Tatiana Faia

 

A escala da obra de Giorgio Bassani, autor de Ferrara, nascido em Bolonha em 1916, é bastante singular na história do romance europeu do século XX. Bassani é verdadeiramente o autor de uma obra monumental escrita numa escala menor: novelas breves sobre personagens aparentemente insignificantes, obras primas de vinte páginas, contos imortais sobre gente que nunca sai de casa ou sobre uma discussão entre esposos, ao conduzir um carro pela província, sobre que estrada tomar na viagem de regresso a Roma. É difícil explicar o que seja ao certo o triunfo deste escritor, mas algo na sua ficção é vital não só como documento do mundo em que vivemos, mas na representação de tensões mínimas, equilíbrios fugazes entre as pessoas, por regra ocorridos sob um contexto histórico opressivo, que têm o poder de moldar as suas vidas.

Bassani inicia o último texto do último dos seus livros de contos[1] com uma nota sobre o primeiro de todos os contos, «Lida Mantovani». Aí, o autor conta de como lhe levou quase um quarto de século até chegar à forma final de um texto que não é mais longo do que quarenta páginas. Entre 1937 e 1955, o tempo em que o conto é concebido e revisto, Bassani muda-se de Ferrara para Roma, sobrevive às leis raciais que levaram à segregação e deportação de judeus italianos para os campos de concentração nazis, casa-se, escreve poemas, trabalha como editor e professor. O próprio autor resume isto em «Três Apólogos», um dos textos de O Odor do Feno:[2] «Afterwards I got married, left Ferrara, put down roots elsewhere, had children, wrote and published books: with all the multiplying fortunes and tribulations that entails.»[3]

Dos volumes que compõem o ciclo O Romance de Ferrara, O Odor do Feno é o mais breve e é também aquele em que a presença do autor parece mais evidente. Um pouco menos amado entre os restantes volumes, sendo o mais famoso o romance O Jardim dos Finzi-Contini, e ocupando um lugar um pouco desconfortável na colecção porque normalmente visto como obra menor, há em O Odor do Feno uma espécie de chave para ler o resto do ciclo. Encontra-se aqui bastante visível aquilo de que Bassani fala no ensaio que fecha a colecção, «Down there, at the end of the corridor» — a sua relação difícil com o acto de escrever: «...every poem of mine, every story short or long, every novel, even every essay and, further, every passing article I ever wrote was always born, some more, some less, as “Lida Mantovani” was: painfully and with effort, and in large part by chance».[4]

O que todas as personagens dos livros que compõem O Romance de Ferrara têm em comum, em maior ou menor grau, é carregarem com elas a memória de um século, e todas estarem ligadas a uma cidade do vale do Pó, Ferrara, que Bassani imortalizou tanto em prosa como nos poemas. Ciclicamente, é preciso escrever sobre autores acerca dos quais se possa dizer que «imortalizam coisas» — é um mecanismo gasto, que tanto pode servir para bater na tecla do que merece ser parte do cânone como para de facto tentar recuperar algo de vital acerca de certos livros que, mais do que merecerem ser lidos, simplesmente não podem ser esquecidos, porque há neles qualquer coisa que nos faz pensar na literatura enquanto bem essencial para se estar vivo. Bassani é um desses autores. O que se segue é uma tentativa de explicar porquê.

Se Bassani imortaliza alguma coisa, creio que tal é, em primeiro lugar, um certo desconforto que passa para o leitor. Uma galeria de personagens que não despertam exactamente o nosso amor — mesmo quando não podemos deixar de sentir simpatia por elas — habitam a ficção de Bassani. Posto numa só frase, o que Bassani imortaliza é o imenso desconforto de lentamente darmos por nós enquanto estranhos na nossa própria casa. Porque Bassani é um autor judeu, que começou a escrever quando as leis raciais promulgadas contra os judeus entram em vigor em Itália, que teve de publicar o primeiro livro sob pseudónimo para contornar essas mesmas leis, e que esteve preso em 1943 por fazer parte da resistência anti-fascista, isso significa que Bassani é o cronista de um mundo que mudou rápida e irreversivelmente, um mundo onde a ordem do passado não só se tornou obsoleta, mas a memória desse passado, os anos do fascismo, da guerra e do Holocausto, abriram feridas irreconciliáveis. Escrevendo sobre a pequena cidade do vale do Pó onde cresceu, Bassani transforma-a num microcosmo a partir do qual escrever sobre tudo isto. Nesse sentido, a Ferrara de Bassani pode ser vista como um microcosmo das forças que moldaram não só a Itália, mas a Europa no século XX.

