Miguel Zenha

 

Os cerca de doze textos deste livro de Dinis Machado formam um objecto heterodoxo e dinâmico. Relevam, por exemplo, a importância que A Queda, de Albert Camus, continua a ter para si, em «As quedas», passando também pelo tipo de diálogo frenético que remete para o universo protagonizado pelo «rapaz» de O que diz Molero, em «Os rapazes dos livros, das fitas e da bola». Na badana da edição original — a última reedição, pela Quetzal Editores, é de 2009 e inclui Discurso de Alfredo Marceneiro a Gabriel García Márquez — estão algumas coordenadas de leitura que o próprio Dinis Machado propõe e que convocam as ideias de «aparelhagem de ensaio literário», de «acção cronológica desencaixada» e acima de tudo «subentendida», a par da «diferença de velocidades: a visão, o tratamento, o tempo e o espaço que lhe correspondem» e nos quais se interligam aqueles «filtros de memória, laços, às vezes fios»; isso em contacto privilegiado com uma «área autobiográfica, esclarecida em funções narrativas que parecem afastar-se, mas que dela revelam». Livro cuja originalidade reclama novas leituras, dentre o seu conjunto destacarei os textos que me parecem mostrar com maior visibilidade o «fundo-forma», ou fio de horizonte, nele contido e que passa, como veremos, por uma aproximação singular ao mundo nas suas mais variadas manifestações.

Em «Abertura com a mais velha estação de comboios do mundo», encontram-se espelhados tópicos fundamentais a que o livro vai regressando, como sejam a infância, a família — o irmão, a mulher, a filha — e, especialmente, a memória, sendo que o conceito operativo é o de «pausa». Com efeito, «só e decidido a apresentar, na travessia dos anos, as poucas artes fundamentais do meu papel em palcos do embaraço, do desembaraço, do alvoroço e do medo» (p. 11), assistimos ao apelo das «pausas»,

 

Nos últimos tempos, a minha relação com os outros (e com o mundo) é alterada amiúde pelas pausas em que me coloco – blocos de navegação onde, à deriva, a solidão trabalha. Pontos de apoio, ou de resguardo, quilhas do barco onde vou – podem ser objectos, lugares, um livro, uma conversa, a carta da minha filha que estremece nas minhas mãos, quando chega, ou um terraço de localização indefinida, onde gira eternamente a roda de uma velha bicicleta à luz das estrelas. (p. 12)

 

Assim, no percurso ficará o que foi resistindo, recolhido pela memória através de aberturas escavadas no interior do quotidiano, i.e., a pausa que «permite deslocação para um espaço avaliado de pequenas atenções» em que «pressinto a dimensão de tudo o que há em mim – e para além» (p. 14). Ao teor dessa introspecção não corresponderá a busca por uma interioridade hermética e inapelável, mas antes aquelas aberturas que se vão sucedendo e que, se nascem  dentro, dirigem-se sempre para fora, para o meio e para os outros. Na medida em que entre a «escrita automática (essa tinta do braço) e o peso de quarenta dicionários (que devia consultar mais), peço lugar na plateia das emigrações que se organizam ou apenas se pensam – e sento-me na pausa» (idem), tal fica a dever-se à comparência do desiderato que desperta o olhar, que desocupa o espaço preenchido por aquilo que está a mais. Daí que depois chegue a história — que pairava desde sempre — da «mais velha estação de comboios do mundo», e do comboio, cujo atraso é de «gerações», que parte para ir «lá atrás, procurar-me onde já estive» (p. 15).

Em «A morte dos actores», confrontamo-nos com a «estranha simbiose de decoro, aceitação e derrota» (p. 61) perante a morte de alguém, a morte a que assistimos, a morte que se vê. «Já não se trata de serem inúteis – trata-se de serem enganadoras e, sempre, mal colocadas» (idem); as palavras, que evidentemente nunca servirão de consolo, surgem aqui como perpetuar do sofrimento, enquanto continuidade do cerimonial abjecto da morte: «Angustiante é a sala de espera, os dias feitos de adiamentos e de recursos que garantem estabilidade ao sofrimento mais absurdo» (p. 62). Assim, a mortalidade evidencia-se ainda mais na morte dos outros, onde a inadaptabilidade categórica surge com maior visibilidade: «Se fosse da minha morte que se tratasse podia inventar ainda (…) meia dúzia de saltimbancos, um café (…) Mas com a morte próxima de alguém a quem sou afecto, sobra-me a vida que me resta» (p. 62-3). Assistimos, pois, àquela mortalidade mais insuportável, essa que impede a ficção, que cristaliza velocidades, ou seja, que impossibilita a comunicabilidade.

