Sofia A. Carvalho

 

[...] the Love Song exists to fill, with language,
the silence between ourselves and God, to decrease

the distance between the temporal and the divine.

Nick Cave

 

 

Sim, é possível que hoje já não existam canções de amor. É possível que o medo trave o mundo e os seus encantamentos. É possível que nada se revele superiormente belo e triste. É possível que os jericos deixem de ver a Deus. É possível que cessem os momentos de graça e abunde a estupidez. É possível que os anjos não se revoltem e os demónios jejuem. Mas nada disto acontece em One More Time With Feeling, documentário de Andrew Dominik sobre o processo de gravação de Skeleton Tree (2016), o mais recente álbum de Nick Cave. Esta espécie híbrida de documentário, que chegou em DVD a Portugal a 7 de Abril do presente ano com o acréscimo de três curtas-metragens, exige, pela sua natureza peculiar, uma nova abordagem: o que me importa explicitar e explorar é, de facto, a sua natureza complexa e contraditória. Fá-lo-ei a partir das noções de amor e protesto, dois aspectos que percorrem toda a produção musical de Nick Cave e que surgem negligenciados pela crítica.

Com efeito, a exibição do documentário — com estreia mundial a dia 8 de Setembro de 2016, e reposição no dia 6 de Novembro, durante o Lisbon & Estoril Film Festival — conduziu a diferentes e exclusivas interpretações, situando o poeta-cantor ora como uma voz plangente e sentimental, espécie de bête noir decaída pela dor da morte do filho Arthur (em The Guardian: «it’s hard not to hear the album as reflecting Cave’s emotional pile-up of shock, confusion and personal disintegration»), ora como um ser cujas força e firmeza, ao invés de consumidas, se sublimaram ante esse trágico acontecimento, tornando-o numa espécie de figura imponderável (em The New York Times: «The album’s most powerful song, “I Need You” is a naked groan of grief and despair that has the feel of a majestic processional hymn with thick choral textures»).

Estas interpretações poderão tornar-se demasiadamente lineares, transformando, a seu tempo, o documentário em algo frouxo e simplista e as canções num mero registo factual, mesmo que nobre, do acontecimento trágico e traumático provocado pela morte de Arthur. O que proponho, então, é alterar a lente de análise a partir não da exibição do documentário per se, mas do DVD que, incluindo o documentário, comporta o bónus das três curtas-metragens.

Vejo esta produção híbrida como uma espécie de canção de amor, tal como entendida pela epígrafe retirada de The Complete Lyrics 1978-2013, cujo tom é de agudo protesto. Claro que esta afirmação contém sentidos múltiplos e repercussões diversas: não só pela ambiguidade atinente à tipologia — canção de amor —, mas também porque esta espécie estranha de documentário (porque em forma de canção de amor) condensa, de forma latente, um acto feroz e de violento protesto.

Para Cave, a vida não permite concessões —, «Oh, nothing is for free», canta este Orfeu contemporâneo em «Skeleton Tree». Dominik acompanhará este ritmo de pensamento de forma muito arguta, apresentando um documentário que é pacto evidente disso mesmo. É neste sentido que nenhuma das interpretações inicialmente enunciadas poderia convergir com a minha leitura, próxima do tom violento e duro que distingo no tema «Steve McQueen»:

 

Because someone’s gotta sing the stars
And someone’s gotta sing the rain
And someone’s gotta sing the blood
And someone’s gotta sing the pain

 

Não poderia convergir, em primeiro lugar, porque Andrew Dominik prepara um artifício que esfuma o diferencial entre as canções que integram o álbum (Skeleton Tree) e o documentário (One More Time With Feeling). Basta para isso recordar a pergunta inicial do documentário — «You wanna just tell me the story?» sobre os primeiros versos da música «Jesus Alone». A resposta, dada pela figura cúmplice de Warren Ellis, não poderia ser mais elucidativa, já que foca justamente a estrutura intricada e complexa das canções, bem como a sua difícil ligação à história da morte do filho de Cave. Segundo Ellis, esse acontecimento não traz nenhum «insight», pois é tido como um passo que não se consegue acompanhar.

Em segundo, o tom aparentemente explícito com que se aborda a questão traumática da morte de Arthur — quer no documentário, quer nas canções que integram o álbum — parece não só pretender esgotar o tema, como também sugerir uma clara e inequívoca correspondência entre a vida de Cave e o seu processo artístico e criativo. Todavia, e a propósito de alguns pesares compassivos que lhe dirigem (tal como esse «greeting card»: «he still lives in your heart»), Cave lembra de forma lúcida que Arthur, ainda que esteja no seu coração, não está vivo de modo nenhum — não será este um primeiro e subtil indício de amor e protesto? Em terceiro, e último, o grande número de críticas enferma de um certo grau de voyeurismo macerado perante a dor e o luto, o que não deixa de surgir como desvantagem. 

