Tiago Clariano

 

Lorde é a heroína pop da imperfeição: as suas canções não expressam o desejo de poder viver melhor, mas o de aproveitar o momento que se vive. Para ela, e de uma perspectiva estética, a imperfeição tem muito mais para oferecer do que qualquer concretização perfeita dos seus planos.

Esta artista surge no contexto da música pop no final de 2012, quando a conhecemos através de «Royals», uma canção que parodia o estilo de vida dos adolescentes ricos. Em 2013, lança o seu primeiro álbum, Pure Heroine, cujo título constitui uma double entendre entre a mais viciosa das drogas e a imagem de uma heroína que chega para salvar alguma coisa que precisa de ser salva. Este movimento de dupla direcção semântica é um truque recorrente nas suas letras.

Nos seus álbuns, a relação entre a letra e o instrumental caracteriza-se pelo contraste entre as faculdades de proporcionar euforia ou tristeza destes meios. O instrumental é minimalista, composto de beats repetidos que são justapostos a ondas de som sintetizado e complementado pela força da sua poesia.

O seu mais recente álbum, Melodrama, tem por título a designação de uma peça teatral que descreve ou expõe acontecimentos violentos acompanhados de música. Não é por acaso que a primeira metade semântica da palavra aponta para «melodia», enquanto a segunda se reporta a peças de teatro que misturam elementos da comédia e da tragédia; desta forma, fica assumida desde logo a qualidade teatral do álbum. Um melodrama é, portanto, a exposição exagerada de uma acção, acompanhada por um fundo instrumental.

Em entrevistas, Lorde explica que o cenário deste melodrama é uma festa em casa de amigos. Na primeira canção, «Green Light», a cantora encontra-se no trânsito, a caminho da referida festa. As luzes verdes apontam para uma esperança, a espera e a concretização de uma possibilidade, para a qual não há melhor associação do que uma pessoa parada no trânsito à espera que o sinal verde se ilumine. Depressa se indicia o tema do álbum: a adolescência, as proibições e a espera obstinada pelas cedências, tudo isto reunido num semáforo, enquanto se espera o sinal verde para poder avançar:

 

I’m waiting for it, the green light, I want it!

 

«Sober» é a chegada à festa em casa dos amigos. É marcante o primeiro momento em que há uma troca de olhares com um ex-amante, cuja função sentimental é a de não lhe permitir o progresso desejado na metáfora da luz verde almejada na primeira canção. Esta olhar penetrante é desconfortável e faz o casal sentir-se retido na sobriedade dos dilemas que têm por resolver e que dificultam o divertimento numa festa:

 

I know you’re feeling it too
Can we keep up the ruse?

 

A sobriedade activada é uma falsa sensação, causada pela dificuldade em lidar com alguém com quem já não se pode lidar como antes: apesar da nostalgia momentânea, eles já não têm uma relação amorosa. O sentimento encenado é a tentativa de interagir com o seu prévio interesse amoroso sem demonstrar rancor pelas mágoas do final da relação. Isto acaba por se constituir como uma «ruse»: o facto de já não confiarem um no outro não permite que esta interacção seja autêntica.

«The Louvre» é uma canção que sai da cave onde se dá esta festa de amigos e se projecta para o Museu do Louvre, com a velocidade e a imprudência de uma ébria paixoneta de Verão, que já imagina o seu futuro:

 

They’ll hang us in the Louvre
Down the back, but who cares — still the Louvre

 

A imprudência dos desejos de «The Louvre» confirma-se no desgosto expresso em «Liability»; a noite corria tão depressa que o interesse amoroso rapidamente se mostrou desinteressado e a deixou sozinha:

 

Baby really hurt me,
Crying in the taxi
He don’t wanna know me
Says he made the big mistake of dancing into my storm
Says it was poison

 

Mas o desinteresse é explicado pelo excesso de responsabilidade que é lidar com uma pessoa como Lorde. Parece que, por ser famosa, a cantora se sente um fardo demasiado pesado para qualquer um, o que a desaponta:

 

The truth is I am a toy that people enjoy
‘till all of the tricks don’t work anymore

 

