Tiago Clariano

 

The Leftovers é o título de uma série televisiva adaptada do romance homónimo de Tom Perrotta, e é uma mais-valia contar com o contributo do autor para a sua adaptação ao ecrã televisivo, em conjunto com Damon Lindelof, que se tornou popular através da produção da série Lost (2004-2010). A pedra de toque do enredo é o desaparecimento súbito de 2% da população da Terra, o que inicialmente deixa os restantes habitantes num estado horrorizado e a lidar com o mistério desse mesmo acontecimento. A expressão titular The Leftovers é utilizada quotidianamente para designar o que sobra das nossas refeições, os restos; não obstante e para o caso, uma melhor e menos literal tradução seria «os restantes», visto que a série retrata a vida dos que não desapareceram.

As personagens lidam com o desaparecimento literal dos seus entes queridos, que não se pode comparar à morte, visto que os desaparecimentos são descritos como uma perda de tonalidade que resulta na transparência («dimmed off»). Porém, não se trata de uma transparência como a do Invisible Man de H. G. Wells, visto que o corpo não deixa um rasto da sua presença, mas sim de um desaparecimento para a inexistência, que deixa um vazio no sítio onde estavam as pessoas que desapareceram, e outro vazio, metafórico, na vida de quem lhes era próximo.

A série tem por tema os mecanismos que estas pessoas deixadas para trás usam para lidar com as suas perdas, mecanismos que podem ser analógicos para qualquer perda que tenhamos experienciado nas nossas vidas: o fim de uma relação, a separação de um grupo de amigos ou de uma turma na escola, ou a morte de um ente querido (que não se resume a seres humanos, mas também a animais e a fetos em gestação, como se vê na série). Cada pessoa procura a sua forma particular de lutar pelo preenchimento do vazio deixado pela partida («Departure») dos 2% que desapareceram. Disto resulta a projecção nos nossos ecrãs de um espelho das nossas próprias vidas em função das actividades em que nos envolvemos diariamente para lidar com os vários vazios deixados pelos passados que não se revivem, pelos mortos que não ressuscitam, e pelas relações que não se reatam. As pessoas directamente afectadas pela «Departure» parecem criar sistemas de defesa através de vícios, actividades profissionais, e crenças. Os vícios em drogas, álcool, tabaco e anti-depressivos são recorrentemente referidos; os encontros sociais, quer se dêem em igrejas, empresas, ou sob a forma de cultos são bordados de uma frieza pouco característica do luto.

A atmosfera religiosa da série (no sentido de re-ligare, de recriar a ligação com os que se perderam) intensifica-se ao longo das três temporadas, com o recurso à exploração de várias seitas religiosas, desde o cristianismo às danças tribais australianas que trariam a chuva. É nas crenças que circundam o desaparecimento que a série mais se foca, não só devido à iconografia do seu genérico, como também pelo modo como estas pessoas lidam com o evento e o interpretam. Um acontecimento deste tipo faz com que se pondere acerca da justiça do que aconteceu, e a sua magnitude (desaparecer 2% da população é o suficiente para afectar qualquer pessoa em qualquer parte do mundo) confere-lhe proporções religiosas, como se do «Êxtase» bíblico se tratasse. O «Êxtase» é o momento em que Deus escolhe os justos e os leva para junto de Si, deixando para trás os infiéis e os pecadores à espera do «Julgamento Final». Esta interpretação da «Sudden Departure» alia-se à ideia de «Apocalipse»: para muitos, o desaparecimento de 2% da população corresponde ao fim do mundo. No entanto, quem assim o interpreta foi deixado para trás («left over», deixado deste lado) e lida com um mundo que acredita ter terminado, mas em que ainda lhe é permitido agir e continuar a viver, apesar de ignorante acerca do que aconteceu com os que desapareceram.