Na verdade, a qualidade virtuosa deste documentário em DVD não deixa de ser inteligente e eficazmente artificiosa. Inteligente, porquanto funciona como estratégia e filtro controlados, afastando futuras e inusitadas aproximações ao tema da morte de Arthur; eficaz, já que a crítica fica assim de barriga cheia e a divulgação do documentário atinge outra proporção e talvez até outro público.

Assim sendo, há aqui uma habilíssima e muito pouco evidente transferência: o documentário não é senão uma espécie de canção de amor e de protesto, aliado ao conjunto composicional do álbum, feito antes da morte de Arthur, embora epidermicamente reformulado no decurso do mesmo.

O cuidado constante com a letra e a palavra que Cave admite ter, menos inciso neste álbum do que em outros que o precederam, não deixa de exigir esforço e concentração. Só isto garante a intensidade hipnótica, surpreendente e brutal das canções de amor. Isto é: o álbum Skeleton Tree é, de forma contraditória, o conteúdo amoroso que envolve um esqueleto de protesto — o documentário One More Time With Feeling, a par das três curtas que o compõem. Não só porque este último assume, desde o início, um estilo performativo, mas também porque é o resultado conceptual do processo de gravação do álbum.  

Portanto, e evitando juízos empáticos que afunilem a experiência reflexiva e artística de Nick Cave, vejo a natureza deste documentário em DVD como uma espécie singular de canção de amor e de protesto. Canção de amor que assume como sua a lei agónica da intimidade que liberta — «Poets be free, like swallows» (Hölderlin). Canção de amor, e também por isso de protesto, já que mina não só a distinção entre álbum e documentário, como também derriba as ilusões que fixam como elemento necessário para a criação artística e poética a existência de um acontecimento externo, preferencialmente devastador e catastrófico. Aliás, Cave chega mesmo a afirmar que nenhum trauma contribui para a criação, pelo menos para a sua criação, antes a obstaculiza e estanca.

Esclareça-se, então: o tal conjunto que contém o álbum, o processo de gravação do mesmo e as curtas-metragens, não é nenhum documentário em DVD, mas uma espécie estranha e nova de canção de amor. Assim, torna-se legítimo afirmar que um certo tipo de canções de amor não pode ser considerado uma mera narrativa, ainda que certos momentos a exijam. Um certo tipo de canções de amor — as que traduzem uma tonalidade singular de ansiedade e inquietude íntimas e primitivas — não pode manifestar um relato invariável do que acontece. Existem muitas variações e estas não se revelam imediatamente. São forças e escalas incontidas que, por respeito e talvez medo à palavra, escapam à linearidade fingida, essa mesma que soa a falso e não interessa.

Não soará também a falso o título ambíguo deste peculiar documentário? Isto é: se acreditarmos na apologia reiterada do sentimento, essa não apareceria isenta e logo dispensável ou acidental? Ao contrário, porque o documentário carece intencionalmente disso (aponta Ellis sobre a gravação de uma das músicas do álbum Skeleton Tree, «Girl in Amber»: «I wouldn’t put any more emotion into it»); a apologia do seu título permanece, mas afinal em tom desafiador e sardónico — One More Time With Feeling.

E o riso demoníaco do choque perante o absurdo, uma outra tonalidade deste singular protesto ou, de um outro prisma, essa forma violenta de amar que exige desforra e renegociação, ecoa de forma latente ao longo do documentário. Se assim não fosse, como justificar o episódio partilhado por Cave sobre a gentileza compassiva do olhar das pessoas que, por exemplo, o abordam na fila de uma padaria e lhe dizem que estão com ele nesse momento difícil: «And so you say — What? — But too loudly and angrily [...] And you look around and all the bakery is looking at you with kind eyes and you think the people are really nice. But when did you become an object of pity?» E, um pouco mais adiante, confessa Cave ao ver o seu rosto cavado e magro: «I must remember to be kind back. I must remember to be kind.»

Existem, pois, canções de amor que não alienam e cuja natureza profunda requer esforço e cuidado de escultor, justamente para escapar ao registo diário e medíocre da vida de qualquer. Existem, pois, canções de amor, aquelas que têm justamente um certo tipo de inquietude, que pressagiam certos acontecimentos. Estas canções pertencem a um tipo de reservatório que escapa ao domínio do conhecimento e do saber. E a sua força, por mais trágica, não deixa de ter uma origem desconhecida ou até profética. É assim que, para Nick Cave, «imagination demands an alternate world and through the writing of the Love Song one sits and dines with loss and longing, madness and melancholy, ecstasy, magic and joy with equal measure of respect and gratitude» (Nick Cave, The Complete Lyrics 1978-2013, 2013, pp. 18-19).

