Telmo Rodrigues

 

Na sequência de uma crítica aos jogadores da equipa de futebol, o presidente do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho, viu-se envolvido num conjunto de situações peculiares que incluíram uma resposta oficial por parte dos jogadores e uma contra-resposta em que o presidente garantia que as pessoas não o percebem e que, por isso, todos os jogadores seriam castigados. Duramente criticado por muitos sócios, o Presidente do Sporting afastou-se dos meios de divulgação noticiosa (oficiais e oficiosos). Depois de alguns dias de silêncio forçado, ansioso por responder ao que apelidara de ingratidão, dirigiu-se aos críticos num discurso no Núcleo do Sporting de Soure onde, entre outras coisas filosoficamente interessantes, afirmou: «Se para vocês basta existir e respirar, está bom.»

O «vocês» era relativo ao conjunto de sócios que o criticaram e Carvalho pretendia dizer que se devia exigir mais aos jogadores: perante derrotas, os culpados deviam ser encontrados e, supomos, responsabilizados. Entre esses estariam os sócios que não criticam, como ele, a suposta falta de atitude dos jogadores e, nesse sentido, seria também necessário responsabilizá-los pelos resultados desportivos menos bons. Essa é a parte trivial que se pode depreender do desenrolar de acontecimentos. A parte interessante consiste em perguntar o que significa, para um clube de futebol, «existir». Num sentido muito literal, como aliás Carvalho deveria reconhecer com mais sabedoria do que ninguém, há uma parte da existência que decorre de uma boa gestão financeira e da possibilidade de pagar a subsistência das várias valências do clube: um dos cavalos de batalha de Carvalho acerca da sua presidência é exactamente a falta de reconhecimento por ter salvado o clube da bancarrota. Noutro sentido, mais metafísico, a existência de um clube depende da agregação que consegue conquistar, isto é, do conjunto de sócios que o compõem (e que garantem o seu potencial económico).

Serve esta longa introdução para notar que um apologista insuspeito da teoria de Bruno de Carvalho é Fernando Sobral, que termina o livro Futebol, Estádio Global com a admirável tese de que no futebol só interessa vencer:

 

No fim a vitória é que conta. E faz esquecer todos os males do mundo e, também, do futebol. Para os adeptos o futebol é quase tudo. Há uma primeira página mítica do News of the World quando a Inglaterra não se apurou para o Mundial de 1994. Título da primeira página: «It’s the End of the World» («É o fim do mundo!»). Tudo é perdoado no futebol, menos perder. (p. 86)

 

Tanto Sobral como Carvalho garantem que não vale a pena andar por aqui sem ganhar e, nessa sequiosa busca por vitórias, esquecem que todos os clubes tiveram, na sua génese, uma relevância social: eram núcleos agregadores de comunidades, fossem essas uma cidade, um bairro, ou um conjunto de cidadãos que partilhavam crenças políticas ou religiosas. Defender que só as vitórias interessam pode até ser justificável no caso do presidente do Sporting, mas não é compreensível num jornalista português: a realidade nacional, onde apenas três clubes lutam consistentemente por títulos, significaria que todos os outros clubes são irrelevantes. Mas como qualquer adepto desses clubes atestará, eles existem, têm relevância e por eles grandes esforços se fazem. As razões que esses adeptos podem dar para a filiação ao clube podem ser variadas, mas claramente não estarão agregadas ao número de vitórias.

Uma segunda dificuldade no ensaio de Sobral é perceber aquilo que se defende ser o futebol, uma vez que as contradições abundam para alguém que tem a teoria de que os números falam por si. Para Sobral, mais do que o fervor clubista, que cega de uma maneira geral, o que interessa são os números e só uma leitura fria desses permitirá a compreensão do fenómeno do futebol. Os números até podiam ser as estatísticas de jogos, mas no caso são os valores gerados e a forma como, nos últimos anos, o dinheiro alterou o desporto. Ora, a posição do autor faz crer que, face aos números analisados, o futebol (o verdadeiro, supõe-se), em grande medida, pereceu:

 

Depois de mais de um século de existência, o futebol é hoje muito mais do que um espectáculo: é uma indústria. Nas últimas décadas transformou-se a uma velocidade estonteante. O futebol, entre campeonatos nacionais, competições europeias e entre países, mundiais ou europeus, joga-se quase todos os dias. Os grandes clubes dependem das receitas televisivas e publicitárias. Alguns, como o Manchester United, tornaram-se marcas globais. As identidades nacionais e regionais desintegraram-se nas equipas. As línguas diferentes cruzavam-se nos balneários e nos estádios. (p. 25)

 

A ideia de que o futebol é uma indústria é consubstanciada por infindáveis números, de transferências, de milhões pagos por direitos, de milhões dados para comprar clubes e jogadores, de histórias recentes acerca da falta de ligação entre jogadores e clubes.