Cada episódio de The Leftovers, composta por três temporadas, concentra a narração numa personagem; o foco nas acções de cada indivíduo permite que estes se dêem a conhecer para além das carreiras profissionais que seguem e que poderiam delimitar um padrão de comportamentos que lhes seria imputável — psicólogos, polícias, pastores religiosos são também, contrastando com o que seria esperado de tais títulos, membros de cultos, assassinos de animais, e jogadores de casino, respectivamente. Note-se, no entanto, que estas acções desviantes da norma resultam de reacções, de procedimentos para lidar com a dor da perda dos que desapareceram. Esta forma de narração revela apenas a quantidade de informação desejada, o que permite algumas reviravoltas gratuitas que se explicam através do cruzamento com as vivências de outra personagem, enquadradas num episódio subsequente.

A primeira temporada centra-se nas relações entre as pessoas que ficaram para trás e, acima de tudo, nas reacções, maioritariamente conflituosas, à «Sudden Departure». O primeiro episódio abre com imagens de uma mãe, numa lavandaria, acompanhada por uma bebé, que transporta para o seu carro, colocando-a na cadeirinha de bebé. Enquanto a mãe fala ao telemóvel, o incessante choro da criança é repentinamente interrompido e substituído pelo silêncio, o que a leva a mãe a verificar a criança, para descobrir que já não está onde a tinha colocado. Segue-se um conjunto de colisões de carros que perderam os seus condutores e crianças a gritar pelos seus progenitores: todos eles desapareceram.

Logo depois de mostrar o dia da «Sudden Departure», 14 de Outubro, a série move-se para as comemorações realizadas um ano depois, através dos olhos de Kevin Garvey (Justin Theroux), chefe da polícia de Mapleton, que está preocupado com a possível interferência de um culto chamado «Guilty Remnant» durante os discursos. Este culto tem como missão ser uma recordação constante («We are living reminders») do desaparecimento, tendo como características principais o uso de vestes totalmente brancas, o recusar-se a falar, e o fumar cigarros. Nora Durst (Carrie Coon) é apresentada como uma pessoa que perdeu toda a sua família (o marido e os dois filhos) para o desaparecimento súbito e, no dia das comemorações, profere um discurso acerca de como nunca se tinha apercebido da felicidade que acompanhava a sua família até ao dia em que a perdeu. Durante o discurso, Laurie Garvey (Amy Brenneman), a ex-mulher de Kevin, aproxima-se dos «Guilty Remnant» empunhando cartazes com letras de tamanho humano que soletram «Stop wasting your breath» (algo como «não desperdicem o vosso latim», passe a expressão idiomática). Segue-se uma exibição de violência dos presentes e das forças de segurança para com um grupo que faz recordar a uma sociedade tudo aquilo que esta pretende esquecer.

O nome do culto, «Guilty Remnant» (algo como os culpados que ficaram), parece metonímico da sensação de toda a percentagem que não desapareceu na fatídica data de 14 de Outubro. As acções deste grupo têm por intenção lembrar a irreversibilidade do desaparecimento súbito: ficam especados a fumar os seus cigarros em frente às casas de pessoas afectadas pelo desaparecimento, roubam todas as fotografias de família dos desaparecidos, chegam ao ponto de colocar réplicas em forma de bonecos de cera no sítio exacto de onde desapareceram. As agressões que suscitam devido ao seu comportamento — que incluem apedrejamentos — não os demovem, e são um dos pontos cruciais da série.

Também no primeiro episódio são apresentados dois irmãos: a já mencionada Nora Durst, e Matt Jamison (Christopher Eccleston), ambos com formas de reacção distintas à «Sudden Departure». Nora faz entrevistas para o «Department of Sudden Departure», de modo a avaliar em que medida as pessoas afectadas pelo desaparecimento necessitam de apoio financeiro, mostrando, apesar da perda de três elementos da sua família directa, uma frieza realista necessária para o tipo de trabalho que desempenha. O seu irmão, Matt, é um sacerdote episcopal, casado com Mary (Janet Moloney), uma mulher que ficou paralítica durante os eventos da partida súbita. Enquanto sacerdote, Matt lida com as crenças das pessoas que ficaram para trás, entre as quais recorre a história de que o desaparecimento se trataria do «Êxtase» bíblico, ideia que Matt tenta desmascarar ao distribuir pela cidade de Mapleton folhetos que referem os pecados das pessoas que desapareceram. Matt mostra-se obcecado em denunciar os comportamentos das vítimas do desaparecimento, o que também o leva a sofrer consequências, nomeadamente quando o pai de uma das vítimas descobre através dos folhetos de Matt que a sua filha era uma traficante de drogas.

