Joana Meirim

 

Nove fabulo, o mea vox / De novo falo, a meia voz, título do livro de Alberto Pimenta editado em 2016, sugere desde logo que alguém, que esteve em silêncio durante algum tempo, volta agora a falar, e que essa fala é a meia voz, uma voz menos audível, que parece ter perdido força. Significa isto que o poeta tem menos para dizer? Não, significa antes, como tentarei mostrar ao longo desta recensão, que o registo menos audível, mais melancólico e resignado se adequa aos tópicos que Alberto Pimenta elege como linhas de força deste seu livro de poemas: a passagem do tempo, o envelhecimento e a inevitabilidade da morte.

É num texto já perto do final do livro que encontramos uma chave possível para a leitura do título deste volume de 32 poemas. Em «Gong», Alberto Pimenta assume que agora passa pela vida silenciosamente. A primeira estrofe deste poema é um dos muitos exemplos da perícia poética de Pimenta, sofisticada nas aliterações e no tratamento do tópico eleito. Sob o título sonoro de «Gong», o poeta diz que agora, enquanto passa pela vida e ainda vive, tudo faz para que seja o mais silenciosamente possível, sabendo contudo que nem sempre foi assim. Esta ideia de passagem silenciosa pela vida não está longe da passagem discreta de Alberto Pimenta pela cena literária portuguesa. Nesse sentido, a estrofe abaixo também poderia ser lida como epítome do seu percurso pela história da poesia portuguesa.

 

Gong
Passo tão silenciosamente quanto posso.
Nem sempre
foi assim,
mas agora,
que ainda passo,
passo silenciosamente
tanto quanto posso.

 

O silêncio tem neste livro de Pimenta um duplo sentido: por um lado, é tempo agora de passar sem ruído, porque a passagem do tempo leva a que a pessoa perca a força física até para falar; por outro lado, é muitas vezes pelo silêncio, pelo não dito, que o poeta constrói a sua poética de «revelar ocultando» (e aqui estamos próximos do seu argumento em O Silêncio dos Poetas). Este verso surge, primeiro, no poema «Percebo» e mais tarde, de forma lapidar, em «Tudo, Nada»: «Não sabes já que a poesia revela ocultando...»

Logo no primeiro poema do livro, o poeta confronta-nos, sem contemplações, com a passagem do tempo e a inevitabilidade da sua morte. «Antelogium» pode ser lido, como o título indica, como prelúdio de um livro que fala sobre o envelhecimento, sobre o declínio da vida e a aproximação da morte. No final da vida, o poeta conhece uma pessoa para quem o tempo ainda se está a «formar», ainda está a nascer e a criar-se, por oposição ao verbo «passar», no sentido em que é já um tempo que se gasta e se esgota, que caracteriza a relação do tempo com o poeta: «Em ti vejo o tempo / continuamente formar-se / e em mim / vejo-o passar». A verdade é que este encontro com o «tu» está condenado a durar pouco, porque pode, no máximo, contribuir para adiar um pouco o fim inevitável do poeta. Como noutros poemas, o poeta assume desde logo a derrota e caminha para «o escuro, / o vazio, / nada». O horror do vazio e da desolação levam o poeta a pensar se não vale a pena ser o próprio a cumprir a função das Parcas — «Já não sei / ou ainda não sei / se me apetecerá / ou até / se saberei ou poderei / apressar / o fim dos fins, / cortando eu o resto do fio», acabando, no entanto, por deixar que seja o acaso, que não há-de falhar, a decidir o final dos seus dias: «Como sempre, / tudo chegará, / na ocasião de chegar. / Sem dúvida / tudo chegará: o tempo / que em ti há-de continuar / a formar-se, / que em mim / irrevogavelmente, / está a acabar».

O poema «Percebo» prossegue o anterior, e o tempo é novamente protagonista. Sob o tópico clássico do tempus fugit, e servindo-se da figura do relógio, este poema assinala a presença constante do tempo, que passa «mas está sempre presente». À semelhança de «Antelogium», o poeta sublinha a desigualdade de circunstâncias entre o seu tempo e o tempo do «tu» a quem se dirige, novamente assinalando a diferença entre «formar-se» e «passar», desvelando ainda o ludíbrio dos ponteiros do relógio: «embora eu o veja em ti / formar-se / e em mim passar, / não vai simplesmente / de mim para ti, / nem vem de ti para mim, / nem é sempre à roda / como fazem crer / os ponteiros do relógio / que são simbólicos / e nessa medida ilusórios». Mais à frente, falando do movimento do tempo, diz-nos que, «embora em fuga, está / sempre a ver-nos / e a ouvir-nos» e reencontramo-lo sempre como a um «velho conhecido»:

 

Percebemos só
quando de súbito
ele vem por trás, ou
às vezes de frente
e nos abraça
com uma palmada
como um velho conhecido, dizendo:
«Xeque!»
Nem sempre ouvimos,
mas sentimos sempre.

 

A referência ao jogo de xadrez é depois retomada, quando o poeta reformula a passagem famosa de Einstein — «Deus / não joga aos dados» — para «Ele joga xadrez / no mesmo tabuleiro / simultaneamente / com as brancas / e com as pretas». Já no final deste poema, o poeta confessa que não ambiciona qualquer tipo de vitória ou superação da sua condição temporal num eventual jogo contra o tempo: «mas jogar não jogo, / sou eu um joguete, e basta; / também a vitória / não me seduz, / é um foguete de lágrimas / a desfazer-se no céu, / e, para perder, diante do tempo, / não é preciso jogar». A derrota perante o tempo é inevitável, faz parte da condição humana, «basta ter nascido».  