Esse desconforto de se ser um estranho na própria casa é o tema dominante de todo o ciclo, mas é tão relevante para ler os textos cujo pano de fundo é mais imediatamente histórico, e em que eventos históricos determinam o que vai suceder — O Jardim dos Finzi-Contini, sobre o fim de uma abastada família judaica como consequência da promulgação das leis raciais, é o romance onde isto é mais visível —, como os textos cujo contexto parece mais parte de uma história privada da cidade, das pessoas mais ou menos anónimas que vivem dentro e fora das muralhas, e das relações que entre elas se estabelecem. Em O Romance de Ferrara, Bassani é o cronista de tudo isso. Parecendo que não, a estranheza de estar em casa, de regressar a casa, é um dos temas que domina também «Lida Mantovani», o conto que levou a Bassani tanto tempo a escrever.

Antes de falar desse conto, convém explicar que Bassani é um daqueles autores que, entre nós, ocupa essa posição interessante para críticos snobs: um clássico absoluto mas um pouco obscuro. Clássicos absolutos que são lidos por pouca gente tendem a sê-lo porque as obras não estão disponíveis. A história das traduções de Giorgio Bassani em português conta-se brevemente e é vagamente decepcionante. A primeira edição de um texto de Bassani em português é a dos Contos Ferrareses, data de 1964 e foi lançada pela Ática. Há depois um longo hiato, até que entre 2010 e 2013 a Quetzal publicou O Jardim dos Finzi-Contini, Os Óculos de Ouro e A Garça. Contos Ferrareses contém o que na edição inglesa está compilado em Within the Walls (Dentro das Muralhas).

A história das traduções inglesas de Bassani é um pouco diferente, mas até 2005 não muito. Nesse ano, Paul Bailey assinava um artigo no The Guardian em que notava que a reputação do autor de Ferrara tinha ficado um pouco para trás em países de língua inglesa, em parte por causa da popularidade de outros autores italianos, nomeadamente Italo Calvino e Umberto Eco. À data em que Bailey assinava este artigo, as traduções inglesas de Bassani não estavam acessíveis, o que não impede o autor inglês de fazer duas observações que são relevantes para que me pareça importante que se escreva, também em português, sobre as novas traduções da Penguin dos volumes que compõe o ciclo O Romance de Ferrara, a saber, Os Óculos de Ouro, O Jardim dos Finzi-Contini, Atrás da Porta e A Garça. Aos quatro romances, juntam-se as duas colecções de contos, Dentro das Muralhas e O Odor do Feno. No artigo doThe Guardian, Bailey diz-nos que Bassani é um dos maiores romancistas do século passado e — esta é a segunda afirmação que tenho em mente — compara-o a Proust. O que quer isso dizer? Talvez a comparação aluda à preocupação com a memória, a dois escritores com processos de composição tortuosa, ao facto de ambos terem uma origem judaica e terem escrito uma obra agrupada num ciclo.

Entre 2007 e 2017, novas traduções de todos os volumes do Romance ficaram disponíveis em língua inglesa pela mão do poeta inglês Jamie McKendrick, à excepção de A Garça (The Heron, que está prestes a sair). Jamie McKendrick é um tradutor premiado que publicou em inglês os poetas romanos Valerio Magrelli e Antonella Anedda. É também o editor de The Faber Book of 20th-century Italian Verse, uma das melhores antologias de poesia estrangeira que conheço em qualquer língua, uma dessas colecções que se podem ler como se fossem poesia no original. Creio que não é possível elogiar estas traduções de Bassani o bastante. É difícil explicar o entusiasmo que assalta o leitor quando se começa a ler o primeiro volume (Within the Walls) e se entende que todo o ciclo estará disponível nesta versão. O que seja o triunfo de um tradutor é algo difícil de definir e ainda mais difícil de obter, e, para usar uma expressão de um poema de Seamus Heaney, fica geralmente sem recompensa, like darkness in a mirror. O triunfo de um tradutor é a habilidade de reinventar noutra língua o estilo de um autor; dar-lhe uma segunda personalidade, coerente e apelativa, na sua própria língua. As traduções de Jamie McKendrick são, parece-me, para Bassani e para a língua inglesa, o que as traduções de Pedro Tamen dos volumes do Em Busca do Tempo Perdido ou o Homero de Frederico Lourenço são para a língua portuguesa.