Só agora é legítimo aproximar o rosto e dizer tudo: Cave é um desiludido. Lembro-me de Pascoaes quando oiço e leio Cave: «The Love Song is the sound of our endeavours to become God-Like, to rise up and above the earth-bound and the mediocre. I believe the Love Song to be a sad song. It is the noise of sorrow itself.» (Id., Ibid., p. 7)

Se um certo tipo de canção de amor tem o poder insidioso de tornar cativo o ser amado, assumindo-se como um acto de conjurar as coisas perdidas e os mortos (e «Deep Waters» não atinge de forma profética esse pico perverso? E a pintura da penha por Arthur aos cinco anos, essa mesma que o levaria, não tortura a mente supersticiosa e tridimensional de Susie, a bela e magnética mãe dos gémeos?), Nick Cave acerta o alvo ao encarar tal canção como «the light of God, deep down, blasting up trough our wounds» (Id., Ibid.).

Mas Cave não é supersticioso. Em Cave, a superstição volve-se em inspiração e imaginação, manifestando-se num pensamento que possui raízes profundas e inquietas, portanto de clara propensão dissidente e crítica. Daí também a crua lucidez com que fala acerca da natureza e do ritmo de que é feito o mundo. A profunda consciência de que esse acontecimento, entendiante, repetitivo e monótono (Cave di-lo desassombrado e sem medo), permite, ainda assim ou por força de ser assim, momentos de disrupção, de graça e de gravidade: «Extreme boredom and moments of illumination are never far apart, they frequent the same space.»

É, para mim, forçosa uma leitura que incida sobre a complexidade e a ambiguidade, significativamente agónica, do documentário em DVD. Este converge para um fim duplo: evasão inteligente do tópico que interessaria à maioria (a depredação distorcida e aumentada do assunto da morte do filho de Cave); a concentração naquilo que aqui importa tratar (a divulgação de uma mundividência musical forte e idiossincrática).

É nesta linha contraditória que Cave afirma de forma pungente: «It happened to us, but it happened to him [...]. Everything is not ok, but it’s so also ok [...] the record goes on and the work goes on [...] in that aspect things continue.» Daí a noção agónica e contraditória do tempo como um elástico que, permitindo avançar, não deixa de o atirar (a ele, Cave), uma e outra vez, para esse círculo traumático da morte do filho, espaço fechado que não permite escrever ou sequer criar, pois aí só existe o trauma. Neste argumento, justifica Cave a impossibilidade de escrever novas canções para o álbum.

E, reforçando essa mesma leitura, as três curtas-metragens reiteram o tom agónico do documentário em DVD perante a precariedade e a impermanência da existência e o excesso da criação, sempre insuficiente, mas de alta magnitude consciente. A par de One More Time With Feeling, Boredom [6:24], Do you Pray? [1:56] e Snowman [0:58] são um manifesto íntimo de amor e de protesto, formas expressivas da mais robusta e nervosa poesia, entendida como uma revolta, a que realmente importa: a revolta do Filho contra o Pai.

Revolta que prescinde da oração, não porque não acredite na sua operatividade, mas porque a escolha de não rezar implica impor uma vontade, a sua. Vontade de acreditar em tudo e em qualquer coisa. Vontade de acreditar na necessidade de criar e imaginar: «I believe that Africa was created from a drop of milk from a cow’s teat [...] or that the grand creator built the world in six days and slept on the seventh [...] much of this is imaginative, is about wondering.»

Este é um documentário que mostra a revolta de um anjo caído que aposta lucidamente no amor e no protesto quando quase tudo se despenha — e porque Cave não me habituou à evasão da morte (e aqui a do seu filho assume clara ressonância), Snowman, como não poderia deixar de ser, é um poema a cristalizar o amor e a revolta, performance vocal aliada a uma montagem despretensiosa e pictórica de Susan, Nick e Arthur Cave. E assim soa a canção de amor com que termina o segundo CD deste documentário em DVD:

 

In the dark
I measure the space that you left to me

By reaching my arms out to the sides
I hold them out in front
I can feel countless memories
That form like crystals around my fingers
A sparkling crust of love
And I become the snowman
[...]
And I, I’m you
[...]
Even knowing I will never stand before you
And see your laughing face again.

 

Em suma, este é um documentário em forma de canção de amor, que reivindica um aceso desejo de vingança e de protesto face à imprevisibilidade da vida: um acto de desafio permanente aos deuses em que a súplica não tem lugar. Isto mesmo afirma Cave, de maneira ambígua, no verso «And I, I’m you» e ainda no documentário quando contesta, dizendo: «But you know after a while Susie and I decided to be happy, this happiness seems to be an act of revenge, an act of defiance.»

E, cerradas que estão as ilusões, Cave sabe que a vida não tem narrativa possível e a ter não convence: «I don’t wanna just write songs, like a diary of what my life is like. I’m not really interested in that.» E, assim, quem não estremece ao topar o agradecimento no final do documentário: «Thanks to Pure Evil»? E quem não freme ao ouvir Cave dizer «There’s more paradise in hell than what we’ve been told»? De clara tendência desafiadora, estes dois actos exigem e revelam a força de tal protesto, símile a Lúcifer perante Deus.