Maria de Almeida Alves

 

Em 1985, estreia Brazil, filme que conta com três argumentistas: Terry Gilliam — que o realiza —, Charles McKeown e Tom Stoppard. Recentemente reposto em dois cinemas lisboetas, é apresentado enquanto Brasil: O outro lado do sonho. Inusitadamente, dadas as traduções imaginativas a que nos vimos habituando nas salas de cinema portuguesas, o nome assenta-lhe. Submergimos num mundo desarrazoado, constantemente ameaçado por bombas ditas terroristas, no qual um regime totalitário se impõe através de uma máquina burocrática computorizada. Tendo presente a década em que o filme foi realizado, percebe-se que as máquinas de escrever façam parte do elenco, e, como tal, estejam lá quando uma barata esvoaça pela sala e é espalmada no tecto por um dos burocratas, caindo numa das máquinas e esborratando um nome que, de «Tuttle», passa a «Buttle», cumprindo a devida vénia a Kafka. Segundos depois, homens armados entram em casa de Buttle, na véspera de Natal, e ensacam-no, pela cabeça até aos pés, gritando com a sua mulher para que esta assine uns papéis que se revelarão ser um recibo pelo homem levado. Neste mundo, nada se faz sem o papel certo e, deixando de lado o ponto mais óbvio da desumanização perpetrada pela burocracia, em cinco segundos é-nos visualmente descrito como, em qualquer mundo, a confissão é irrelevante como método para a «descoberta da verdade», tão comum histórica quanto hodiernamente: a mulher que treme, geme e chora, sem perceber para onde levam o seu homem-saco, assina o papel.

Inquietos com o destino de Buttle, o filme prossegue e força-nos às alturas, aos sonhos por entre nuvens, preenchidos por duas constantes: uma mulher loura, indefesa e expectante, e um homem — Sam, o sonhador — que enverga uma armadura com asas e voa à procura dela, ao som da sua voz. Sam acorda e veste o papel: burocrata, filho de uma mãe em busca do elixir da juventude, ao jeito da maioria das mulheres do filme, de um pai morto que foi um dos mentores do regime no qual vivem, sem ambições, num limbo entre ter de estar acordado e querer estar a sonhar. Só um acaso, a materialização da mulher dos sonhos , o irá arrancar do atordoamento em que vive, fazendo com que aceite ir trabalhar para o Ministério da Informação para ter acesso ao paradeiro da vislumbrada mulher-fantasma.

Entretanto, Sam conhece Tuttle, um fora-do-sistema que sobrevive graças ao erro — à barata esborrachada. Ao se aperceber de que tem a personificação do erro, que tanto alarido está a causar, diante de si, Sam não resiste a alertá-lo e, possivelmente, assim, a salvá-lo. Tuttle agradece e a partir desse momento sentimo-lo, nós e Sam, qual guardião protector.

A canção que acompanha o desenrolar do enredo é a homónima «Brazil», interpretada por Frank Sinatra, um canto dedicado à lembrança e à possibilidade de regresso: «There's one thing that I'm certain of / Return I will to old Brazil» onde «We stood beneath an amber moon / And softly murmured someday soon».

Oprimidos num espaço onde a burocracia se une à violência, onde os computadores ditam a tortura entre homens, acompanhados por explosões de bombas que já não são vistas, no limite somente sentidas, pairando a dúvida sobre a origem das mesmas, em que às tantas surge a pergunte «How many terrorists do you know?», é de forma sôfrega que se ouve Sam declarar-se à mulher-visão. Sam vê-a à entrada do Ministério da Informação, a mulher que tem calcorreado a cidade a tentar encontrar o seu vizinho Buttle, a mulher que apenas neste ponto — na crença de que o encontrará — se assemelha à figura ingénua e doce que Sam vê em sonhos. Sam já trabalha no Ministério, sabe que ela corre perigo, a ordem é a de eliminar todos os fios soltos do tema «Buttle-Tuttle». Sam finge que a prende enquanto a empurra para fora do Ministério. A mulher, furiosa por lhe estarem a tocar, corre para o seu camião, acelera, mas não o suficiente para impedir Sam de saltar lá para dentro. Enquanto o enxota do camião em andamento, consegue pontapeá-lo até o expulsar do interior do veículo. A cena termina com a mulher lívida, crendo que o atropelou, apenas para o reencontrar colado à parte da frente do camião, braços e pernas presos, expectante. Daí seguirão caminho juntos, ele achará que ela é terrorista, enganar-se-á, transformá-los-á a ambos em terroristas para, por fim, tentar salvá-la do sistema, entrando na central de informação e apagando-a do mesmo. Tudo em vão.

Sam não tem hipótese de acabar com o regime; nunca se enquadra, vive em sonhos, arrisca tudo, pois crê que o sonho se pode concretizar mas sempre de forma impulsiva, numa espécie de frenesim de desgraça. O filme caracteriza-se por, a propósito da fixação de um homem por uma mulher — entretanto correspondida —, ir expondo este sistema: acumula-se informação sobre tudo, explora-se essa informação e barrica-se a informação com a sua distribuição por departamentos e secções tornando-a inquestionável, praticamente ininteligível, até que um erro e a obsessão de um homem por uma mulher-sonho a colocam em causa. Sam vive a destruição do sistema, colabora para salvar o seu sonho e depois para vingá-lo, lado a lado com o erro — Tuttle.

A tristeza surge à saída da sala, pois no fim é-nos revelado que a destruição a que assistimos apenas ocorre na mente torturada de Sam, na mente corrompida pelo sistema («We have lost him», diz o torturador ao ditador), na mente que jamais sairá de Brazil. «O outro lado do sonho» pode ser pensado de múltiplas formas; porém, no final, o outro lado do sonho revela-se para Sam tão só e ainda sonho. Deixemos para Tuttle a descoberta de algo para lá do sonho.