«Liability» é a concretização perfeita do melodrama proposto e é o ponto alto da escrita deste álbum. É o momento em que Lorde assume todo o seu desespero acumulado em falhanços relacionais e se martiriza pelos mesmos. Um movimento comum na adolescência é pensar que cada instante menos aprazível é irremediável e derradeiro, o que é óbvio no desespero lírico desta canção. Escrita como muitos adolescentes se desejariam saber expressar, esta canção é um autêntico e profundo melodrama. Mas não é sem ironia que o escreve a artista de vinte anos, acabada de sair da adolescência, com uma maturidade recentemente garantida pela saída dos –teens e, portanto, da adolescência.

«Hard Feelings/Loveless» retoma um som familiar de Lorde: o estalar de dedos que pontua os compassos de «Royals», do mesmo modo que retoma assuntos musicados anteriormente no álbum. Esta canção é um duplex musical, como a barra no título indica, separando duas partes que diferem em tempo, técnica de escrita e inclusive de maturidade expressa na colocação da voz, cantando num tom jocoso e infantil as seguintes frases:

 

Bet you wanna rip my heart out
Bet you wanna skip my calls now
Well guess what? I like that
‘Cause I’m gonna mess your life up
Gonna wanna tape my mouth shut
Look out, lovers
We’re L-O-V-E-L-E-S-S generation

 

Agora que está só, Lorde diz que se dedica a si própria como antes se preocupava e se esforçava pelo seu amante. O que começa por ser um hino sobre aguentar as dores das relações que tiveram de terminar, acaba por se tornar na expressão orgulhosa de fazer parte de uma «loveless generation». «Generation» refere a adolescência e aquilo que interliga as pessoas desta faixa etária: os lugares-comuns fantasiados de casais perfeitos, glamorizados pelo cinema de Hollywood. O que resulta desta romantização do cinema são noções e formas de acção a respeito do que é «amor», comuns e pouco premeditadas. A geração melodramática de adolescentes começa por imprudentemente admitir ter largado as ligações afectuosas que os prendem às relações amorosas anteriores, para passar a nutrir sentimentos de vingança. Mas é de um modo irónico que a sequela do amor é vista como a vingança nesta canção.

É claro que a heroína se iliba na faixa seguinte. Fala-se agora em retrospectiva, no fim da festa, enquanto se limpam os copos de champanhe e se arrumam os sofás. «Sober II (Melodrama)» retoma a segunda canção, «Sober», e é o primeiro momento em que se toma a expressão titular do álbum, tornando-a explícita:

 

And the terror and the horror
God, I wonder why we bother
All the glamour and the trauma and the fuckin'
Melodrama

 

O «terror», o «horror», o «glamour» e o «trauma» são a revisão da festa que nos foi narrada. A adolescência alegorizada por esta festa não foi composta de momentos a que possam ser atribuídas estas descrições. Durante esse período, há tendência para passar uma lupa melodramática sobre eventos, de modo a poder descrevê-los de um modo sobredeterminado.

Os acontecimentos «violentos» e «traumáticos» até agora descritos são atenuados pela sua musicalização. Não é na camada instrumental que encontramos trauma ou melodrama, mas sim na poesia que permite violências como a dinamite referida na canção «Homemade Dynamite» e a vingança sugerida pela «loveless generation». É difícil atribuir sentido ao instrumental de produção minimal deste álbum, pois a música oferece experiências que não expressa directamente. Termos que expressam violência são sobrepostos a um violino, um piano e uma batida extremamente calmos, originando um contraste. Só com o acrescento do texto é permitida a encenação de uma festa, determinando uma forma mais reconhecível às ondas sonoras destes instrumentais.

