Lauro Reis

 

Há palestras que merecem ser recordadas e palestras que merecem ser lidas, muito depois de realizadas. Felizmente, ambas costumam convergir na mesma obra. Estas seis palestras, reunidas neste livro e proferidas em Harvard, no Outono de 1967, no âmbito das palestras Norton, não são excepção; mais que não seja pelo facto de Borges, por mais que o próprio negue com toda a sua característica humildade, ser em si mesmo uma excepcionalidade.

«O Enigma da Poesia» inicia o ciclo de palestras. Sem qualquer pretensão de circunscrever, Borges introduz, mais do que o tema aparente pelo título, a sua relação inconclusiva com a literatura: «Aproximo-me dos setenta anos. Dediquei a maior parte da minha vida à literatura e só dúvidas posso oferecer-vos.» (p. 9) Por mais dúvidas que exponha, apaixonada e alegremente, para o leitor torna-se possível retirar certas conclusões: que analisar um poema esteticamente, com toda a conotação filosófica, é passar totalmente ao lado do poema («Todas as vezes que mergulhei em livros de estética tive a sensação desconfortável de ter estado a ler livros de astrónomos que nunca olharam para as estrelas»  –  ­p. 10); que a poesia não se encerra ou reside unicamente em livros («A poesia não nos é alheia – a poesia espreita, como veremos, a cada esquina. Pode saltar-nos em cima a qualquer momento»; «(…) os livros são apenas ocasiões para a poesia» – p.10); e que a poesia requer e exige do leitor, mais do que interpretação ou teoria, paixão e alegria. Ou seja, vida. Recai assim no leitor a responsabilidade de retirar todo o prazer possível do acto de leitura. Borges parece querer aproximar o acto de ler um poema ao acto de compor um. (É reconhecida a importância que Borges oferta à leitura, visto tratar-se de um escritor conhecido por passar metade da sua vida em bibliotecas e ter criado obras que as retratam como um lugar labiríntico e infinito.)

O ponto anterior enfatiza a importância do leitor como alguém que oferece vida a coisas inanimadas, neste caso, a um poema. E oferecer vida a um poema seria receber em troca paixão e alegria. Essa actividade torna-se assim tão importante como fazer poemas: «o sabor da maçã não está na própria maçã – (…) – nem na boca de quem a come. Requer um contacto entre as duas» (p.10); «Na verdade, o que é um livro em si? (…) É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo, e as palavras – (…) – saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra» (p.11). Esta perspectiva confirmaria o que Borges sempre afirmou ser: um leitor e nunca um escritor, apenas um leitor que, sempre que pode, tenta escrever.

Pouco depois, Borges descreveria a sua experiência de escutar, quando criança, um poema de Keats, lido em voz alta pelo pai. O que Borges retira dessa recordação, apesar de não ter compreendido as palavras na altura, é o facto de ter sentido que qualquer coisa lhe acontecia: «Acontecia não apenas à minha inteligência, mas a todo o meu ser, à minha carne e ao meu sangue.» (p.12) Mas há mais duas coisas que nós, enquanto leitores, podemos retirar desta memória: que, para Borges, saber o que significa tal poema não é condição necessária para se sentir e experienciar esse ou qualquer outro poema; e que o propósito de um poema, tendo em conta o ponto anterior, não é apenas o de significar seja o que for, mas o de causar algo no leitor que, ironicamente, ele não consiga colocar muito bem em palavras, por melhor argumentação que use. Para Borges, ler poesia não é só sobre comunicação, tal como não é só sobre saber o que o poema possa querer dizer; é sobre senti-lo.

Na palestra seguinte («A Metáfora»), Borges discorre sobre as quase infinitas possibilidades da metáfora. A sua natureza curiosa e interrogadora transforma este tópico na seguinte questão: «porque hão de os poetas do mundo inteiro, e de todos os tempos, usar o mesmo fundo de metáforas quando há tantas combinações possíveis?» (p.23) Tal como há quase infinitas possibilidades de metaforizar, Borges responde, de memória, com o seu quase infinito saber enciclopédico. Nesta jornada pela metáfora, Borges cita desde poetas argentinos do início do séc. XX (como Lugones), a Beowulf, Chesterton, Tennyson, Manrique, e Chuan Tzu como se fossem seus contemporâneos, como se estivessem ao seu lado, amigos e colegas de literatura, preparados para o assistir a percorrer o «enigma» que é a poesia e a metáfora.

Borges não apresenta revoluções literárias, ou pretende fundar uma nova poética ou apresentar novas teorias; o verdadeiro prazer (do leitor e de Borges) reside em presenciar as conexões e distinções borgesianas feitas ao longo da palestra, sem qualquer pedantismo, permitindo assim uma extraordinária navegação por todos os portos poéticos onde deseje ancorar. Borges é bem-vindo a qualquer um, mais que não seja pelo facto de partir da mera perspectiva de leitor apaixonado por poesia. A humildade de Borges vem sempre em seu auxílio: «Se eu fosse um pensador ousado (mas não sou; sou um pensador muito tímido, tateio o meu caminho)» (p. 31).

