círculo vicioso potencialmente destrutivo todo aquele que nela se define e realiza; o Artista necessita constantemente de criar, e de consumir objetos que sirvam de matéria-prima para a sua arte: o que o rodeia interessa somente se servir de combustível para a sua inspiração. Assim, a personagem de Bardem mostra genuíno apreço pela «mãe» apenas quando a vê como a sua musa, e o entusiasmo com a companhia do hóspede é justificada pelas histórias que este lhe conta. Nesta perspetiva, a personagem de Bardem adquire os contornos do típico herói trágico de Aronofsky: tal como Nina em Black Swan ou Max em Pi, a obsessão por algo que representa uma forma de transcensão pessoal leva-o a desligar-se de tudo o resto na perseguição desse objetivo apoteótico, caindo no abismo ao mesmo tempo que procura chegar cada vez mais alto. Mas mother! vai mais longe do que os seus antecessores, pois tem a audácia de colocar Deus nesta situação aporética e sujeitá-Lo às consequências nefastas que ela implica. As ações de Nina e Max conduzem à sua própria destruição; as ações d’Ele provocam a destruição e subsequente reconstrução do mundo — movimento circular eterno, qual castigo tartáreo, que é a marca (ou, poderíamos dizer, a cruz) de todo o criador.

Tratando-se de um filme tão amplo em significados, a grande fraqueza de mother! será talvez mesmo a abundância da simbologia bíblica — cuja distribuição em alguns casos chega a dar uma sensação de gratuitidade caprichosa. Se por um lado o filme, utilizando a sua natureza alegórica como ponto de partida para abordar tantos e tão variados temas, parece convidar-nos a exercícios de interpretação mais liberais, o peso das referências bíblicas acaba por atuar como uma negação deste convite, afunilando o nosso pensamento no sentido de tomar toda a narrativa como uma mera adaptação encapsulada dos Testamentos projetada num contexto bucólico moderno. Desta forma, mother! corre o risco de alienar quer o espectador casual, para quem o filme será demasiado disperso e confuso, quer o espectador exigente, que sentirá os seus esforços de interpretação serem constantemente postos em causa pela insistência do filme em parodiar episódios e motivos das Escrituras.

Não obstante, se conseguirmos ultrapassar a colocação algo descompassada de rãs, moscas e dilúvios aqui e ali (e uns créditos finais em que a revelação dos nomes das personagens — ou melhor, do seu papel alegórico — dá a sensação de ser a página de soluções de um livro de charadas), teremos em mother! muito para explorar e degustar. Não é um filme de fácil digestão — talvez seja o trabalho menos acessível de Aronofsky até aqui —, mas é um dos mais ricos e recompensadores esforços que o realizador norte-americano já empreendeu. Pode criticar-se, como já se criticou no passado, a excentricidade das suas escolhas artísticas, a necessidade de o espectador ser indulgente para com as suas taras e manias; mas a verdade é que Aronofsky sempre nos deu razões mais do que suficientes para justificar essas indulgências. E, pensando de novo em Noah e no sufoco identitário que se sente ao vê-lo, mais ainda devemos rejubilar por termos o realizador de Black Swan de volta em todo o seu fulgor.