João N.S. Almeida

 

Grande parte da carreira cinematográfica de Charlton Heston assemelha-se a uma biografia ideológica, onde os filmes e a expressão da pessoa pública do actor acompanham a constituição da sua personalidade privada e das suas ideias morais e políticas. Nessa progressão, podemos encontrar uma fase de referência, na passagem da década de 60 para a década de 70, quando Heston participa em Planet of the Apes (1968), The Omega Man (1971), e Soylent Green (1973), uma trilogia não premeditada de dramas de ficção científica com uma temática conservadora, republicana, e individualista. Todos os protagonistas desta trilogia parecem ser projecções de Moisés, de The Ten Commandments (1956), ou do príncipe em Ben-Hur (1959), enquanto representações da figura do agraciado que eleva a massa colectiva animalesca ao exemplo judaico-cristão do imago dei, o homem criado à imagem do divino, que acaba sacrificado, em imitação também do exemplo cristão. O arco trágico das suas personagens inicia-se com a queda, depois com a re-ascensão, e termina com o sacrifício — tal como Moisés ou, indirectamente, Ben-Hur —, passando pelo reconhecimento no individualismo de uma noção do próximo e de comunidade. Essa noção não é colectivista, na medida em que o indivíduo faça parte de um múltiplo, mas envolve a concepção do humano como derivado de um arquétipo, em que tanto o sujeito como os que o rodeiam são feitos à imagem do divino. A trilogia reflecte também as tensões sociais da época, abordando temas como o ambientalismo, a geração de 60, o controle populacional e o totalitarismo de Estado, a ética animal, e o neo-paganismo.

Em Planet of the Apes, provavelmente o filme mais conhecido da trilogia, Heston arrisca o seu primeiro papel de herói moderno, em contraste com os anteriores épicos. O retrato da decadência da civilização, presente no romance original,[1] é transformado, na adaptação para filme, numa tragédia vivida na primeira pessoa, com um twist ending inesquecível. A premissa consiste na chegada de três astronautas a um mundo desconhecido onde a espécie dominante é o macaco e a dominada o homem. Ao entrar nesse mundo, Heston está numa condição fisicamente diminuída, sem poder falar, devido a uma lesão nas cordas vocais, e sem roupa, reduzido à submissão, tal como em The Ten Commandments e Ben-Hur. Mesmo após recuperar a voz, permanece numa condição semelhante de ausência de expressão verbal, já que os símios demonstram desprezo pelas suas palavras, e os companheiros humanos do cativeiro não têm a faculdade da fala. Heston aprende então a falar em monólogo, sendo forçado, pela sua situação acossada, a redescobrir o indivíduo por si e em si; no entanto, este processo assenta no discurso, no logos, que pressupõe um interlocutor, ligando-o assim ao próximo e à comunidade. De seguida, decorre o arco narrativo já mencionado, onde Heston ascende a uma condição igualitária com os símios, ao expor o seu direito à auto-determinação face a um tribunal, lembrando a causa dos direitos civis na América da época, e em seguida ascende à superioridade circunstancial, quando se liberta do cativeiro e sequestra o cientista-chefe dos símios, expondo-lhe a sua dignidade e piedade humanas. Esta ética sobrepõe-se à selvajaria dessa sociedade, que é também humana porque antropomórfica, uma vez que os símios ficcionais são modelados à imagem do homem. O filme sugere ainda um paralelo entre os símios e o barbarismo dos hippies, a que Heston se refere com um comentário.[2] Esta é uma caricatura não só da ideia de civilização mas também da prática religiosa, já que os símios são partidários de uma crença dogmática, totalitária e dominante, que determina os humanos como seres viciosos e inferiores. Assim, a personagem de Heston, que começa como céptico radical, proveniente da época da contra-cultura e da descrença na ética da humanidade, transforma-se numa representação do individualismo, da identidade humana e da sua superioridade moral, que tem o seu ponto de ebulição quando o protagonista recupera a voz e grita: «Take your stinking paws off me, you damn dirty ape.» O filme termina com a sua cena mais marcante, quando Heston descobre uma relíquia humana, percebendo que de facto se encontra no planeta terra, muitos anos no futuro. Defronte dessa relíquia, Heston é o retrato do último homem face ao último vestígio da sua existência, e o mar, cuja presença envolve a cena, colapsa e encerra a humanidade.