A segunda temporada muda a ênfase para as tentativas de escapatória às mágoas. O cenário muda para uma cidade chamada Jarden, envolvida pelo parque natural Miracle, no Texas. Esta cidade tem a particularidade de não ter sido afectada pelos eventos de 14 de Outubro: nenhum dos seus 9261 habitantes desapareceu e este número começa a ser repetido em cânticos ao longo da temporada. Durante o primeiro episódio, são-nos apresentados a família Murphy e o centro religioso que é Jarden, até onde tantos crentes decidem peregrinar, em torno do qual se forma uma comunidade que se assemelha ao acampamento de um festival de Verão. Só no final do episódio é que surge novamente Kevin Garvey, junto da nova namorada, Nora Durst, e da sua filha, Jill Garvey, os três chegando a Jarden para um novo começo. O enredo desta temporada é também propelido pelos «Guilty Remnant», cujo objectivo agora é o de fazer sentir a «Departure» aos habitantes de Jarden. Para isso, convencem três raparigas a encenar uma «sudden departure» (saem à noite e deixam o carro perto de um rio com o volume do rádio no máximo), o que macula a reputação deste porto seguro de onde ninguém desapareceu antes.

A terceira temporada tem um tom ainda mais focado nas crenças de cada personagem. Abre com um episódio chamado «The Book of Kevin», acerca de um livro que Matt Jamison escreveu a respeito do protagonista e de tudo por que passou, conotando-o com um Messias, e termina com «The Book of Nora», acerca da experiência de Nora, que foi convencida por cientistas a experimentar um dispositivo que lhe permitiria reencontrar os entes queridos que perdeu. Este último episódio tem lugar anos depois de Nora ter experimentado a máquina que simularia a sua própria «departure». Ao longo destes anos, Kevin procurou por ela, por se considerar a si mesmo a causa do que levou Nora a procurar voltar a encontrar-se com a sua família «over there» («do outro lado»). Quando se reencontram, Nora descreve a Kevin um mundo paralelo, exactamente como aquele de que saíra, mas invertido: para os 2% que desapareceram do universo «deste lado», foram os restantes 98% que desapareceram: «Over here, we lost some of them. But over there, they lost all of us.»

O diálogo que dá o desfecho à série é baseado na capacidade de acreditar: ao início, enquanto Nora relata a sua entrada para o dispositivo que a levaria ao «outro lado», o relato é acompanhado de imagens ilustrativas; no entanto, quando Nora começa a falar do que viu do outro lado, pela primeira vez na série um relato não é acompanhado de filmagens explícitas acerca do que é descrito. Neste caso, o resto do diálogo é ilustrado com as caras de Kevin e Nora, a cujos actores se deve tirar o chapéu pela carga emocional desferida nesta cena a nu, sem complementos de imagnes para além da música. Esta deliberação cinematográfica faz o mistério perdurar sem resposta: pode realmente confiar-se nos relatos do que Nora viu do outro lado? É realmente necessária uma explicação lógica para todas as coisas de maior ou menor magnitude que nos acontecem na vida?

A decisão de Kevin, ao dizer acreditar na história contada por Nora, tem uma outra finalidade. Kevin aceita a perspectiva de Nora acerca da «Sudden Departure», afirmando «I believe in you» com o propósito de aproveitar os momentos que ainda pode vir a ter com ela. A expressão desta crença prende-se com o tempo perdido em busca de Nora, rodeado de rumores de que teria seguido para o outro lado através de uma experiência científica. Kevin expressa a sua crença por ter finalmente reencontrado a pessoa que ama, e por desejar poder aproveitar cada momento que lhe resta com ela, deixando para trás a inquisição do que virá depois ou estará do outro lado, e abraçando a vida que tem: ao acreditar naquilo que a sua própria vida ainda tem para lhe dar.