Lauro Reis

 

O último romance do mais recente Nobel da literatura parte de uma premissa invulgar: um casal idoso, Axl e Beatrice, parte em busca de um filho do qual não se lembram, num mundo desconhecido, fantástico e hostil, povoado por dragões, ogres e cavaleiros da Távola Redonda. No decurso dessa jornada, o relacionamento entre Axl e Beatrice será testado, tanto pelas provações físicas que aquele mundo lançará, como pelas recordações que poderão emergir. A constante possibilidade de anagnórise por parte de ambos os protagonistas é o motor deste romance, um mecanismo usado como forma de humanizar as próprias personagens e a Grã-Bretanha imaginária onde se encontram, mas também como propulsor da acção para um desfecho ambíguo e alegórico.    

Uma névoa acinzentada e densa paira sobre toda a Grã-Bretanha. Bretões e Saxões coabitam ignorando, fruto do esquecimento induzido por essa névoa, todos os conflitos que haviam tido anteriormente. Reina uma aparente mas frágil paz. Contudo, a névoa não afecta todos de igual modo: existem indivíduos que conseguem lembrar-se de certos fragmentos, por ínfimos que sejam. É a esta categoria que pertencem Axl e Beatrice, habitantes da periferia de uma pequena aldeia esquecida pelo resto do mundo. Axl e Beatrice vislumbram fragmentos de memórias do seu filho que, embora pouco frequentes, são suficientes para partirem em busca de alguém sem nome, sem rosto, e sem localização conhecida.

O país que vão encontrando é uma versão pálida daquilo que fora: embora em aparente paz, reina a desconfiança, a dúvida e o medo. Ao longo da jornada, Axl e Beatrice deparam com figuras que espelham a sua própria condição: exaustas, esgotadas, perdidas e quixotescamente indefesas, que há muito deixaram para trás os seus melhores anos. Sir Gawain, cavaleiro do mítico Rei Artur, é o maior representante dessa decadência quixotesca: um cavaleiro que ultrapassou a flor da idade e que, com as poucas recordações que ainda consegue suster contra aquela névoa, procura cumprir a sua missão, no mínimo, controversa: proteger a origem dessa névoa de esquecimento. Sem a força e o vigor de outrora, não são as armas de Gawain que testam Axl e Beatrice, mas as poucas recordações que consegue recuperar e que partilha com o casal, num passado de batalhas sangrentas e feridas impossíveis de sarar.

A revelação de que Axl e Gawain têm um passado em comum de discórdia e conflito só atesta o ponto de Gawain: que a paz sustida por aquela névoa de esquecimento não é a ideal, mas um mal necessário para interromper a existência sangrenta e a sede de vingança de Bretões e Saxões que aquela ilha suportava. O romance coloca em cima da mesa a possibilidade de uma paz entorpecida, onde o esquecimento reina, esquecimento esse capaz de induzir uma espécie de mórbida complacência, permitindo assim uma coabitação sem conflitos aparentes, sem vinganças, preconceitos ou ódios reprimidos. Contudo, uma nova geração emerge, personificada por Wistan, que procura dissolver esta névoa, justificando essa demanda como a busca de justiça para o seu povo. Este guerreiro extraordinário introduz a problemática milenar da distinção entre justiça e vingança, chegando inclusive a afirmar que será impossível existir justiça enquanto tal paz entorpecedora dominar o povo.

Axl e Beatrice decidem auxiliar Wistan no cumprimento da sua missão de erradicar a origem da névoa do esquecimento, podendo assim desbloquear as memórias cruciais para descobrir o paradeiro do seu filho. Embora as peripécias os aproximem, uma vez que o seu amor e desejo de bem-estar um do outro são incontestáveis, o maior desafio que Axl e Beatrice enfrentam são as recordações que alteram não só a relação com o mundo que os rodeia, mas também a relação entre ambos. Quando, nos raros instante em que a névoa demora a surgir no amanhecer e os seus efeitos demoram a manifestar-se, e Axl ou Beatrice contemplam o nascer do sol sem qualquer impedimento, é-lhes possível voltar atrás e recordar pessoas ou eventos passados. A importância da paisagem e da natureza e a sua ligação com a memória é presença constante em O Gigante Enterrado, por potenciar reminiscências suficientemente poderosas que incentivam um casal frágil a fazer-se à estrada e persistir nela, apesar das adversidades. O que Ishiguro procurou demonstrar com estes protagonistas é o poder que a memória (e, neste caso, o esquecimento) possui no modo como nos relacionamos com o mundo e como construímos privadamente a nossa própria identidade. A questão que a busca de Axl e Beatrice coloca sobre eles próprios é: será possível suster uma identidade, e, mais, uma relação entre duas pessoas, uma vida em comum, tendo como base apenas o presente, em detrimento de qualquer passado?