Em The Omega Man, a situação do sobrevivente agraciado é mais literal, já que Heston se julga o último homem livre num mundo pós-apocalíptico, tendo escapado a uma infecção que causa delírios na população. Enquanto em Apes o barbarismo é representado pelo macaquear da civilização, e a crença é omnipresente e dominante, semelhante ao catolicismo europeu, em Omega a civilização é rejeitada por uma seita de sobreviventes delirantes, constituindo um dogma minoritário. A religiosidade distorcida aqui representada contém um comentário muito evidente ao neo-paganismo dos colectivismos New Age dos anos 60, sublinhado pela designação «a família», que remete para Charles Manson. Mas ambas estas formas de crença substituem a experiência protestante, próxima da identidade americana e de Heston, de encontro individual com o divino, crença que não é apenas minoritária, mas singular. O protagonista de Omega é semelhante ao de Apes: estóico, cínico e reduzido à condição original de único homem na terra, simultaneamente primeiro e último. Perante a queda da civilização, ele defende a fortaleza do seu apartamento, decorando-a com pinturas do Renascimento, símbolos da graça humana, e vagueia pela cidade, falando consigo próprio e com os mortos, como se fosse ainda um ser social. Novamente, é no monólogo, na criação de um interlocutor inexistente, que a descoberta do indivíduo é feita. Heston termina sacrificado, desta vez em explícita posição cristã, mas em prol da sobrevivência da espécie, tendo permitido a criação de uma vacina para a praga. O referencial cristão é assim mais pronunciado, já que abundam também os nomes bíblicos nas personagens, como Matias e Zacarias. The Omega Man é possivelmente o filme menos reconhecido da trilogia, mas enquadra-se perfeitamente na temática do último homem na terra e do indivíduo feito à imagem do divino em antagonismo com o colectivo animal.

Contudo, é em Soylent Green que a negação da moral e do imago dei atinge um nível mais radical, estendendo-se à última fronteira do indivíduo: o corpo. Heston está numa situação diferente, que não a de último homem. Inserido numa sociedade decaída, igualmente totalitária, ele trabalha como detective da polícia, mas mantém o cepticismo dos protagonistas de Apes e Omega. Enquanto os dois outros filmes descrevem uma fase pós-apocalíptica, Soylent tem lugar no decurso da decadência civilizacional, em que o protagonista é ainda colaborante, embora com algum cinismo, com a ordem instituída, assemelhando-se mais ao herói comum, ou anti-herói, do que ao agraciado. Acaba, porém, igualmente sacrificado, no final do filme, ao expor um segredo de Estado, comprometendo a sua posição quando descobre que o único alimento disponibilizado à população pelo governo é uma forma processada de restos mortais humanos. Tanto a comoditização da morte como a eutanásia, que se encontra legalizada e é até encorajada, são expressões de uma sociedade que transforma o valor da vida em recurso material e gere-o tendo em vista o primado do organismo colectivo ao invés da vida individual. É este o ponto de viragem civilizacional em que o colectivo deixa de ser um múltiplo de indivíduos, cada um reflectindo-se no próximo, e torna-se uma abstracção de um organismo auto-suficiente. Assim, o primado biológico, materialista, superioriza-se ao imago dei e ultrapassa a última fronteira do indivíduo, terminando na autofagia desse organismo colectivo abstracto. Esta é uma narrativa que parece inspirada no falhanço de sistemas colectivistas de organização da sociedade, sistemas que terminaram, de facto e naturalmente, em casos de canibalismo.[3]

O estilo sobredramático de Heston[4] adequa-se à situação marginal dos protagonistas que interpreta; aproximando-se do kitsch, a sua autenticidade prevalece porque sustentada pela forte posição ética das personagens e pela premissa narrativa original e sólida de cada um dos filmes. A trilogia acaba então por retratar a posição ética que agrega a persona pública de Heston e a sua identidade política. Essa ética é conservadora, por partilhar o cepticismo quanto à mudança social, mas ao mesmo tempo conceber o homem como imagem de um ethos superior; é republicana, porque o ideal de civilização que representa é distante do totalitarismo colectivista e próximo da razão individual, dirigindo o mesmo desprezo à corrupção da civilização e ao barbarismo; e é individualista, porque é no indivíduo que se alicerçam os sistemas que organizam a sua vida social, ao contrário da madhouse colectivista que Heston descreve em Apes. Assim, para o herói que Heston personifica, a unidade basilar da civilização é o indivíduo, não o Estado, a família, ou mesmo o divino. Contudo, o conceito de indivíduo em que se baseia provém de uma ligação ao divino, e assim o monoteísmo judaico-cristão de The Ten Commandments e Ben-Hur encontra um equivalente no absolutismo moral destas três personagens, constituindo a identidade ideológica e religiosa de Heston, que mais tarde se veio a tornar um porta-voz conservador de destaque, à semelhança de Reagan.

 

[1] Pierre Boulle. 1963. La Planète des Singes. Paris: Julliard.
[2] «Never trust anyone over 30», responde Heston a um jovem símio idealista com quem criou amizade.
[3] Tal ligação ficou inscrita na famosa expressão «comunistas que comem criancinhas», sendo evidente que os colectivismos nacionalistas do século xx teriam o mesmo destino caso tivessem tempo para se desenvolver. A esse propósito, é bom indicar o livro de Cătălin Avramescu, An Intellectual History of Cannibalism (Princeton, N.J: Princeton University Press, 2011), um excelente comentário ao tema.
[4] Além do estilo excessivamente expressivo, próprio das artes de palco, de Heston, algumas cenas tornaram-se memoráveis pelo encaixe perfeito entre a sua expressão e os momentos de clímax em que decorrem, como «Soylent green is people!», ou, em Apes, «It’s a madhouse! A madhouse!», «Take your stinking paws off me!», e ainda «Damn you all to hell!»