Telmo Rodrigues

 

There’s a Riot Going On, último disco dos Yo La Tengo, terá em grande medida passado despercebido. O facto podia ser ponto de ataque de várias diatribes sobre a indústria musical e a maneira como se consome música hoje em dia, mas isso obrigaria a que se deixasse escapar uma conformidade óbvia entre forma e conteúdo: o disco é tão discreto que a sua existência recatada pode ser justamente apelidada de justiça poética.

Ao contrário do que o título indica, as canções que compõem o disco não parecem indicar a convulsão de um motim. O título é retirado de um disco dos Sly and the Family, datado de 1971. Nesse, as canções reflectem de forma evidente uma certa turbulência pela qual passava a sociedade americana desse período. Neste de 2018, a política parece não ter relevância e o disco não pressupõe qualquer tipo de intervenção social. Poderíamos então considerar que, não sendo político, o título se poderia referir a uma qualquer agitação musical, a uma mudança drástica na produção musical. No entanto, as canções seguem-se umas às outras sem que quase o reparemos.

Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew, o trio que forma a banda desde o início dos anos noventa, atingiram um estado de depuração musical em que conseguem aguentar um disco inteiro sem que notemos dissonâncias de espécie alguma. A energia que esperamos num disco, ou que nos foi dita ser crucial num bom disco, está aqui em falta, e essa será uma das razões óbvias para que tenha passado despercebido: muitos não terão resistido à aparente monotonia de uma primeira audição. Dificilmente este figurará entre as melhores obras da banda, mas o tempo concede benesses que recompensam.

Por exemplo, com o tempo reparamos que tudo o que sempre associámos à banda está aqui, das canções pop («For You Too») à experimentação («Dream Dream Away»). Há uma arte na maneira como conseguem que todas estas variações se intercalem sem que se desarticulem, sem que reparemos nelas. O virtuosismo que permite isto é o mesmo que permitiu todas as dissonâncias enérgicas no passado, mas aqui refinado e sob controlo absoluto. E se podemos sentir a falta dessa espécie de rebeldia e insubmissão numa primeira audição, será certamente difícil não as reconhecer depois de audições mais atentas.

Por causa da aparente monotonia, alguns críticos tomaram como irónica a relação entre o disco de Sly and the Family e este, nomeadamente por o antecessor ser uma reacção musical a tempos política e socialmente conturbados. Nas críticas passam duas ideias muito pertinentes, embora contraditórias: que a ironia reside em fazer a ponte entre os anos setenta e a América pós-Trump, assumindo que estamos num período tão difícil como aquele em que os Sly and the Family produziram a sua obra e mostrando uma maneira diferente de reagir; ou, noutra leitura, que esta é a forma correcta de reagir, produzindo aquilo que um crítico definia com um bálsamo para tempos agitados. Ambas as leituras reconhecem à música um papel activo de, respectivamente, denúncia e intervenção social; ignoram, no entanto, a possibilidade muito plausível de a música não ter na maioria dos casos nenhuma dessas utilidades.

A referência do título não será de todo fútil e há vários momentos em que se verbalizam posições críticas acerca da situação que se vive nos Estados Unidos. Em «Here You Are», canta-se «We are out of words / We’re out of time / Believe the worst», para depois se dizer que há «Darkness without dawn» e, ainda, que «Most days, we circumvent / Tune out the world»; em «Forever», canta-se: «Laugh away the bad times / Lie about what’s to come / The less said, the better / Let's drink until we're dumb». Estes exemplos servirão, sem grande necessidade de exegese, para demonstrar que a relação entre o que se passa no disco e o que se passa no exterior não é inócua, apesar de as canções continuarem a soar como se estivessem completamente afastadas do contexto social em que são escritas.

Olhando para a variedade que se esconde no disco, para a maneira como as canções tocam em quase todos os aspectos que tornaram a banda reconhecida, surge uma terceira possibilidade de leitura: a de dizer que este é só mais outro disco e que continuar a fazer o que sempre se fez é a reacção correcta às preocupações sociais que nos rodeiam. Talvez seja por isso que «Polynesia #1» soe como o momento mais dissonante. Essa dissonância pode decorrer do próprio vocábulo, ou do facto de ser uma versão (de Michael Hurley) que os Yo La Tengo transformam noutra canção que podia pertencer facilmente ao seu catálogo (pode também ser só uma impressão, mas ela está lá, saliente). Nesta canção pop melodiosa, Georgia canta indolentemente «I'm going / To Polynesia / I'm going / At my leisure», o que parece implicar mais uma vez a dissociação entre canções e condições sociais: porque haveríamos de viajar para a Polinésia numa altura destas? Mas depois ouvimos:

 

There ain't nobody
Who got to tell me
How I
Take my liberty

 

Não podemos deixar de considerar que a possibilidade de produzir, em tempos como os que se vivem, algo discreto e sem ambições histriónicas é, certamente, um feito admirável. Mas sobretudo temos de reconhecer que uma forma de rebelião pode ser continuarmos a viver como sempre vivemos. Não precisamos do histerismo implícito na ideia de rebeldia para nos rebelarmos e, ao fim de mais de trinta anos a fazer música, talvez possamos tomar como acto de rebeldia a recusa em aceitar que nos toldem a independência, forçando-nos a reagir e reivindicar aquilo que já nos devia estar consagrado: a liberdade. Ora, um acto de luta pela liberdade e de resistência é não permitir que sejam outros a ditar aquilo que podemos ou não fazer, seja quando fazemos canções seja quando decidimos viajar para a Polinésia por recreação.