«As palavras nas casas» constitui um dos textos mais interessantes acerca do que queira significar o ofício de escritor. Recolhendo como matéria o que é ouvido, observado: «uma porta bate, uma mulher canta, uma criança ri, e há um cão que ladra, buzinas que tocam, uma chamada à esquina, um morteiro que estoira – e vejo um bando de pássaros, desligados do som, à procura de uma região, à procura de um filme» (p. 77); Dinis Machado sublinha aqui a sua atenção perante potencialmente qualquer elemento de composição do mundo. Aliás, o material de que o escritor se serve revela-se desde logo na sua dimensão mais primária e directa, porque, lado a lado com a «noite, o silêncio, o espaço, o tempo», estão «a caneta, a página» (p. 78). Sem ter como e com o que escrever, não se alcançarão «[o] signo e o símbolo. A envolvência das ideias, o encadeado, a destrinça. Os tabuleiros rotativos das combinações textuais» (p. 79). A realidade não será a famigerada «tela em branco», mas, pelo contrário, uma tela demasiado cheia e ruidosa, relativamente à qual quem escreve retira o que está a bloquear as imagens, de maneira a conseguir «obter transfigurações» (p. 80):

 

Reformular a visão esgotada, dar outra missão, ou categoria, às palavras? Combater-lhes a inércia ou a tradição normalizadora, preparar, logo à partida, na junção das letras, no avanço das sílabas, o lançamento da imagem ou da metáfora, o seu carregamento de surpresas e de invenções? (idem)

 

No ofício de escritor, «as palavras já podem não ficar nas casas que, a seu tempo, lhes couberam (…) vão para onde não são esperadas por nada, por ninguém, apenas renasceram para os olhos achados, em cisternas, da descoberta dos mundos» (idem), precisamente porque a literatura encerra em si capacidade de desdobramento que faz com que os caminhos sejam múltiplos e impossíveis de converter em absoluto em sistemas rígidos e expectáveis de significados. Sendo as «origens desta natureza de escrever: poéticas, irónicas, dramáticas, cómicas, repentinas, tensas» (p. 81), caberá ao escritor permanecer curioso, ir perguntando e vendo de modo dissonante: «A oscilação da norma, os direitos da estranheza, o sopro da renovação (…) o esticão e o ritmo?» (idem).

O penúltimo dos blocos escolhidos intitula-se «Conversa», sendo precisamente isso, um diálogo pessoal com a mulher, Dulce Cabrita. A relevância de «Conversa» fica desde logo a dever-se à aproximação que se faz a Reduto quase final. Livro que «não é romance, não é novela, não é livro de contos, não é um livro de poemas» mas «pequena aventura» (p. 85), na qual «os textos, que não são especificamente contos, pelo menos na sua interpretação tradicional, não deixam de ser independentes uns dos outros. Mas há um fio condutor a ligá-los. Passa pela narrativa, por frases que os tabelam, pelos títulos, a ideia geral» (p. 86). É por uma particular dimensão de linguagem que os doze textos, autónomos e «independentes», se relacionam entre si, dimensão que se manifesta «nas palavras, nessa relação que fazem umas com as outras e que faço com elas» (p. 87). Linguagem enquanto poder de contacto, uma vez que «Tenho de me reconhecer no que escrevo (…) [procuro] esclarecer-me. E comunicar» (idem).

Se é a «troca que melhora os trocadores» (p. 88), isso resulta da vontade de comunhão e de testemunho; e são doze estes testemunhos agrupados num volume cuja variação de estilos acentua o empenho na rejeição de classificações cristalizadas. Impulso problematizador e reflexivo, porventura a ideia que põe em contacto os blocos de que se faz Reduto quase final seja o humor, o riso, daí o segundo patamar de relevância de «Conversa», onde Dinis Machado nos diz que:

 

(...) sei rir de mim próprio e dos outros (sem pretender injuriar-me ou injuriar os outros) (…) recuso patologias de perseguição e de má-fé. Acho que andamos um pouco apertados, mas o espaço não é assim tão pequeno, deve fazer-se o possível para dar lugar a todos. A capacidade de tolerância de cada um está sempre a ser desafiada. E solicitada. (p. 88)

 

«Qual é o lado mais cómico disto?», logo o segundo texto do livro, é onde encontramos a descrição da centralidade do humor para Dinis Machado: «Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto?» (p. 19). Interrogação-lema, condição de acesso, o «disto» diz respeito a tudo, das «cerimónias religiosas», passando pelos «cumprimentos obsequiosos e constrangedores», até à «doença» ou à «maldade pura» (idem). É através e graças ao riso que o mundo se revela, dando-se a ver com especial nitidez nessa capacidade de desconstruir e de procurar outros lados da realidade:

 

Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (…) e até na morte, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro. (p. 20)

 

Ao fabricar assim o seu próprio oxigénio, como acontece com a «pausa», também neste livro se prossegue, se bem que de modo mais sóbrio, a demanda presente em O que diz Molero, e que passa pelo elogio da cumplicidade, da interrupção e da esperança. Apresentando o rosto ora difuso, ora mais nítido —, Dinis Machado faz de Reduto quase final um livro sem pretensões e sem outro objectivo que não seja o da conservação da partilha e da aptidão para criar e prosseguir diálogos intempestivos e afectivos. Tal não significa que seja neutral ou morno; pelo contrário, como vimos, assume o riso enquanto comprometimento, i.e., enquanto valoração ética de um estar no mundo no qual o que foi ficando – a experiência e a memória, materializadas na perda – não desagua no encarceramento no passado; até porque é preciso continuar a «dar lugar a todos».

E, também devido a essa circunstância, não se trata de um livro desolado ou melancólico, antes consistindo num testemunho de agradecimento simultâneo a quem e ao que se encontra inscrito no autor. Tributo original ao que resiste em nós, Reduto quase final é um exemplo de como as histórias, que aqui têm como protagonista aquela atenção aguda dispensada às pessoas e às coisas, nos convidam a celebrar a vida, apesar da consciência de alguns dos seus lados mais negros. Ou até mesmo por isso.