Pedro Franco

 

Vencedor do Grammy de «Melhor Álbum de Música Alternativa», Sleep Well Beast vem marcar um ponto de viragem na sonoridade dos The National. Os fãs da velha guarda têm bons motivos para se queixar desta revolução sónica que Matt Berninger, o vocalista, refere com entusiasmo em entrevista à NME (25 Junho 2017): à malha das guitarras e das baterias sobrepõe-se, em muitas faixas, o sintetizador; recorre-se a loops; escutam-se outras cordas mais sofisticadas e mesmo coros de vozes contrastantes com o barítono de Berninger. A composição, em suma, torna-se mais complexa e não tão sincera, como talvez diriam os adeptos daquilo a que muitos chamam «college rock». O ouvinte impreparado agradece. Está diante de um dos álbuns mais desconcertantes do ano de 2017 — e é esse desconcerto que cativa.

Desconcertante também na sua dimensão lírica. E é aqui que, como o próprio Berninger explica, não se avistam grandes mudanças: «I bet the lyrics on this record are about the same stuff as all of the other records — fear, fear of losing the things you love, trying to find the things you love, attempting to be kind. All the basics.» (ibidem) Este comentário do vocalista em forma de palpite explica o carácter experimental, não só deste álbum, mas também do método de escrita e composição. Já em 2007, Berninger assumia um método colaborativo, em que a letra vai sendo escrita em função de pequenos trechos musicais (v. The Scenestar, 9 de Junho de 2007). Mais tarde, viria a reiterar a supremacia da música e a falar da sua escrita como uma tentativa de descrição de um sentimento impreciso (v. The Talks, 12 de Dezembro de 2013). Assim, entende-se o desconcerto lírico, as dificuldades interpretativas destas e de outras canções. Sleep Well Beast não foge à regra: impera a associação livre de ideias.

No entanto, são dadas algumas certezas. Multiplicam-se as declarações de Berninger que indicam que o álbum trata de uma separação; que assumem a leitura política de algumas faixas e que, em certa medida, o que o atravessa é uma espécie de «mal-estar na civilização» associado aos medos e ansiedades da meia-idade (recorro eu, não Berninger, à expressão freudiana). Nenhuma destas dimensões anda desligada da outra. Diz Berninger ao The Atlantic: «I don’t think of one song as being a relationship song and one being a politics song» (8 de Setembro de 2017). No entanto, não são assim tantas as faixas em que isso se torna evidente.

«Turtleneck», que musicalmente poderá contentar os adeptos do supracitado «college rock», é mais evidentemente política, porque se refere a um messias dos pobres, «another man in shitty suits», que aparentemente tweeta a partir da casa de banho. Para que não restem dúvidas, é por causa de Donald Trump e de todos os seus apoiantes que a voz de Berninger desespera: «Oh this is so embarassing». Como noutras letras, há sempre um refúgio no álcool e nas drogas.

Mas talvez o melhor exemplo que reúna as três dimensões referidas (a separação, a política e o dito mal-estar) seja «Walk it Back» — onde, por acaso, também se mistura «weed with wine». Um certo sentimento de desorientação abre a canção («always thinking about useless things (…), always bothering myself to bits»), transformando-se num sentimento de impotência («Forget it, nothing I change, changes anything»), e fica a sensação de estarmos diante de um homem que se está a conter apesar dos seus pensamentos negativos («I only take up a little of the collapsing space / I better cut this off / Don’t wanna fuck it up»). Esta leitura seria consistente se não fosse integrado na canção o discurso do ex-deputado e conselheiro de George W. Bush, Karl Rove, num polémico discurso que fala dos Estados Unidos como um império que molda o mundo que, «quando age, cria a sua própria realidade». Será a tentativa de contenção uma admonição de Berninger aos ímpetos republicanos? Talvez não seja preciso escolher entre uma leitura e outra. Talvez esta e outras letras sejam como um poema interseccionista, como uma «Chuva Oblíqua». Chegamos ao fim e ouvimos «It’s all alright, / If I’m gonna get back to you some day, / I’ll need your light». Parece que se voltou à dimensão dos problemas conjugais, que já estrearam o álbum com «Nobody Else Will Be There», ao som de um piano e percussão seguros: o homem saiu de casa, quer e não quer voltar.

