Paulo Nóbrega Serra

 

Os navios da noite é o último livro do autor João de Melo (se não considerarmos a reedição de Autópsia de um mar de ruínas, reescrita pelo autor e publicada em 2017), e reúne 18 contos inéditos, contos esses que por vezes, dada a sua extensão, mais se aproximam da novela. O autor costuma, aliás, alternar na sua produção escrita a prosa de grande fôlego e livros que reúnem narrativas mais breves mas que partilham da mesma qualidade de uma prosa poética, ao mesmo tempo que procura reflectir sobre certas questões da contemporaneidade.

Esta obra reúne «histórias de dignos vencidos», conforme anuncia a contracapa do livro, homens e mulheres de alguma forma marginalizados ou excluídos. O conto introdutório, «O ponto de vista do vencido», narra a história de um preso político durante o regime salazarista e como acabará por confessar segredos reais e inventados apenas para se salvar, o que lhe vale uma vida de ostracização a partir desse momento. «Os pecados do mundo», o conto seguinte, centra-se no padre Filomeno que, ao ver-se transferido das paróquias rurais para a cidade, acaba por enlouquecer, incapaz de aceitar a corrupção, as traições e as mentiras de que tem conhecimento no confessionário. O terceiro conto, e um dos mais bem conseguidos, narra «O regresso de José Maria» e como o autor Eça de Queirós encontra o seu alter ego João da Ega, que o conduzirá por uma Lisboa contemporânea onde o nosso «Portugalório» parece ter mudado muito pouco: «para que ele visse o que a gente continuava a aturar e a sofrer na choldra de um país aziago, ainda atado de pés e mãos ao tempo da sua ficção» (p. 81). O conto que se segue e que se demarca dos demais, tendo aliás sido incluído na publicação Best European Fiction 2016 (editada por Nathaniel Davis), é «Estranhos, magníficos poderes», que se aproxima mais da intenção crítica do autor em denunciar um país em crise económica e social. Este tom de denúncia, especificamente em relação à instabilidade política portuguesa dos últimos anos, tornar-se-á mais forte em «A prisão dos espíritos», o penúltimo conto do livro.

Como se preconizava já na epígrafe de Álvaro de Campos, «Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite», o motivo do navio surge em praticamente todos os contos, por vezes descrito como corpo, assim como a noite, representando a vida. O navio surge assim em certos contos como metáfora do ser humano e a noite como metáfora da vida, como se as personagens, símbolos humanos, vogassem nesta travessia da vida em direcção à luz, como na passagem: «O meu espírito é como um navio iluminado a romper a noite sobre as águas negras do mar.» (p. 273) A luz pode representar, apesar do tom de desencanto, de uma certa melancolia narrativa, e de um criticismo por vezes bastante cru, que não deixam de estar presentes nestas histórias, um horizonte de esperança e um destino. Note-se como, em «Estranhos, magníficos poderes», a personagem de um «pobre de mim, viúvo e reformado» (p. 103) não deixa de sentir que aquele dia em que um acto de caridade evolui de forma descontrolada ao ponto de dar por si a operar milagres, foi sobretudo um «único dia de glória e de alegria que nunca mais voltou a cumprir-se» (p. 107). E talvez tenha sido pelo melhor, pois dessa forma este homem «passara num instante à situação de suspeito e de agitador social», uma vez que «pusera nas mãos imponderáveis do povo não a ordem, nem a religião, nem a moral pública, nem as leis do governo, nem o dogma político do Estado, mas sim a ideia da justiça entre os humanos. Nada havia de mais explosivo no coração popular do que o sonho de um novo ideal para o futuro» (p. 106).