Enquanto escritora de melodramas, Lorde é capaz de nos oferecer uma realidade atraente, prolongada e intensificada pela parte instrumental, sendo simultaneamente inócua. Esta realidade é sensível unicamente enquanto Melodrama, proposto pelo título do álbum e sucessivamente concretizado pelos excessos descritivos da poesia de cada canção:

 

We told you this was melodrama
You wanted something that we offered

 

«Writer in the Dark» parece ecoar o título Laughter in the Dark de Vladimir Nabokov e versa igualmente sobre sedução artística: se Nabokov descrevia as características arrebatadoras do cinema (a camera obscura), Lorde reconhece-se como a sereia que escreve, toca, canta, hipnotiza e prende o seu interesse amoroso de modo a poder viver sem ele:

 

I’ll love you ’til you call the cops on me
But in our darkest hours, I stumbled on a secret power
I’ll find a way to be without you, babe

 

Esta «Writer in the Dark» escreve melodramas sobre o que sentiu e através deles faz sentir algo melhor do que o desgosto amoroso de uma noite de festa. Não falamos de uma artista que pratique e glamorize uma vida de heartbreaker para poder escrever sobre os seus desgostos. Trata-se, por outro lado, de fazer uso de um movimento muito recorrente em poesia: tentar resgatar o carácter único de um determinado momento passado e tentar transmiti-lo a outros. A melodia é o melhor meio para o conseguir.

«Supercut», a canção seguinte, é o momento Antero Quental, se me é permitido. Reconhece-se que a concretização dos nossos projectos tende a desviar-se da idealização e tendemos a magnificar cada ínfimo detalhe que os torna diferentes num melodrama:

 

‘Cause in my head, in my head, I do everything right,

 

do mesmo modo que, enquanto escritora de melodramas, estes são melhores ou mais intensos do que a própria vivência da realidade, porque não se vão desviar da sua idealização. Postos em retrospectiva, os seus relacionamentos formam a película de um filme que apresenta apenas os momentos bons.

O fechar das cortinas deste álbum tem duas partes: «Liability (Reprise)» e «Perfect Places». A reprise, como o nome indica, retoma frases e melodias da primeira «Liability». Continua a reconhecer-se o falhanço da realidade para com a idealização. A própria cantora já não se vê como o fardo ou a responsabilidade com que se designou anteriormente e, no fundo, ninguém é como pensa ou diz que é. Somos incapazes de conceptualizar seres humanos agentes por terem uma variedade de motivações.

 

But you’re not who you thought you were
(Liability)
But you’re not who you thought you were
(Much for me)

 

Esta é uma resposta à primeira versão desta canção, onde cantava sobre ser uma «liability», mas, depois de a festa terminar, e em retrospectiva, reconhece-se que não se é o que se pensa ser. A canção é o melodrama do desvio padrão da disciplina da estatística, ou o reconhecimento de que cada pessoa é uma «dissonância incarnada», como Nietzsche o punha: um desvio do que é fazer parte do grupo de indivíduos a que chamamos humanidade.

Termina o álbum com «Perfect Places», que para alguns literatos pode invocar Les Paradis Artificiels, de Charles Baudelaire, por via dos versos que referem que se «toma alguma coisa»:

 

All of the things we’re taking
‘cause we are young and we’re ashamed
Send us to perfect places
All of our heroes fading
Now I can't stand to be alone
Let's go to perfect places

 

Prima facie invoca-se o universo dos estupefacientes que criam ilusões de perfeição na vida (unicamente ilusões), mas não é esse aqui o caso. A canção critica a forma como a sociedade ou o sistema delineiam e prescrevem vias aos jovens: «se seguires esta via, chegarás a perfect places». Em contraponto está o desvanecer dos heróis, como David Bowie (que tem uma canção com o título «Heroes» e que morreu em 2016), que poucas vezes seguiram essas vias prescritas ou aceites por convenção. Finda gloriosamente:

 

What the fuck are perfect places, anyway?

 

Sejam o que forem esses «perfect places», não são sítios onde Lorde queira estar. Para ela, os modelos de perfeição servem de pouco porque, quando são aplicados à realidade, põem em evidência os seus desvios. É por conseguir distanciar-se do espectro dos teenagers que Lorde tem a capacidade de reapreciar aquilo por que acabou de passar e que tanto dramatizou. Lorde pode agora dizer-se uma jovem adulta capaz de reavaliar tudo o que considerou melodramático e tornar as suas experiências motivo de diversão, reflexão e iluminação, numa celebração daquilo que a vida tem de mais visceral e autêntico: desviarmo-nos da perfeição.