Joana Graça

 

Tal como na poesia, este livro divide a nossa atenção entre o conteúdo e a forma. John Berger constrói um romance com linhas simples, elípticas e quase talismânicas. Apesar da aparente narrativa simples — em que as personagens surgem elipticamente para nos contar as suas histórias —, o romance possui uma atmosfera particular e densa, obrigando-nos a parar e a desfrutar deste stimmung particular de Para o Casamento. A história é sobre Ninon e Gino, um jovem casal de apaixonados que irão casar, apesar de Ninon ter sido diagnosticada com uma doença terminal. Ao invés de trágica, a história rejuvenesce o espírito. Trata-se de um romance sobre a transitoriedade da vida, sobre como coisas terríveis acontecem a pessoas inocentes, mas, sobretudo, como tudo por momentos pode ser eclipsado pelo mais singelo dos sentimentos: a ternura.

A história não pertence exclusivamente a Ninon e Gino, sendo que duas outras personagens, em particular, impulsionam a narrativa: Jean e Zdena, o pai e a mãe de Ninon, que viajam separadamente pela Europa para o casamento da filha. Jean, um trabalhador ferroviário francês, decide viajar na sua moto atravessando os Alpes até ao vale do Pó — sítio onde ocorrerá o casamento —, e Zdena, uma cientista, parte da Checoslováquia de comboio. O pai de Ninon dá-nos conta da liberdade que é viajar de moto, da beleza das paisagens e da solidão do percurso que, irremediavelmente, o leva a confrontar os próprios sentimentos. Por outro lado, pelos olhos de Zdena observamos uma mulher agora em profundo sofrimento. Viaja por uma Europa pós-Guerra Fria, que lhe é desconhecida, onde tudo aquilo que ela julgava serem verdades incontestáveis revelam-se agora memórias do passado.

Dada a narrativa elíptica, são-nos simultaneamente apresentados momentos da relação de Ninon e Gino. É-nos contada a sua história: o primeiro encontro, como se apaixonam, o diagnóstico de Ninon e a reacção de ambos a este. Perante a tragédia da sua condição, Ninon decide afastar-se de Gino, uma vez que agora tudo parece tornar-se irremediavelmente doloroso e despropositado — como amar e entregar-se a alguém:

 

O dom de me dar foi tirado. Se me oferecer, ofereço a morte. Sempre, até ao dia em que morrer. Quando ando pela rua e os ragazzi olham para mim, fazem-me lembrar como sou sempre morte. (p. 66)

 

Contudo, quando confrontado com a notícia da doença de Ninon, Gino toma uma decisão surpreendente: pede-a em casamento. Este recusa-se a abandoná-la e convence-a, apesar das suas resistências, a prosseguir com o casamento.

Esta pluralidade de vozes chega até nós por meio de um narrador particular, um vendedor cego, Tsobanakos. Este frequenta o mercado de Plaka, o bairro histórico de Antenas, onde vende tamata — amuletos que trazem boa sorte àqueles que os usam. O velho vendedor ouve vozes que flutuam e chegam até ele de lugares distantes, e é por intermédio dele que nos chegam as vozes de Ninon, Jean e Zdena É ele que imagina e pressente o início desta história quando Jean o aborda procurando um amuleto para a filha:

 

Um homem perguntou-me se eu tinha alguma coisa para uma filha. Falava um inglês arrevessado.
Bebé? Inquiri.
Já é mulher.
De que sofre? perguntei.
De tudo, respondeu ele. (p. 9)

 

Também Tsobanakos ouve outra voz. Ele apercebe-se de que a filha de Jean, Ninon, juntou-se à conversa vinda de outra parte do mercado. Ela comprara um par de sandálias e o vendedor ouve-a dizer:

 

As minhas sandálias novas – olha! Feitas à mão. Ninguém imaginaria que acabo de as comprar. Podia estar a usá-las há anos. Talvez as tivesse comprado para o meu casamento, aquele que nunca aconteceu. (p. 9)

 

Esta passagem, que ocorre logo no início do livro, revela-nos que os eventos que Tsobanakos irá relatar ao longo de todo o romance poderão nunca ter acontecido. E, por isso, se a sua narração culmina numa celebração de casamento que Ninon nos revela — na primeira pessoa — nunca ter ocorrido, a narrativa deste vendedor parece oferecer uma realidade alternativa onde o jovem casal efectivamente se casa. A celebração do casamento torna-se o clímax por excelência, o fim que deveria ter acontecido na realidade mas que nunca se materializou. Assim, e à semelhança do quadro de Bruegel The Wedding Dance, Berger pinta uma celebração impregnada de detalhes sumptuosos e cores vivas, bem como a felicidade e a esperança de um dia que poderia continuar para sempre:

 

Que vamos fazer antes da eternidade?
Aproveitar.
Dançar sem sapatos?
Ninon atira os sapatos para fora da plataforma. Depois, arregaçando as mangas e estendendo discretamente o vestido à roda dela, senta-se e mete os braços debaixo da saia para desapertar as meias e desenrolá-las ao longo das pernas. E depois disto, sem música, dança descalça sobre as tábuas que as mulheres dos pescadores de Comacchio esfregaram tantas vezes que a madeira ficou macia como o tampo de uma mesa. A dançar assim, Ninon é mais uma vagabunda do que uma noiva. (p. 153)

 

Como nas tragédias gregas, John Berger não nos pretende ocultar a realidade de como tudo irá terminar — e, por isso, não se esforça por ocultar a dimensão marcadamente fictícia da história que Tsobanakos nos narra, revelando desde cedo aquilo que parece ser a sua intenção: a de que as palavras possuem um poder particular. As histórias que contamos, os poemas que cantamos para imaginar realidades diferentes, serão sempre as verdadeiras tamas, estas impregnadas de ternura e humanidade e não feitas de estanho ou de ouro. Como o narrador nos diz no fim do seu livro:

 

Era precisa outra tama, feita desta vez não de lata, mas de vozes. Aqui está. Põe-na junto da vela quando rezares... (p. 158)
 

Logo, Para o Casamento é a tama por excelência que cura, pelo poder da compaixão, todos os males. Uma peregrinação, uma cerimónia e uma coreografia que culmina numa dança de casamento onde o amor e a vida desafiam a morte. Um livro que nos oferece esperança, celebrando a força das palavras como as verdadeiras e únicas justiceiras. Um romance onde Berger, através da sua escrita minimalista, das suas observações agudas, da sua profunda humanidade, desta pluralidade de vozes e, em particular, deste narrador cego que vê mais do que qualquer homem, celebra o significado da vida, tantas vezes ameaçado pelo tempo.