Raquel Montez Raimundo

 

Enquanto o público entrava na sala principal do Maria Matos podia ver-se, do lado esquerdo do palco, um homem jovem, com ar insosso, vestido com um fato-macaco azulão a varrer farinha (ou algo semelhante), que ia caindo de tempos a tempos do tecto. Do lado direito, víamos uma mulher e um homem sentados em frente a uma mesa que tinha sobre si um computador. No palco, podiam ver-se duas telas brancas rectangulares, uma presa ao chão, que marcava os limites cénicos dos actores/dançarinos, e outra, perpendicular à primeira, que servia simultaneamente para marcar o fim vertical do palco e reflectir inúmeras projecções no decorrer do espectáculo, que se iniciou, nesta sessão (24 de Novembro), com uma plateia particularmente pouco preenchida.

Percebemos, também porque nos é dito explicitamente, que este espectáculo pretende tratar a problemática da ténue fronteira entre a arte e o entretenimento. Há, por parte do encenador Miguel Pereira, a preocupação nítida de tornar clara a brincadeira com esse tema.

A mulher que estava sentada (Sophie) levanta-se e dirige-se ao público, apresenta-se e depois conta episódios da infância e juventude e a sua relação com a dança. A plateia fica ainda mais vazia quando Sophie começa a dançar e vários membros da assistência se dirigem até ela e a acompanham na dança. Este foi o primeiro momento de declarado entretenimento: um grupo de figurantes que aparece em palco para dançar, dança e desaparece. Voltam a aparecer e a desaparecer várias vezes sem grande função além da de extras. O homem (António), que inicialmente estava sentado ao lado de Sophie, conversa com ela, depois ocupa o lugar dela e a partir daí é a sua vez de se dirigir ao público.

Desde o início até ao fim, Peça Feliz é um espectáculo marcado pela utilização de cores néon reflectidas na tela, que criam imagens abstractas, sem formas nem limites definidos. Estas imagens produzem as atmosferas oníricas dos imaginários de Sophie e António, que se guiam mutuamente pelo mundo constituído pelos devaneios de um e de outro. A criação de Miguel Pereira borrifa cores nos olhos do espectador também através das roupas do grupo de figurantes (à volta de 15 pessoas), que contrastam, a certa altura, com a nudez integral dos protagonistas. Os extras dão corpo à cena, enchem-na como se fossem cenário. Pensemos numa telenovela. Na casa da família da protagonista de classe média-baixa há móveis castiços de madeira castanha. Não são abertos uma única vez ao longo de dois anos de episódios, mas servem para nos relembrar a classe social da adorada protagonista. A função dos figurantes neste espectáculo é semelhante à dessa mobília. São água (vestidos de azul), ou relva e arbustos (vestidos de verde), e marcam o caminho que Sophie, nua, percorre no imaginário partilhado com António. Assim como a mobília indica a classe, aqueles bailarinos-cenário indicam que se trata de um mundo imaginário e não real.

O homem que ia varrendo a farinha (ou substância semelhante), a determinada altura, salta para o monte de arbustos e relva (formado pelos extras) com o seu fato-macaco azulão. No entanto, este é um momento de excepção. O varredor de farinha parece representar a ausência de sentido de que António fala mais tarde, quando diz que Peça Feliz é um espectáculo niilista (e explica sucinta e bruscamente a história dessa corrente filosófica).

António e Sophie começam vestidos, despem-se, e voltam a vestir-se. Ao contrário de muita da nudez gratuita que se pode hoje encontrar nos palcos de teatro lisboetas, a deles não o foi. Num espectáculo de entretenimento um nu integral é ou motivo de piada ou o grande momento (the big moment), ou tem uma música romântica extracampo a acompanhar (disjunção não-exclusiva). Sendo este um espectáculo com vários momentos de dança, o facto de os protagonistas aparecerem despidos nos seus solos permite ter acesso a detalhes corporais que até com os mais finos maiôs ou collants se perderiam. Embora também sejam feitas piadas acerca da nudez, a naturalidade com que esta nos é apresentada é consequência da robustez animalesca das suas danças, o que a torna pertinente. Uma nota muito interessante na performance solista de António foi a sua dança ao som de parte d’A Sagração da Primavera, de Igor Stravinsky, marcada por uma avassaladora energia rítmica. A performance de António, ou o seu pénis descoberto, dificilmente escandalizariam a plateia do Teatro Maria Matos. Pôde, ainda assim, sentir-se alguma tensão no público, uma vez que muitos dos movimentos executados pelo dançarino eram fortes e muito marcados, algo acentuado pela sua nudez. Se compararmos a reacção de quem assistia à dança de António com a de quem assistia à primeira apresentação d’ A Sagração da Primavera,[1] percebemos que é no entretenimento que encontramos receitas de «como fazer», não na arte. Embora não tivesse havido reacções semelhantes às da assistência da obra de Stravinsky, Miguel Pereira não teve receio de deixar o público desconfortável e conseguiu com isso um dos momentos em que Peça Feliz alcançou a total atenção por parte do mesmo.

O perigo de um espectáculo de dança com a pretensão de brincar com a relação entre arte e entretenimento é a possibilidade de no caminho se perder a relação e ficar-se só com a pior parte. Este espectáculo de dança, a partir de determinado momento, transforma-se noutra coisa, demasiado longa e barulhenta, dolorosamente aborrecida e fácil de fazer. Os figurantes entram e preenchem o palco, dançando ou mexendo-se com o objectivo de serem apresentados mais tarde. Enquanto isso, António e Sophie falam com o público e insultam-no de forma irreverente em semi-improviso, com piadas de bolso. A uma das pessoas presentes dizem que foi arranjar as unhas porque era feia e queria ficar bonita. A outra (a mim), ordenaram que parasse de falar com quem a acompanhava. Por um lado, a cena semelhante (mas em versão kitsch) a Insulto ao Público de Peter Handke teve a resposta que o piroso e o pouco sério têm: gargalhadas e conversas paralelas. Um espectáculo de entretenimento presta-se a isso. Por outro lado, se Peça Feliz é niilista, o público à partida também o pode ser e conversar em vez de prestar atenção. A objecção mais óbvia é a de que uma peça só pode ser «feliz» se for entretenimento, se tiver todas as características que teve nesses mais de 20 minutos de pouca substância.

A música cantada por António e Sophie, «Happy Days Are Here Again», é possivelmente uma referência a Happy Days, de Beckett, que alguns críticos e historiadores teatrais defendem ser uma peça niilista. As cores reflectidas nas telas lembram a atmosfera niilista e a estética que se encontra em Gummo de Harmony Korine.

Peça Feliz não é um espectáculo coeso: é injustificadamente fragmentado e por várias vezes ser auto-explicativo, torna-se ligeiramente pretensioso e não desafia o espectador tanto quanto seria desejável. Por não ter acabado mais cedo, este é um espectáculo que, ao brincar ser uma coisa, se transforma nessa coisa, e em que o jargão filosófico utilizado se torna contraditório.

 

[1] A estreia teve lugar a 29 de Maio de 1913, no Théâtre des Champs-Elysées, em Paris. As melodias dissonantes da composição de Stravinsky e a coreografia de Nijinsky e dos restantes bailarinos causaram, além de vaias e gritos, um tumulto que levou à expulsão de 40 das pessoas na assistência.