Helena Carneiro

 

Este é um livro de ensaios no verdadeiro sentido do termo, com direito a notas de rodapé e citações devidamente referenciadas na bibliografia que acompanha a maior parte dos textos. É um livro académico, escrito por académicos. Além disso, resulta de uma actividade estritamente académica: a realização de conferências sobre um dado tema ou autor, neste caso um colóquio comemorativo dos trinta anos da morte de Alexandre O’Neill.

A organizadora do volume, que contribui com um texto, Joana Meirim, foi também a organizadora do colóquio, e é a única a que se pode dar a designação de «especialista» em O’Neill. Os outros autores são académicos e especialistas não em O’Neill, mas em produzir literatura crítica sobre determinados assuntos ou autores. Cada um tem a sua especialidade, mais ou menos abrangente, mais ou menos legitimada quer pelo número de anos que já leva a praticá-la, quer pela instituição ou instituições a que esteve ou a que está associado.

Poderia tomar-se esta apresentação como demovedora dos leitores, mas trata-se exactamente do contrário. Este livro comporta uma qualidade dupla: interessará a quem se interessa por O’Neill e interessará a quem se interessa pelo que se faz hoje na academia portuguesa. Este último ponto é particularmente importante porque este livro é um retrato da academia actual, permitindo discernir uma mudança nas várias linguagens académicas vigentes.

Podemos conhecer O’Neill melhor ou pior, podemos gostar menos ou mais da sua obra, com a certeza, no entanto, de que cada texto nos trará duas coisas: ficarmos a saber mais sobre O’Neill; ficarmos a saber mais sobre a crítica académica. Cada ensaio aqui reunido é suficiente em si quer no uso que faz da obra de O’Neill, não pressupondo dela um conhecimento prévio, quer no que à inteligibilidade do argumento diz respeito.

Ao longo dos textos há versos de O’Neill que se repetem, como este do poema «Saudação a João Cabral de Melo Neto», em que caracteriza aquilo de que o apelidam: «prosaico»: «o que não mente a si mesmo». Juntemos a esta descrição uma outra do mesmo poema, os versos que o terminam: «é um modo de ser, / mesmo antes do verso, / mesmo fora do verso, / mesmo sem dizer.» O que estes versos dizem é aplicável não só a O’Neill e aos poetas que escrevem a poesia de que gosta, mas também aos críticos: o que escrevem permite ver o que são, de onde vêm, qual a sua linhagem.

É também a linhagem de O’Neill que a organização dos ensaios releva. A sequência inteligente em que estão ordenados estabelece uma ligação entre eles, que nos vai dando conta do contexto de O’Neill e daquilo que, quase sempre declaradamente, subscreve ou rejeita. O lugar em que se posiciona caracteriza-se, primeiro, pela negação: O’Neill não é surrealista, nem o satírico que tentam fazê-lo. Depois, pela aproximação a poetas e escritores periféricos ou esquecidos, e a uma escrita que, por «prosaica», como já referido, se afasta do que é tido por poesia. 

Na introdução ao volume, Joana Meirim descreve habilmente cada um dos textos que o compõem. O que quero acrescentar a essas descrições é a liberdade que deles é indissociável. Uma liberdade permitida pelo trabalho de O’Neill, que escreveu poesia, prosa, teatro, traduziu e ainda tinha como trabalho oficial a publicidade, mas acima de tudo uma liberdade que se nota crescente no avanço da leitura do volume e que culmina no último texto de todos, não de crítica, mas de poesia.

É esta liberdade que permite a não-especialistas em O’Neill falar dele. E é esta liberdade que diria ser a característica fundamental da nova linguagem que conseguimos ver surgir na academia: com este volume, aprende-se não só sobre O’Neill como sobre ler poesia e fazer crítica. É também esta liberdade que me permite dizer que a inteligência e a agudeza de certas leituras de O’Neill me provocaram uma comoção não só intelectual, mas emocional, e este é o principal e mais verdadeiro elogio que posso fazer a este volume.