Em «A ideia do meu pai», bem como no conto precedente, «A minha mãe e eu», o autor explora outro tema que ultimamente tem estado mais presente na sua escrita (como em Lugar caído no crepúsculo, publicado em 2014, onde se desconstroem e recriam os imaginários pós-vida): a morte. Mas, aqui, o pai é também símbolo de uma terra patriarcal e de um país em vias de extinção, ou pelo menos daquilo que define a sua identidade face a um mosaico intercontinental de nações: «Regresso, e são outra vez brancas as velhas casas caiadas de fresco, as mesmas de outrora (...). Mas agora entram e saem pessoas que vestem de luto, gente escura como a noite da aldeia.» (p. 155) O pai é, aliás, descrito como o «relógio solar onde as coisas estavam certas e o tempo existia. Nunca amei ninguém como a este velho agricultor, herói e mártir das causas portuguesas.» (p. 158) A agricultura, tal como o pai que se encontra à beira da morte depois de ter tido uma trombose que lhe deformou o rosto, pertence a um passado irrecuperável. Este é um conto onde a melancolia se institui como acorde de uma paisagem de um país que se perdeu: «Esta não é a agricultura do meu pai, nem esta a casa da minha mãe, nem esta a vida deles, nem este o país de todos nós. (...) Não há forma nem forças nem idade nem caminhos para regressar ao que se perdeu de nós, a nada daquilo de que nos perdemos em Portugal.» (p. 159) A morte deste pai representa assim a ideia de um Portugal no seu ocaso face ao despontar de um outro horizonte — que tem tanto de mito como de mentira — para as terras portuguesas:

 

Sento-me na terra. Fico uns instantes a ver a estagnação e a decrepitude e a desordem da paisagem. Portugal inteiro à minha frente. Começaram a nascer os filhos da Europa. E estão a morrer os velhos portugueses – os crentes e os incrédulos. Se aos filhos não pudermos falar da vida e da terra, que iremos ensinar aos filhos da Europa, que não seja uma qualquer teoria, a arte e a manha, a artimanha de nos considerarmos fingidamente europeus? (p. 161)

 

A Europa surge novamente no conto seguinte, «Navio de cruzeiro ao sul», o mais extenso, sendo o motivo do navio agora configurado enquanto personagem. O paquete germânico Kaiser surge como metáfora de uma Europa à deriva de um lugar utópico (como em A Jangada de Pedra, de Saramago, quando a Península Ibérica se aparta da Europa e começa a vogar em direcção ao Sul). Contudo, aqui, esse lugar utópico não é propriamente atópico, pois o destino do cruzeiro é o arquipélago das Caraíbas (curiosamente também na direcção do sul do Atlântico). A ilha da Madeira é, aliás, o último porto em que o cruzeiro pára antes de partir rumo a mar alto, momento em que tudo começa a correr mal. Note-se como, no final do conto, quando a «imprensa europeia, as rádios e as televisões» (p. 225) tentam apresentar as suas reportagens sobre o assunto, os passageiros temem falar e o episódio será esquecido dada a falta de «provas visuais»:

 

Uma espécie de pudor contra a indignidade e os novos ultrajes do mundo impunha-lhes um sentimento de reserva e desolação perante um continente carregado de séculos, raças, línguas, religiões, culturas, ideias, ideologias e guerras divisórias; um velho e sábio continente que se permitia naufragar na sua própria realidade continental e nela comprometer galeões, corvetas, barcos, navios de cruzeiro com fogo a bordo. (p. 226)

 

O Kaiser, e note-se a ironia do nome e da nacionalidade germânica, surge assim como parábola de uma Europa que parece em vias de soçobrar. O autor não aborda apenas a crise política ou a recessão económica de um Portugal mais recente, mas toda uma noção de Europa em desintegração.

A parábola ou alegoria sente-se ainda noutros contos, como «O cego da ilha», em que um cego do Faial, depois de lhe ser concedida a visão, opta por regressar ao seu estado primitivo, pois o dom de ver parece trazer também a capacidade de reconhecer a solidão e o desamparo em que vive. Podemos ler, no final desta breve narrativa: «O pior de todos os cegos será sempre aquele que, podendo olhar a luz e a beleza encantada do dia, só quer ver a noite do mundo, o fundo escuro das águas, os abismos invisíveis do mar.» (p. 243) Todos os contos, aliás, possuem uma conclusão moralizante que dá a entender ao leitor o cerne da narrativa.

Esta compilação de contos versa temas que não são estranhos ao autor, como a denúncia do abuso do poder; a questão da partida, aqui retratada na emigração de uma professora que não reconhece o país e o sistema educativo que deixou para trás quinze anos antes; a guerra colonial; a doença, sendo o cancro uma das mais recorrentes, organismo vivo e letal que consome e corrói a partir de dentro; e a própria vida como «a única doença de que ninguém conhece possibilidade de cura» (p. 331).