Na antologia The Faber Book of 20th-century Italian Verse, McKendrick traduziu um breve poema de Bassani sobre Ferrara, em que se lê:

 

        Towards Ferrara

        At this hour when through the hot endless grasses
        the last trains make their way towards Ferrara,
        their languid whistles fade as sleep engulfs them
        along with the lingering red on village towers.

        Mead from damp meadows enters the train windows
        and takes the shine off bare wood benches. The fingers
        of tired lovers unlace like ragged silk,
        their parched lips now a desert without kisses.[5]

 

Há cidades que são personagens centrais nas obras dos seus escritores: Baudelaire e Paris, Kavafis e Alexandria, Pessoa e Lisboa, Pasolini e Roma. As últimas duas décadas da vida de Bassani foram passadas a rever este corpus de ficção que compõe O Romance de Ferrara e que a princípio surgira disperso. Nele, uma das personagens decisivas é Ferrara. Como nota Jamie McKendrick na introdução a O Jardim dos Finzi-Contini, a maior parte das histórias de Bassani foram escritas em Roma, mas quase todas são passadas em Ferrara (p. viii). E a cidade vai ganhando espaço na ficção de Bassani, tornando-se cada vez mais nítida à medida que a sua oficina de escritor vai evoluindo, deixando de ser referida perifrasticamente ou como F. nas primeiras histórias. McKendrick nota que a cidade matura como entidade imaginativa e quase como uma personagem.

Em entrevista, Jamie McKendrick notava que «what is peculiar about Bassani is how slow and massive the movement of his prose is, just as much in the short stories as in his novels». No ensaio que fecha O Odor do Feno, o próprio Bassani sugere ao leitor que há um elo um pouco mais vital entre esta morosidade da escrita e Ferrara. Aludindo à composição de Os Óculos de Ouro, Bassani explica que a dada altura se tornou claro para ele que esse processo de composição era moroso e continuaria a sê-lo se ele próprio não emergisse na sua própria escrita:

 

Only then, after having finished writing the third chapter of that tale, which is not a short story, but a novel in its own right, no matter that it’s short and Ferrarese, my ideas suddenly became clear: at the point at which I found myself, Ferrara, the little segregated universe I had invented, would no longer be able to reveal to me anything substantially new. If I wanted the place to tell me something else, I would have to include within it also that personage who having been excluded for many years, had persisted in setting up the theatre of his own literary work within the red walls of his hometown, that’s to say, myself.[6]

 