O Gigante Enterrado lida habilmente não só com a responsabilidade, a influência e o poder que a memória possui sobre o presente, mas também com a força do vazio que o esquecimento pode ofertar a esse mesmo presente. Ishiguro procura demonstrar a natureza opaca e emaranhada da memória situando-a num mundo fantástico onde os acontecimentos são testemunhados e analisados através do olhar de um casal que depende da benevolência, boa-fé e caridade do que os rodeia, de forma a suportar mais um pouco as vicissitudes de uma vida desamparada, solitária, inconsequente. À medida que o leitor acompanha a sua jornada, toma consciência da fragilidade absoluta de Axl e Beatrice face a um mundo povoado por criaturas mitológicas e mortais, destacando o seu isolamento enquanto humanos num mundo demasiado hostil. E enquanto humanos que ultrapassaram a flor da idade, além de não possuírem quaisquer qualidades sobre-humanas que os protejam ou que facilitem a sua progressão nesse mundo hostil, também se encontram privados de características (não só físicas) que tomamos como garantidas à condição humana: a memória e a recordação. O fantástico é, neste romance, o contexto extremo que qualquer indivíduo com idade avançada terá de enfrentar: para qualquer pessoa desprovida da força e vigor de outrora e de qualquer outra característica que defina o ser humano, como a memória, o mundo que a rodeia é sempre hostil, violento, distante, cruel e indiferente. Chega uma altura em que as mudanças que sofremos, quer físicas quer mentais, por chegarmos a uma certa idade, são tais que acabam por alterar profundamente a relação que havíamos estabelecido com o mundo até então. No caso de Axl e Beatrice, as suas idades, o esquecimento artificialmente induzido, e o mundo fantástico onde se encontram representam uma versão extrema do isolamento que recai sobre todos nós quando se atinge uma certa fase da vida, quando o mundo que nos circunda adopta uma dimensão intransigente, perigosa e hostil face à condição diminuída a que se agora chegou. No entanto, por mais benevolência e caridade que o mundo ofereça, para se combater o esquecimento e o isolamento tem de partir dos próprios sujeitos, como Axl e Beatrice, o desejo e a atitude de não só se ser deixado para trás mas, face a um mundo tão indiferente e cruel, buscar a aproximação e a recordação.

O encontro derradeiro com o responsável pela névoa do esquecimento revelará a universalidade da decadência física, mental e sentimental, que recai não só sobre o casal, mas sobre todas as coisas vivas, por mais fantásticas e monstruosas que sejam. A excepcionalidade da delicada humanidade e amor que Axl e Beatrice demonstram durante toda a sua jornada um pelo outro e pelas pessoas que vão encontrando atesta o facto de que, mesmo que este mundo não estivesse repleto de criaturas, eventos e locais fantásticos e fatais para alguém como eles, qualquer outro mundo ser-lhes-ia igualmente hostil.

Sendo teoricamente a aproximação e a recordação, acima referidos, ideais dignos de busca, tal busca pode revelar sentimentos profundos de ódio, intolerância e conflito: o esquecimento artificialmente induzido pela névoa havia sido criado com o propósito de obnubilar todos os sentimentos negativos que pudessem causar confrontos e divisões. Mas, tal como não se pode escolher aquilo que queremos lembrar, também não é possível escolher o que queremos esquecer, e, assim, tanto o que é considerado bom como mau sofre dos efeitos entorpecedores da névoa. O Gigante Enterrado procura também mapear a relação ambivalente com a memória: nem tudo o que acontece merece ser recordado, e nem tudo o que acontece se torna sequer recordação — muitas das memórias ou eventos passados são esquecidos, enquanto muitas memórias que recordamos não são sequer dignas de serem lembradas. Não cabe ao homem escolher a memória que se recorda e a que se esquece, apenas a importância que escolhe atribuir a essa memória ou ao seu esquecimento. A aleatoriedade da memória, característica inata e inevitável, foi o que se procurou eliminar ao criar a névoa. Mas, simultaneamente, eliminaram-se diversos aspectos da condição humana, fundamentais para o que podemos designar como uma «boa vida»: a capacidade para discernir quem somos, a faculdade de estabelecer e manter relações importantes para nós, e a necessidade de fazer parte de uma comunidade. É nestes três aspectos que O Gigante Enterrado se centra, procurando elucidar a opacidade e a ambivalência da memória, com poderes tanto para construir como para destruir relações e identidades.

O modo como os protagonistas de cada história lidam com o mundo, fruto do seu passado conflituoso e incompatível com um presente pacificamente entorpecido, é algo que Ishiguro já havia experimentado em outras obras, como An Artist of the Floating World ou até o mais conhecido Os Despojos do Dia. A dimensão ambivalente em que coloca as personagens impossibilita-lhes sempre qualquer zona de conforto interior, colocando-as numa relação tensa e desestabilizadora com aquilo que pensam ter sido, quem são agora, e, fruto disso, qual o seu lugar no mundo: O Gigante Enterrado dá assim protagonismo a uma etapa da vida a que normalmente não é oferecida qualquer primazia ou reconhecimento. Ao contrário do que muitos disseram, esta não é uma obra de fantasia: é a história de um casal idoso que procura lidar com as suas memórias e encontrar de novo o seu lugar no mundo, mundo esse em que, por acaso, habitam cavaleiros e dragões. Ishiguro oferece neste romance o palco a duas vozes habituadas a uma existência acessória e periférica, servindo como um lembrete e um contributo notável contra o esquecimento e o isolamento cada vez mais presentes não só no mundo de Axl e Beatrice, mas no nosso também.