Para se salvaguardar da contradição óbvia de que os valores astronómicos ligados ao futebol fariam supor uma vitalidade extrema, lembra o caso de George Best ou o episódio do jogo do Benfica interrompido para Vítor Baptista procurar o brinco que lhe caíra, rematando com: «Mas esse era o futebol da poesia total, da idade do espectáculo ainda feita de inovação e não de repetição»; e vaticina, depois de assumir que «as tácticas feitas para não se perder, os interesses económicos e a televisão omnipresente terminaram com este mundo de maravilhas», que «esse futebol pop não volta» (p.77). Antes, já em tom crítico, enumerara todas as transferências da carreira de Zlatan Ibrahimovic, para demonstrar que o interesse numa transferência não é apenas uma questão de desempenho desportivo mas de potencial valor comercial (na venda de merchandising, por exemplo). O exemplo não podia ser pior: não é Ibrahimovic, além de um jogador extraordinário, uma estrela pop ao melhor estilo de Best? Não se reconhecendo que é exactamente essa qualidade pop que está por trás das transferências de Ibrahimovic, a nostalgia que impregna este livro não se restringe ao futebol e estende-se ao alcoolismo, à promiscuidade e à ocasional acusação de violência doméstica. A contradição, aliás, não cessa nesse momento, uma vez que constata no mesmo parágrafo que no final de todas as suas voltas Ibrahimovic se «tornou peça essencial na equipa de José Mourinho, apesar da sua idade» (p. 70). Afinal, e apesar da idade, ainda havia qualquer coisa no desempenho de Ibrahimovic que lhe permitiria ser peça-chave no Manchester de Mourinho.

A definição de futebol torna-se ainda mais complicada: «Uma das suas virtudes [do futebol] é a possibilidade de, apesar de se jogar para o resultado, ser um “jogo bonito”. Em que futebol é espectáculo, cheio de dribles e fintas, e não de sistemas tácticos rígidos e defensivos, só a pensar no resultado.» (p. 27) Não é um dos casos mais interessantes dos últimos anos o processo defensivo do Atlético de Madrid, que lhe tem valido tantos elogios como críticas? E não é o rigor defensivo italiano uma contínua fonte de elogios para os jornalistas da mesma estirpe de Sobral? A ideia de que o futebol é só ataque parece tão caduca quanto as teorias sobre o futebol maravilhoso que não regressa: essa estirpe de pensamento, aliás, já inclui o Barcelona de Guardiola na longa lista de coisas maravilhosas que não regressam, como o Benfica de Eusébio, a Holanda dos anos setenta ou o Brasil de 1982 (um bom exemplo de uma equipa que é conhecida apesar de não ganhar).

A nostalgia trivial que envolve tanto este livro como um sem número de conversas que continuamente se têm sobre futebol é expressa de forma exemplar por Sobral:

 

Houve um tempo em que o futebol era um prazer barato e vulgar, que se jogava ao domingo. Não era difícil que alguém se apaixonasse por aquele jogo de regras simples. Com artistas que fintavam os adversários e marcavam golos. Os adeptos esperavam toda a semana para ir ao estádio com a família para ver 90 minutos gloriosos e nem se intimidavam com o preço que tinham de pagar para entrar no recinto. Era um prazer barato. Seguiam-se os outros jogos pela rádio e faziam-se contas de somar e subtrair. Mas esses dias desapareceram. (p. 19)

 

Talvez esses dias tenham desaparecido para o autor, mas claramente não desapareceram para os milhões de pessoas que continuam a ver futebol. A mudança do rádio para a internet e da folha de papel para uma calculadora não atesta nada, certamente. Não é por isso garantido que tenha desaparecido o que quer que seja e, num mundo em que os interesses económicos são tão relevantes, talvez fosse interessante pensar para além dos lugares-comuns estafados que enchem as páginas sobre futebol em Portugal. Seria interessante, por exemplo, discutir o papel de clubes pequenos e periféricos e as razões por que subsistem em condições cada vez mais adversas.

A grande maioria das pessoas não vai ao futebol ver um espectáculo, mas sim ver a sua equipa a jogar, na maioria das vezes, um futebol sofrível. A ideia do futebol enquanto espectáculo, embora tentadora em certos momentos históricos, como aquele em que vivemos, pode ser mais difícil de defender quando há menos talentos. E também não é certo que as pessoas se desloquem aos estádios apenas quando as equipas ganham: o estádio do Nothingham Forest não se enche de pessoas que querem ver o bi-campeão europeu, mas de pessoas que querem ver a equipa do seu clube jogar. É claramente diferente encher um estádio para ver um jogador e encher um estádio para ver um clube — quantos ansiarão por ver um Barcelona jogar contra o Eibar?

Defender o futebol não pode depender de afirmações taxativas acerca do fim do que quer que seja, mas antes de ser mais inteligente a ler os números e a analisar as reacções de jogadores, treinadores, dirigentes e, sobretudo, adeptos — algo que tanto Bruno de Carvalho como Fernando Sobral demonstram não saber fazer. Além de todas as dificuldades que os clubes enfrentam, há ainda a necessidade de fazer frente a este tipo de pensamento: é também da luta contra pessoas que pensam assim que a preservação do futebol se faz. Porque na situação em que se encontra o futebol, há claramente virtude na mera existência física de um clube: ninguém quer apoiar um clube que tem um passado recheado de vitórias mas que já não existe e que, portanto, já não joga.