Obliquamente, esta ideia do visível e do invisível, do que é óbvio e do que lentamente emerge, são aspectos transversais a todas as histórias que Bassani escreveu. Isto quer também dizer que há uma tensão constante que pauta estas histórias, alicerçada no carácter ambivalente de situações e personagens que muitas vezes estão, afinal, no processo de se descobrirem a elas próprias. É este o caso do narrador de Atrás da Porta,[7] cuja visão do mundo muda depois da traição de um colega de carteira, alguém que ele considerara um amigo até àquele ponto. Há nisto, claro, um lado de romance de formação. O narrador de Atrás da Porta começa a passar as tardes a estudar com um novo colega, Pulga, convidando-o para sua casa, até descobrir que este começara a espalhar todo o tipo de rumores cruéis acerca dele. Avisado por outro colega, ambos preparam um modo de o apanhar a repetir esses rumores. A ideia seria que o narrador se esconderia atrás de uma porta para o ouvir e, depois, surpreendendo-o em flagrante, para se vingar. O que sucede na sequência desta cena vai mudar a vida do narrador. Porque Bassani tem um interesse profundo nos dilemas éticos que pautam o modo como nos relacionamos com os outros, as suas obras dificilmente ficarão datadas. É também este o caso de «Lida Mantovani», que Jamie McKendrick diz ser um estudo sobre o tédio:[8] uma filha parece repetir, com apenas alguns anos de intervalo, a história da mãe. Apaixonada por David, um jovem judeu, a espaços melancólico, indeciso e violento, membro da burguesia local cujas ambições são vagas e se dissipam sem que cheguemos a entender o seu rumo (David desaparece de cena), Lida Mantovani engravida, é abandonada, regressa a casa para dividir os dias com a mãe, passados em trabalhos de costura, e criar o filho. Um pretendente, Oreste, vários anos mais velho e improvável herói romântico (encadernador de profissão e fervoroso católico), visita-a durante anos até que a mãe de Lida morre e ambos se casam. É verdade que, à superfície, «Lida Mantovani», revisto por Bassani ad nauseam, é um estudo sobre o tédio. É também verdade que estabelece muitos dos temas que vão ser determinantes tanto para outros contos como para as novelas e romances que compõem o ciclo: Ferrara surge já como personagem; há no percurso de David, o jovem amante judeu que abandona Lida, qualquer coisa da melancolia de Bruno Lattes, espécie de alter-ego de Bassani que regressa noutras histórias; a improbabilidade da co-existência de certas pessoas, de certos grupos, ambições que não encontram um rumo ou uma realização; a improbabilidade da própria felicidade, que surge no final ao mesmo tempo como uma espécie de dolo e de acto de gentileza; a forma como os filhos mudam perante os olhos dos pais e vice-versa; a crónica de vida de personagens que parecem estar à margem ou ser irrelevantes, e na verdade não o são de todo. Todas estas coisas são vitais para o universo de Bassani e todas elas estão já presentes neste conto.  

Lida é talvez uma das criações mais estranhas da história da literatura europeia no século XX, e dizer isto não é um exagero. Na trajectória desta mulher, cuja história é narrada desde a juventude até pelo menos à meia-idade, confunde-se um percurso de uma banalidade quase arquetípica. Podia haver aqui qualquer coisa da paródia do percurso de uma heroína falhada de um romance novecentista, mas o que encontramos é um estudo sobre a relação entre humanidade, banalidade e esperança, sobre uma forma de felicidade sem alegria. Se isto parece um pouco entediante, devemos acrescentar que Lida nunca deixa de ser um mistério para o leitor, tal como David não é inteiramente óbvio. Nunca percebemos ao certo o que os une, porque é que David desaparece, porque é que Lida resolve casar com Oreste. Mas uma das descrições mais memoráveis de todo o ciclo é a narração do percurso feito numa noite, por David e Lida, desde casa dela, passando pelo cinema, e de regresso a casa dela de novo. Mesmo quando se descreve as decisões que Lida toma, a sua motivação nunca é aparente para o leitor e há, claro, a estranheza do seu regresso a casa depois de ter tentado viver com David. Falo em estranheza porque Lida é facilmente aceite de volta pela mãe, quase como se nada se tivesse passado — quase que se pode ignorar que a vida dela falhou e não vai voltar a ser como dantes. No entanto, através da descrição da rotina de mãe e filha, e do modo como Lida se vai moldando a essa rotina, a força da mudança que ocorre na personagem principal vai-se instalando. Entendemos então que, naquilo que têm em comum com o género da crónica, uma contaminação vital para ler o autor, as histórias de Bassani são sobre o lado irrecuperável da vida e sobre o lado ético da memória.[9]

Personagens que aparecem e desaparecem são outro tópico recorrente ao longo dos contos, tanto em Dentro das Muralhas como em O Odor do Feno. De todas as personagens que desaparecem e ressurgem nos contos, nenhuma causa tanta perturbação como Geo Josz. Geo Josz é a personagem principal de «Uma placa memorial na Via Manzini». Único sobrevivente, de entre 183 membros da comunidade judaica de Ferrara, da deportação para os campos de concentração em 1943, o adolescente Geo Josz regressa a Ferrara como se de uma criatura mítica se tratasse. É primeiramente avistado na via Manzini, onde se situa a sinagoga. A acção começa no dia em que a placa com os 183 nomes dos judeus ferrareses deportados é aí afixada. Geo surge junto à placa e é-nos dito que a sua idade é difícil de determinar e que ele está incrivelmente gordo («he seemed swollen with water, a kind of drowned man»[10]), o que leva os ferrareses a duvidar de que ele tivesse de facto sobrevivido a Buchenwald. Há ainda o pormenor dissonante da indiferença do rapaz que afixa a placa.