Uma vez sem qualquer agenda teórica (no sentido de ter alguma teoria pessoal para promover) — traço distintivo de Borges em toda a sua obra —, é possível perceber a sua atracção pelas teorias dos grandes pensadores: como alguém desprovido de uma teoria ou filosofia próprias (no sentido de ter um sistema absoluto, procurando executá-lo na literatura que compõe), as suas obras (nomeadamente as mais conhecidas, em prosa) estão repletas de ficções que se «apropriam» dessas teorias alheias, desenvolvendo histórias a partir delas. Esse é um dos seus traços característicos e algo que, para Harold Bloom, o torna um escritor maior (parafraseando Bloom, Borges é referido, em A Angústia da Influência, como um escritor de excepção, que fez carreira aproveitando, para seu benefício criativo, o facto de ser culturalmente tardio em relação aos seus precursores). O mesmo modus operandi é executado nestas palestras. Nunca há uma única teoria borgesiana; há uma quase infinita possibilidade de teorias e não é arriscado presumir que, caso lhe fosse ofertada imortalidade (há um conto seu que aborda essa possibilidade), o seu tempo seria preenchido a estudar as filosofias dos outros grandes pensadores e poetas da humanidade. A sua paixão e alegria residem no facto não de ter uma teoria para defender, mas de haver tantas teorias para estudar. E o mesmo raciocínio poderia ser transferido para este seu estudo da poesia. Mais importante do que ter uma teoria literária, é ter, enquanto leitor, esta atitude borgesiana.

Em «Contar o conto», Borges considera a poesia épica como algo que, fruto da sua degeneração, levou à divisão posterior entre poesia e romance. É debatida a ideia da poesia como meio de mostrar grandes homens e contar as suas histórias da forma mais bela jamais feita. As três histórias que confirmam esta ideia são «a história de Tróia, a história de Ulisses, a história de Jesus» (p.39). As conclusões que Borges retira, uma vez comparada essas histórias maravilhosas com alguns romances modernos (Conrad, Melville, Kafka, e Henry James são os exemplos recordados), passam pela ideia do romance como uma degenerescência do épico, a maior diferença não consistindo em que um seja em verso e o outro em prosa, mas no facto de «o que é importante no poema épico é um herói – um homem que sirva de modelo (…). Ao passo que (…) a essência da maior parte dos romances está na falência de um homem, na degenerescência do carácter» (pp.40-41). Partindo daqui e do facto de o leitor contemporâneo presumir que qualquer aventura terminará num fracasso, não aceitando como verosímil uma história com um final feliz, Borges faz uma apologia da felicidade na literatura: «Quer isto dizer que não podemos acreditar verdadeiramente na felicidade e no sucesso. E isso pode ser uma das pobrezas do nosso tempo» (p.41). Mais à frente, aponta uma solução: «Não a verdade dos factos, mas a verdade dos sonhos» (p.41). Face a este contexto algo decadente, Borges profecia modestamente (se tal poderá ser dito em relação a qualquer profeta ou profecia) que «se se pudesse de novo juntar contar um conto e cantar um poema, poderia acontecer algo de muito importante» (pp.43-44), porque as pessoas têm «fome e sede do épico» (p.43). Borges anuncia que o épico acarreta um sentido ético e que, caso esse épico seja recuperado, virá dos Estados Unidos da América. Não sabemos se Borges acreditava piamente em tal previsão ou se teria simplesmente tomado a liberdade de elogiar o seu público naquele momento. Contudo, este desejo profético é reforçado por o escritor acreditar que o romance estaria perto do seu fim: «Penso que todas essas experiências muito ousadas e interessantes com o romance – (…) – tudo isso está a levar ao momento em que sentiremos que o romance já não está entre nós.» (p. 44) Abrir-se-ia assim o caminho de volta ao épico, tornando o poeta novamente um contador e cantor de histórias. O futuro da literatura, para Borges, seria uma revitalização dos primórdios da literatura épica.

No entanto, o jeito com que Borges anuncia as suas expectativas, profecias, desejos, nunca pressupõe uma infabilidade ou uma imposição agressiva; nas suas palavras ocorre uma atenuação: a profecia torna-se simples desejo, a previsão mera expectativa. Borges nunca procura legitimar a sua previsão pelo facto de o futuro ser ininteligível não só para ele, mas para todos; é precisamente por ninguém saber, incluindo o próprio Borges, o que o futuro reserva, que ele arrisca apresentar estas meras possibilidades. Não presume profetizar as suas crenças como o único caminho certo para «salvar» a literatura. Mantendo o seu registo modesto e falível, anuncia uma perspectiva e uma possibilidade, a sua, humilde e humana, o que facilita ao leitor pensar nesta ideia, e em outras, como uma alternativa que merece, pelo menos, reflexão.

Este Ofício de Poeta coloca em papel seis maravilhosas palestras que permitem presenciar o raciocínio de um extraordinário homem de letras, não no que toca à sua escrita (embora «O Credo de um poeta» gire em torno da sua perspectiva como escritor), mas enquanto leitor perspicaz e atencioso. Borges mergulha nos recantos mais belos que a literatura oferece, trazendo consigo à superfície (para a audiência e para nós, leitores), a responsabilidade que um leitor atento deve à literatura que mais alegria lhe dá, bem como o prazer que poderá advir dessa relação. Se a literatura pudesse falar, agradeceria. Não sendo o caso, nós, enquanto leitores atentos, agradecemos por ela.