Joana Graça

 

Mulheres Excelentes é um romance sobre pessoas comuns com expectativas realistas. Não são pessoas atraentes ou bafejadas pela sorte e nada fazem de grandioso nas suas vidas. Através da personagem principal, Barbara Pym desenvolve um romance que nos mostra a ironia das relações humanas por meio de pequenas subtilezas. Há mulheres que fazem chá em situações de crise, mulheres profissionalmente beatas, mulheres antropólogas que não sabem cozinhar, homens casados que seduzem funcionárias da Marinha, homens que parecem iludir-se facilmente e homens que sabem cozinhar e arrumar a casa. Este livro é, por isso, tanto sobre mulheres como sobre homens; porém, sobre homens e mulheres que andam visivelmente desencontrados: as mulheres excelentes ficam solteiras, e os homens excelentes entregam a sua vida a mulheres menos excelentes.

Mildred Lathbury — a nossa personagem principal — vive em Londres nos anos 50. É uma solteirona auto-proclamada, virtuosa e espirituosa, inteligente e sem família. Com os pais já falecidos e com Dora Calcidote — a sua amiga de infância — a trabalhar noutra cidade, Mildred está sozinha e completamente satisfeita em relação à sua existência:

 

Fui para a minha pequena cozinha e preparei a mesa do pequeno-almoço. Costumava sair de casa às nove menos um quarto da manhã e trabalhava para a minha senhora até à hora de almoço. Depois disso, ficava livre, embora parecesse arranjar sempre muito que fazer. Enquanto circulava pela cozinha, a pegar em porcelanas e talheres, ia pensando, não pela primeira vez, em como era agradável viver sozinha. (p. 23)
 

Leva uma vida pacata com os Malory — Julian, um pastor solteirão, e a sua irmã frágil e doce, Winifred —, prestando-lhes visitas frequentes, discutindo sobre a Igreja e os seus afazeres, fazendo-lhes café, cuidando deles quase maternalmente e servindo de confidente a ambos. Dedica ainda o seu tempo a um trabalho em regime de part-time numa associação de caridade, prestando auxílio a mulheres solteiras e necessitadas. Contudo, nesta vida simples entram uma série de personagens inquietantes e decididamente nada virtuosas: os Napier — Helena e Rockingham —, um casal glamoroso e muito pouco convencional; Allegra Gray, a viúva calculista que destabiliza a relação de Mildred com os Malory; e Everard Bone, o antropólogo distante que, contra todas as expectativas, cria uma amizade com Mildred.

Como solteirona que é sem laços afectivos aparentes, é esperado que Miss Lathbury esteja envolvida ou presente na vida dos outros e que preencha o seu tempo com as novidades do bairro. É no momento da mudança dos Napier para perto de Mildred que Barbara Pym inicia a sua história, ao mesmo tempo que nos apresenta o tom divertido que pautará todo o livro:

 

Não sei se as solteironas são de facto mais indiscretas do que as casadas, embora ache que são tidas como tal por causa do vazio das suas vidas, mas dificilmente conseguiria admitir perante a senhora Napier que a dada altura da tarde arranjara maneira de ir varrer o meu lanço de escadas para poder espreitar entre os balaústres e observar a chegada da sua mobília. (p. 12)

 

Rapidamente ficamos a perceber que o casamento dos Napier é tenso, principalmente devido à dedicação feroz que Helena coloca no seu trabalho antropológico e ao facto de Rockingham, um ajudante de campo de um almirante em Itália, namoriscar frequentemente com todas as mulheres que encontra. Consequentemente, formam-se dois triângulos amorosos: o primeiro, entre os Napier e Everard Bone; o segundo, entre Allegra Gray, Julian Malory e, para sua própria surpresa, Mildred. Quanto mais Mildred tenta recuperar o seu espaço e a sua liberdade, mais envolvida fica nos problemas dos outros, uma vez que os próprios amigos dependem dela para resolver as confusões e os problemas pelos quais são exclusivamente responsáveis. Porém, é por estar envolvida nestas peripécias que Miss Lathbury — apesar da sua aparente figura simples e paciente — se revela uma antropóloga mais implacável que Helena e Everard:

 

Perguntei-me se ela deveria desperdiçar tanta energia a digladiar um assunto menor como usar chapéu na capela, mas depois disse a mim mesma que, no fim de contas, é assim que a vida é para a maioria de nós: os pequenos aborrecimentos em vez das grandes tragédias; as pequenas aspirações inúteis em vez das grandes rejeições e dos amores dramáticos da história ou da ficção. (p. 105)

