Marana Borges

 

Todorov (Sófia, 1939 – Paris, 2017) foi um homem que acreditou em outros homens. Um esperançoso, diriam alguns. Ou um humanista. Talvez por isso tenha aos poucos migrado da Literatura — campo em que se consagrou ao traduzir os principais textos do formalismo russo do início do século XX — para a Antropologia, a História das Ideias e a Política: parecia fazer um acerto de contas com sua juventude na Bulgária comunista, dispondo-se a criticar os totalitarismos e a examinar outras formas de conviver em sociedade. Sua aposta pela busca da justiça, em última instância, encurralaria os Estudos Literários em uma dimensão moralmente edificante.

A primeira versão de seu ensaio Les abus de la mémoire (Os abusos da memória) foi apresentada em 1992 durante um congresso sobre o genocídio nazista, organizado pela Fundação Auschwitz, em Bruxelas. Para um público que então defendia ferrenhamente o Holocausto como o mais radical trauma da história da humanidade — versão ainda consensual —, deve ter sido incômodo ouvir Todorov criticar tal posição como sendo a salvaguarda de um privilégio indefensável. Afinal, reservar um lugar especial e absoluto a tal evento obscureceria outros e conferiria um estatuto também especial e exclusivo a suas vítimas. Aqui reside a primeira petulância do búlgaro que emigrou para França nos anos 1960 e sempre lamentou a pouca indignação despertada pelos campos de concentração soviéticos. Ela já vale o ensaio.

A segunda petulância é questionar a necessidade de processos jurídicos e reparação material às vítimas de regimes totalitários e injustiças sociais. Isso seria, de acordo com Todorov, chancelar um lugar de conforto à vítima, o que desestimularia o engajamento dela no combate a injustiças causadas a outrem. Acima de tudo, a vítima deve ter responsabilidades em relação ao presente. Todorov não perdoa estatutos especiais garantidos pelos traumas do passado: «ter sido vítima lhe confere o direito de se queixar, protestar, reclamar (...) a atenção e, portanto, o reconhecimento dos outros lhe é assegurado» (p. 55). Às vezes, ele diz, «é preciso colocar o passado entre parênteses» (p. 26), citando o discurso de palestinos e israelenses em diálogo em Bruxelas em 1988. Neste caso, quanto mais as partes se reafirmam na posição exclusiva e inegociável de vítimas, mais difícil é encontrar formas de diálogo e superação dos conflitos.

A memória abusiva, ou o culto da memória, seria um fenômeno bastante localizado no século XX, na esteira dos grandes regimes totalitários (e, quase hegemonicamente, no discurso sobre o Holocausto). Após a queda de tais regimes, o bordão passou a ser: lembrar para não repetir, e lembrar a qualquer custo. Todorov critica a última sentença, mas apega-se demais à primeira.

A crítica ao culto da memória baseia-se numa ideia de base de Todorov, a dizer, sua aposta quanto ao bom uso que a memória pode (e deve) ter. É aqui onde reside sua visão mais humanista, mas também a maior fragilidade de seus argumentos. Ele divide a memória em dois tipos, melhor entendidos se aplicados a eventos extremos e traumáticos. O primeiro é a memória literal: aqui, o evento é rememorado em seu caráter de «fato intransitivo», isto é, que «não conduz para além de si mesmo» (p. 29): traz uma versão estática e sobretudo rancorosa do evento, incapaz de se modificar com o passar do tempo; esse rancor (noção oportuna, embora não utilizada por Todorov), torna tal memória mais propensa a vinganças e violência.

No outro polo estaria o ideal de Todorov: a memória exemplar. Ela se abre à analogia e à generalização. É ao superar um trauma, ou seja, ao desapegar-me da dor de modo a que o evento nem seja esquecido nem ocupe um lugar de proeminência que me impeça de seguir a vida, que me torno capaz de tirar uma lição da experiência passada, torná-la exemplo e princípio de ação. Liberto-me, empatizo com os outros e abro caminho à justiça, que consistiria exatamente na capacidade de comparar e generalizar ofensas particulares. Em outras palavras, não se toma a dor de Maria ao pé da letra nem se pensa ser a pior dor do mundo; antes, a dor de Maria é resultado de uma ofensa semelhante àquela sofrida por outras Marias, que devem ser igualmente amparadas por uma lei impessoal.

A ideia mesma de uma memória literal é inaceitável: toda a memória é um processo seletivo e interpretativo e, portanto, necessariamente excede o fato. A verdadeira disputa dá-se entre as interpretações possíveis. Outra dificuldade do pensamento de Todorov é a divisão bipolar da memória: uma perigosa, outra libertadora; uma refém do passado, outra a serviço do presente; uma má, outra boa: trata-se de uma classificação rígida e essencialista em meio a um discurso que incentiva as vantagens da comparação.

Segundo o ensaísta, o critério para distinguir o bom uso do mau uso da memória é empírico: pelos resultados. Mas se esquece que tais resultados apenas podem ser historicamente avaliados, ou seja, também são dependentes dos interesses e da posição das partes. Escolher a paz à guerra seria preferível, por exemplo, para a metrópole francesa, mas pode não o ter sido para a Algéria colonizada.

Todorov denuncia o culto estéril de certas memórias que nada faz em relação ao presente senão garantir uma posição privilegiada e heróica das vítimas de eventos passados. Afinal, «não há qualquer mérito em se colocar do lado bom da barricada depois de o consenso social estabelecer firmamente onde está o bem ou o mal» (p. 42). Após a guerra, postar-se em defesa das camadas dizimadas pelo nazismo não é grande coisa. Para Todorov, o mérito incontestável está em saber o que fazer com o presente. É uma preocupação legítima e corajosa. Porém, o que ele tem a nos propor não parece ser prontamente adquirível: uma memória pedagógica, corretiva e redentora, para a qual receitas não existem.

Ao engajar tanto o historiador quanto as vítimas do passado como militantes do presente, Todorov faz uma aposta alta demais. O erro está em crer que a justiça é uma consequência inevitável do fato de que pessoas passaram por certas experiências e foram capazes de compará-las a outras. Espera-se que o resultado da comparação seja correto, e se esquece que o correto não é um superlativo. Nada nos garante que aprenderemos com aquilo que vivemos, nem que aprenderemos as mesmas coisas, nem que essas coisas serão justas, aplicáveis aos outros e capazes de antecipar e corrigir os erros do futuro.