Geo é uma dessas personagens impossíveis que são testemunhas de algo que não pode ser descrito, de coisas que escapam às palavras. O único da sua família a sobreviver ao Holocausto, Geo perdeu a mãe, o pai e um irmão mais novo. Regressado a Ferrara, descobre que a casa da família havia sido ocupada por forças anti-fascistas e é-lhe dado um espaço no celeiro do grão que fica no topo de uma torre, à sombra da casa onde Geo crescera, um detalhe que tem qualquer coisa de metáfora sobre a posição da comunidade judaica italiana no pós-guerra. Deste ponto de vista, Geo consegue observar tudo o que acontece no jardim da casa, as movimentações dos membros da resistência e o que sucede na rua em redor da casa. Há aqui outra espécie de metáfora, quando a casa de Geo é ocupada sem grande consideração por ele: a figuração da imposição da nova ordem sobre a anterior, sem que se reconheça a história da casa.

A princípio recebido com simpatia, a divergência entre o jovem e os habitantes de Ferrara vai-se adensando. À medida que o tempo passa, o único habitante da cidade com quem ele se consegue identificar, para desconcerto do seu tio Daniele, é o cunhado do pai de Geo, Geremia Tabet, que ao contrário do resto dos habitantes de Ferrara, que tinham deixado, mais ou menos colectivamente, crescer longas barbas para se identificarem como partidários da resistência, mantivera uma pêra ao estilo fascista e não aparentava qualquer vontade de esconder o seu passado de fascista empedernido. O que torna Geo um «enigma», como os ferrareses lhe chamam, é o encontro entre a hipocrisia dos habitantes da cidade, que se recusam a reconhecê-lo e ao trauma de que ele é o único sobrevivente e testemunha, e o próprio desejo de Geo de regressar ao mundo que lhe era familiar, de voltar a Ferrara como ela era antes de ele ter partido. Como lidar com o trauma da História? Ferrara disfarça-se na imobilidade para dar aos seus habitantes a ilusão de ser imutável. Por baixo, esconde-se, claro, a devastação da decadência, de que Geo se torna um objecto: «But after the removal of the highest piles of rubble and an initial mania of superficial change had exhausted itself, little by little the city, too, began to reassume its old form of sleepy decrepitude...»[11] Todos os demónios do então passado recente de Itália se cruzam neste conto.

A literatura muda, ou pode mudar, o modo como entendemos o tempo, o perfeito enquadramento das pessoas no tempo, dar-nos um retrato do carácter das personagens que compõem uma narrativa no exacto momento em que a sua natureza surge diante dos nossos olhos. Elas surgem então do ponto de vista de vantagem da objectividade que o contexto da ficção lhes pode dar. Um pouco como numa fotografia, o pormenor de um dado momento torna-se de repente absolutamente conspícuo. Um antepassado de Bassani, que também com ele tinha em comum Roma, Vergílio, fez desfilar os fantasmas dessa cidade no Livro VI da Eneida: o passado e o futuro cruzam-se para efeito profético, reis e generais romanos sepultados nos confins de uma mitologia, imperadores do porvir. A dada altura, um descendente de Augusto, Marcelo, que morre muito jovem, surge como paradigma da promessa e da perda irreparáveis. Neste sentido, no Livro VI, Vergílio lamenta o lado irrecuperável do tempo; são versos que surgem num misto simultâneo de cautionary tale e wishful thinking, o pior e o melhor de Roma à luz das personagens históricas que a definiram. De alguma forma, penso que está também em jogo, no ciclo de Bassani, esta ideia de que a literatura se pode transformar num grande fresco de um dado momento histórico, que nela se podem projectar os fantasmas de toda uma época e que, embora a objectividade não seja um imperativo, há uma visão crítica que é uma exploração do lado documental e testemunhal da literatura. Não há outro modo de ler Bassani que não tendo em conta esta chave. Neste sentido, este ciclo testa os modos como a literatura pode agir sobre a História, a ficção sobre a realidade.