Este final de «Walk it Back» elucida-nos sobre o tipo de relação que este álbum descreve. E entramos em canções onde dificilmente se pode fazer uma leitura política. Se Berninger confessa que trata de uma separação, logo ficamos a saber que o processo criativo, que redunda em sorumbatismo, é também a forma de expurgar os problemas conjugais (v. entrevista ao Telegraph, 27 Outubro de 2017). Berninger volta sempre para Carin, a sua mulher e co-autora de muitas das letras. Imaginamos que não o seja da «Carin at the Liquor Store», uma balada ao piano com guitarras sintetizadas. Nesta canção mostra-se desde o princípio a auto-humilhação a que Berninger se refere em várias entrevistas e de que não se consegue livrar («I was a worm, I was creature») mas que tenta superar («foregone conclusion»). «Born to Beg» anda de mãos dadas com esse sentimento: «I was born to beg for you / I’d cry, crawl / I’d do it all / Teakettle love, I’d do anything».

Assim, «Guilty Party» reveste-se de outro sentido, mas isso não lhe retira de maneira nenhuma a gravidade e a sobriedade da letra, paradoxalmente assolando o ouvinte com a sua bateria consistente e inebriantes arranjos electrónicos. Ela é, na realidade, a chave desta relação «I say I’m sorry / I’m the one doing this, there’s no other way / It’s nobody’s fault / No guilty party».

Mas nem só de escuridão e dúvidas vive este álbum. «Dark Side of the Gym», sendo o título uma referência a versos da canção de Leonard Cohen, «Memories», que funcionam como linha de engate («Just dance me to the dark side of the gym, / Chances are I’ll let you do most anything»), é uma verdadeira declaração de amor em retrospectiva e em promessa («I’m gonna keep you in love with me for a while»), sem complexos ou auto-aversão, com toques oníricos («I have dreams of anonymous castrati, / singing to us from the trees») e direito a violinos.

Também a canção «Day I Die» foge à habitual auto-humilhação a que Berninger assumidamente se sujeita, mas de outra forma. Se «Dark Side of the Gym» é melíflua, «Day I Die» abre um horizonte de possibilidades, revela um desejo de libertação do mal-estar, seja do casamento, seja da civilização: «Let’s just get high enough to see our problems». É por isso que o seu compasso é enérgico.

A besta que os The National querem adormecer é mesmo esse mal-estar na civilização: são as pulsões destrutivas que Berninger reconhece nele mesmo e que acusa na sociedade. «Sleep Well Beast» e «I’ll Still Destroy You», de longe as melhores prestações da percussão no álbum e talvez as letras mais complexas e interessantes em que se revela a desorientação, a impotência e a insensibilidade («We’ve been stuck out here in the hallway for way way too long / I’m at a loss, I’m at a loss, I’m losing grip, the fabric’s ripped”; “Nothing I do makes me feel different»), são as únicas que fazem referência a esta besta. Nas duas, ainda há um vislumbre de esperança («It’s just the lights coming on»). Enquanto não for possível destruí-la, é ao adormecê-la que se cumpre a tentativa que Berninger referia ao dar o seu palpite sobre as letras deste álbum: «attempting to be kind». 

Os versos esperançosos que fecham a última faixa, «Sleep Well Beast», repetem «I’ll still destroy you someday, sleep well, beast; you as well, beast». Este «you as well», esta duplicação de bestas indica que Berninger andou realmente a desafiar duas bestas de espécies diferentes. Relembro, sugiro, as próprias pulsões deste «horny white man afraid to cross the street» (v. entrevista ao The Atlantic, 8 de Setembro de 2017), cheio de auto-aversão e inseguranças nas relações mais íntimas, e as pulsões dos que, também na sua própria angústia, apoiam figuras como Trump: «the men who look a little like they feel like me», talvez midwesterners como Berninger. Há algo de reconciliador e promissor no reconhecimento de uma condição comum àqueles que mais condenamos.

Podíamos pedir que as letras de Berninger e Carin fossem menos obscuras, menos caprichosas talvez. Porém, a harmonia performativa justifica-o. E, além disso, e já que nos temos permitido liberdades interpretativas, eles avisaram-nos: «We said we’d never let anyone in / We said we’d only die of lonely secrets» («The System Only Dreams in Total Darkness»). De qualquer maneira, e felizmente, eles não se conseguiriam explicar de outra forma.