Apesar da verosimilhança inerente a todos estes contos, o autor parece levar-nos novamente — como aconteceu com o realismo mágico ou etno-fantástico de O meu mundo não é deste reino (1983; com uma 8.ª reedição reescrita pelo autor em 2015), ou como no seu anterior romance, Lugar caído no crepúsculo, nos levou ao Paraíso, ao Inferno e ao Purgatório — a um espaço para lá da ficção plausível, indiciando que aquilo que lemos pode afinal não ser mais que um sonho ou estar cingido a esse não-lugar atópico da ficção, como no conto «O regresso de José Maria». Por vezes, resta apenas uma ideia de ambiguidade, como em «Estranhos, magníficos poderes», onde se insinua na última linha que tudo o que foi descrito como tendo sucedido anteriormente não ocorreu senão «nos pensamentos, na imaginação do bem, nos meus modestos e inocentes sonhos de poeta» (p. 107). Ressalve-se ainda a propósito do fantástico que se imiscui na prosa deste autor a desconstrução temporal que ocorre em «Os pecados do mundo», onde a loucura do padre Filomeno parece contagiar o mundo em redor e tornar o tempo regressivo. Até que, no último conto, «Pão com laranjas», Aladino deixa de ser apenas «o rapaz daquela história do génio e da sua lâmpada mágica» (p. 327) para passar a ser o anfitrião do narrador desta história, a quem foi concedida a possibilidade de pedir três desejos, mas com a ressalva de que todos eles podem conter um certo travo a amargo, isto é, efeitos secundários indesejáveis. Desta forma, o narrador acaba por, depois de muito reflectir, preterir essa oferta que se pode converter em maldição e opta por se agarrar aos pequenos prazeres que tem como certos na vida:

 

Sendo assim, vim para casa comer pão com laranjas e sentar-me sozinho no meu canto do costume, finalmente aliviado deste sonho e do seu pesadelo, feliz com a resolução do problema que tanto me afligia. Pus-me a escrever esta história para quem a quisesse ler ou ouvir, e ir depois contá-la a outros sonhadores. (...) O meu coração reparte-a por quantos carregam consigo anseios e desejos de redenção da pequena vida – a única doença de que ninguém conhece possibilidade de cura. (p. 331)

 

A voz autoral, ainda que assumida por diferentes vozes narrativas, nunca deixa dúvidas em relação à sua identidade, dados os temas, as imagens e a prosa poética de João de Melo, estando presente nomeadamente nestes remates em jeito de conclusão ou de lição de moral, que contribuem para atenuar a desmoralização que muitas vezes perpassa estes contos que se afiguram como exemplificativos. O autor parece optar por falar directamente com o leitor dentro do já referido espírito de denúncia social. Note-se, como exemplo, esta passagem do final do conto «A doença», onde um hipocondríaco não é levado a sério pelo médico, e que poderíamos ler como um protesto por parte de um cidadão cujo governo não o leva a sério: «A minha parte está feita neste livro de reclamações, onde lavrei o protesto da minha consciência cívica. Para que haja quem ponha um pouco de ordem e de agilidade em tudo isto. Ninguém diga de mim que não sou um soldado da pátria e da justiça (...)» (p. 303).

A distinta prosa poética do autor deixa-nos imagens bem vivas, próximas de um barroquismo da linguagem como o de certos escritores latino-americanos, mesmo quando incorre num registo próximo do grotesco: «Aventuro-me a adivinhar-lhes a idade: (...) mulheres que foram belas na juventude (...). Agora não passam de velhas ruças e desdentadas, com maxilas de ratas, ossudas, corpos chupados e ressequidos. Algumas disputarão a idade dos muros, das figueiras bravas, dos caminhos e sendeiros que desbravaram os campos e os séculos.» (p. 162) Esta é também uma voz que se assume colectiva, pois afinal nós, como povo português, estamos (quase) todos no mesmo barco, e procura traçar o abandono e a derrota que se viveu nos últimos anos de recessão e crise (veja-se a sátira política do penúltimo conto, «A prisão dos políticos»). Acima do sentimento de perda e derrota há uma nota de ternura, nomeadamente nos contos em torno da figura do pai e da mãe, que consegue perdurar sobre este «ponto de vista do vencido» que atravessa todos os contos, recontando a História a partir das suas margens e silêncios.