Num dos contos de O Odor do Feno, Bruno Lattes, alter-ego ou não do autor, procura encontrar-se uma última vez com uma namorada e acompanha-a até ao local onde ela e a família estavam a passar férias. Por esta altura, um clima de intolerância contra os judeus começava lentamente a instalar-se e os primeiros sinais dos eventos que culminariam com a deportação dos judeus em Itália começavam a ter lugar. Lattes, de origem judaica, falha em tornar-se de novo próximo desta namorada, mas vai a tempo de ver o irmão mais novo da rapariga, num passeio de bicicleta, fazer voar a bandeira com a suástica do partido nazi. À pergunta de Bruno Lattes, «porquê desfraldar essa bandeira aqui?», o irmão mais novo responde que por nada, apenas porque parece bem. Este «apenas porque parece bem» despe, para horror do leitor, de todo o sentido o mal que o símbolo evoca, redu-lo a um lado de mera formalidade social e aponta, em retrospectiva, para o mesmo tipo de atitude que permite aos habitantes de Ferrara ignorar Geo no conto acima discutido. Se certos actos são despidos do seu significado moral, do seu peso sobre um contexto histórico, este é o risco que corremos.

Há, ainda, um outro aspecto deste sentido de irreparabilidade em O Romance de Ferrara, que é mais difícil de aceitar. A este propósito, Jamie McKendrick [12] citava o final de Atrás da Porta: «Slow to understand, nailed by birth to a destiny of exclusion and resentment, it was useless to think I’d ever be able to throw open the door behind which I was yet again hiding. I just couldn’t do it — there was no remedy. Not now. Not ever.» McKendrick notava que isto não era verdade acerca da maior parte das pessoas e que, sobretudo, não era verdade acerca do próprio Bassani, que abandonara Ferrara para não mais regressar e se estabelecera em Roma para se tornar um dos escritores mais relevantes do seu tempo. Gostava de pensar que o que está em causa neste sentido de irreparabilidade será algo de mais profundo. Além da expressão deste sentido de algo definitivo, a leitura final e fechada de uma personagem acerca dela própria, com uma reverberação de auto-profecia daquelas que propõe que certos acontecimentos nos podem quebrar para sempre, talvez esteja aqui em jogo um caveat, que pode bem ser acerca da força negativa da História quando somos incapazes de sair de trás da porta.  

 

[1] «Down there at the end of the corridor», The Smell of Hay.
[2] Todos os excertos aqui citados são das edições inglesas da Penguin. O tradutor é Jamie McKendrick. Onde os títulos estão traduzidos, as traduções são minhas.  
[3] The Smell of Hay, p. 44.
[4] The Smell of Hay, p. 82.
[5] Jamie McKendrick (ed., transl.). 2004. The Faber Book of 20th-Century Italian Poems. Londres: Faber & Faber. P. 86.
[6] The Smell of Hay, p. 87.
[7] Behind the Door, Penguin, 2017.
[8] Em conversa comigo. Estou grata a Jamie McKendrick por, desde de Outubro de 2017, ter discutido comigo vários aspectos desta recensão.
[9] Roberto Longhi, historiador de arte e professor de Bassani em Bolonha, e Benedetto Croce são os autores fundamentais para entender o modo como Bassani entende a História. Como nota Douglas Radcliff-Umstead no seu estudo da prosa de Bassani (The Exile into Eternity: A study of the Narrative Writings of Bassani), do primeiro Bassani adquiriu «a sense of historical responsibility toward an undying past»; para com Croce, um dos mais importantes pensadores italianos contemporâneos, Bassani «would one day feel such a great debt... for the courageous example of independent thinking under a dictatorial regime...» (p. 30).  
[10] Within the Walls, p. 64.
[11] Within the Walls, p. 79.
[12] Em conversa comigo.