 

Por outro lado, mais do que uma mulher observadora com preocupações cívicas e comentários irónicos — mas aguçados — sobre aquilo que a rodeia, Mildred, personifica na perfeição a esposa ideal — a mulher excelente —, ainda que solteira. Parece existir, então, uma simetria entre Mildred e o nono provérbio da Bíblia: «A Esposa Ideal». Neste pequeno texto enaltece-se, mais do que uma mulher de carácter ou uma esposa ideal, a sabedoria personificada que encaminha o homem para a justiça, a honra, a prosperidade e a vida. Mildred é então a mulher excelente por definição, visto que se revela a companheira ideal para todos, homens e mulheres. No entanto, estas mulheres excelentes, ainda que sejam «esposas ideais», têm de permanecer solteiras. Quem nos informa desta peculiaridade é a própria Mildred, numa conversa com Everard Bone sobre o estado civil deste:

 

— A Esther Clovis é sem dúvida uma pessoa competentíssima — disse ele indecisamente. — Uma mulher excelente em todos os aspectos.
— Poria a hipótese de casar com uma mulher excelente? — perguntei com espanto. — É que elas não são para casar.
— Não estará certamente a sugerir que são para as outras coisas? — disse ele, sorrindo.
Eis algo que não me passara de todo pela cabeça e fiquei irritada por me sentir embaraçada.
— São para ficarem solteiras — disse eu — e refiro-me com isso a um estado positivo e não negativo.
— Coitadas, não estão autorizadas a ter sentimentos normais, é isso?
— Ah, claro, mas não há nada a fazer em relação a elas. (p. 195)

 

Parece então existir uma certa perversidade por parte da autora na escolha do termo mulheres excelentes. Se, por um lado, é revelador desta ironia das mulheres excelentes serem as esposas ideais que ficam solteiras, por outro, Mildred ensina-nos que isso não deve ser encarado negativamente. Este livro é, por isso, uma comédia romântica que sugere decididamente, de forma nada romântica, que a sua narradora poderá ser mais feliz sozinha. No contexto de uma Londres pós-guerra, nos primórdios do feminismo e no fim do colonialismo, esta obra encontra a sua força em muito mais do que numa crítica social. O mundo retratado em Mulheres Excelentes não é um mundo de pobreza real: sabemos de início que uma guerra ocorrera, mas não as motivações desta e, se é verdade que as personagens de Pym parecem ter conhecido dias melhores, o romance transcende o seu contexto histórico particular. Isto porque Pym é exímia a retratar a ironia subtil e o pathos inerente ao nosso quotidiano: o prazer singelo que é comprar flores; o sentimento quase deprimente de regressar a casa para encontrar um frigorífico sem nada; jantar sozinha um ovo cozido e ouvir os risos estridentes dos vizinhos; o momento constrangedor que é ficar sem tema de conversa numa festa; o conforto de uma chávena de chá depois de um longo dia; a procura racional de uma desculpa para se beber aguardente sozinha; ou até mesmo a tentativa falhada de apimentar a vida com um novo batom.

Barbara Pym captura astutamente a realidade simples e transparente que é tentar chegar a algum lado e ao mesmo tempo aproveitar a viagem, um mundo de vaga saudade que ultrapassa quaisquer particularidades históricas, tornando-se intemporal. Sorrimos ao ler este livro porque aprendemos e reconhecemos o quão perversas as esperanças conseguem ser. Mildred prende-nos não por ser superlativamente inteligente, bem-sucedida, atraente, glamorosa ou até mesmo espirituosa, mas sim porque é familiarmente normal: os fluxos de consciência e de observação que acompanhamos mostram-nos que as suas inquietações são transversais a todas as pessoas e a todas as épocas. Revemo-nos nela pela sua humanidade, ou seja, pela sua falta de perfeição; no modo como conduz a sua vida aproveitando os pequenos prazeres e reflectindo sobre as suas pequenas desilusões. É precisamente por reconhecer e encontrar prazer neste tipo de vida que Mildred se torna a heroína por excelência. A obra deixa de nos dar esperanças de um futuro que poderá nunca vir para nos ensinar que viver está no presente e que ser-se feliz é reconhecer e aprender a apreciar as surpreendentes reviravoltas. É nesta linha de conta que, mesmo quando reflecte no quão vazia e insignificante a sua vida consegue ser, Mulheres Excelentes nunca resvala na melancolia: Pym ensina-nos que a vida continua e que, por vezes, viver é entender e reconhecer as pequenas e singelas subtilezas que a vida nos oferece.