O poema «Espelho...Nosso?» é uma reflexão angustiada sobre a consequência inevitável da passagem do tempo, o facto de deixarmos de existir. O poeta, apavorado, depara-se com a sua imagem reflectida no espelho e questiona a descoincidência entre o que está reflectido e o que vê no espelho: «Como um relâmpago / que ilumina e cega / sem aviso do trovão, / olho para o espelho / e sai de lá a cara doutro... // Não está imóvel, / oscila com a minha em fundo / e, às vezes, / juntam-se as duas / numa terceira / informe / Dá medo.» Segue-se a este primeiro momento um excurso ecfrástico: a descrição do sarcófago de Larthia Seianti interessa sobretudo como convite à reflexão sobre o tópico sempre presente ao longo deste livro, a iminência da morte. O próprio poeta dá conta desse «desvio» reflexivo e corrige-o.

 

Então
no sarcófago de Larthia Seianti,
coisa de dois séculos
antes desta era,
ela, reclinada
com o seu cinto de ouro
e pontas
que ainda se vislumbra
serem azuis,
compõe o véu com a direita,
para que se veja bem o rosto,
e segura na esquerda
um grande e belo espelho redondo...
Mas não era disso
que eu queria falar.
 

O poeta não quer prolongar a descrição do sarcófago, mas este túmulo é pretexto para a meditação temerária que empreende: o receio de um dia deixarmos de existir. O medo do que vê no espelho é também o da morte, um medo «que entorpece / e lentamente aniquila». A voz que está presente em vários poemas deste livro, e que vem assinalada com um tipo de letra diferente, parece funcionar ora como alter-ego, ora como coro da tragédia, interpelando o poeta e comentando as suas observações. Neste poema, esta voz diz que todos os seres humanos sofrem deste mesmo terror e reagem de diferentes maneiras: «Ou vão viajar. / Conhecem gente diferente, / outros, enfim... compram um espelho... / e quando voltam / habituam-se de novo ao espelho, / ou ao novo espelho. / Até ele deixar de estar na mão deles...» E de novo o poeta intervém corrigindo a sua interlocutora e chamando a atenção para a questão principal do poema: não é o espelho que desaparece, mas sim a mão que segura o espelho; é a sua (nossa) existência que tem um fim à vista.

 

Não é o espelho que deixa de estar
na mão deles,
é a mão deles
que deixa de estar no espelho,
deixa de estar,
simplesmente.

 

O poema «Eternamente» conta-nos que «em relógios antigos, / como o da velha câmara de Praga, / quem anunciava cada hora / era o galo, / precedido pela figura da morte». Descrevendo a figura romântica do cuco, que substitui a do galo no anúncio das horas, o poeta dá particular atenção àquilo que não mudou: o anúncio das horas, a actividade do relógio, presente noutros poemas deste livro, reveste-se sempre de tragicidade, porque significa sempre a antecipação da ideia de morte.

À semelhança de outros momentos da sua obra, mas numa dicção mais contida, Alberto Pimenta continua a interpelar a realidade social e política do seu tempo. No caso particular deste livro, a interpelação acaba por ser sempre uma forma de retomar a linha de força da maioria dos poemas, nomeadamente o tópico da passagem do tempo e a solidão que parece decorrer do envelhecimento.

No poema «Nada falta», por exemplo, o lamento pela extinção do trabalho d0 amolador é o lamento pela morte, pelo fim de alguma coisa importante, anunciado pela tormenta: a «antiquíssima flauta / do amolador» está «prestes a morrer». Um outro poema tem o título irónico de «Beau Monde», porque o hotel homónimo deste texto, a ser construído perto da casa do poeta, elimina o que de beau monde havia ao seu redor: «Obras gigantes / para um hotel também gigante, / há meses a acrescentar / andares sobre andares, / onde eram jardins / e grandes árvores / e uma vivenda do século XIX». A verdade cruel deste poema é que o beau monde-hotel sabota o beau monde do poeta, que agora já só é abandono e desolação: «Até os gatos se foram embora. // Tanto abandono / à minha volta».

Em poemas sobre os meios de comunicação social — a televisão, a internet, as redes sociais são há muito alvos da crítica contundente de Alberto Pimenta —, o poeta profetizou muitos dos seus efeitos negativos. Em «Art in», por exemplo, dá conta da sua aversão ao mundo das tecnologias. Assinalando quase sempre o poder violento e o carácter pidesco que as tecnologias exercem sobre o ser humano, o poeta chama também a atenção para o facto de ir sozinho num transporte público cheio de gente agarrada ao telemóvel, e quando pergunta o preço do aparelho fica sempre — e este advérbio é aqui desolador — sem resposta: «Bom, quem está junto de mim, / num espaço cheio de gente, / como um transporte público, deve notar, / aponta o aparelhinho aos meus lábios: clic! // Quanto é? / pergunto eu. // Fico sempre sem resposta, / e o aparelhinho, / veloz, como possuidor de alma, / muda de posição / e de objectivo».

A verdade é que, mesmo em poemas de feição mais marcadamente política, desde «Entre a Morte e o Norte», sobre a crise dos refugiados e os projectos gorados da União Europeia, até ao desemprego e a violência do mercado financeiro (em «Quem?», por exemplo), temas recorrentes na produção poética de Alberto Pimenta, a linha de força deste livro mantém-se e a dicção eleita, a meia voz, a ela se adequa plenamente. Nove fabulo, o mea vox / De novo falo, a meia voz propõe-nos a leitura de meditações sobre a angústia de um dia, a que não se escapa, já não estarmos nesta vida nem neste mundo.