267. João Paulo Esteves da Silva, País Distante

267. João Paulo Esteves da Silva, País Distante

Sofia A. Carvalho

Numa escuta activa as perguntas iniciais irrompem de modo espontâneo e desdobram-se numa série imprevista, a partir da qual a luz pode crescer: o que é a distância? Uma ilusão dos corpos, como cantado por Teixeira de Pascoaes? Uma realidade que se define e singulariza? Um espaço habitado por um som em progressão? Um corpo atravessado por sensações? Uma Serra sem Fim a convocar um País Distante? «Phantasmas do passado! Encantadas vizões», como grafado por António Nobre na «Carta a Manoel»? Uma invenção do início? Um começar que se repete? Um paradoxo?

266. Emmanuel Bove, Mes Amis

266. Emmanuel Bove, Mes Amis

Matteo Pupillo

O escritor francês Emmanuel Bove (Paris, 1898 – 1945) estreou-se na ficção com o romance Mes Amis (1924). As temáticas que atravessam estas (quase) duzentas páginas – a solidão, a busca de si e de um lugar onde se possa ser e existir plenamente, a espera de algo que jamais chegará (antecipando um motivo posteriormente associado ao universo beckettiano), enquanto se deambula pela cidade de Paris – inscrevem, na nossa leitura, esta obra no filão existencialista. Tal enquadramento não é, aliás, periodologicamente controverso, tendo em conta que o autor viveu num contexto histórico marcado pelas duas Guerras Mundiais.

265. Mariam Montero, Yo soy una denuncia

265. Mariam Montero, Yo soy una denuncia

Marana Borges

A faxineira entra em cena de cabelo curto, calça moletom, camiseta velha e tênis. Na mão, empurra um aspirador de pó sem fio da nova geração, estilo vassoura. Em movimentos lineares e ininterruptos, ela vai e volta por toda a extensão do palco vazio. Da esquerda à direita, da direita à esquerda, avança, recua e avança, enquanto o aparato ruidoso e moderno limpa cada rincão vazio.

264. Zachary Leader, Ellmann's Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker

264. Zachary Leader, Ellmann's Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker

Maria Rita Furtado

Zachary Leader (professor emérito da Universidade de Roehampton e biógrafo de Saul Bellow e Kingsley Amis) publicou, em 2025, Ellmann’s Joyce: The Biography of a Masterpiece and Its Maker. Lendo o título completo, percebemos que além de o livro de Leader ser sobre o biógrafo Richard Ellmann, é também sobre a grande biografia que Ellmann escreveu, a saber, a de James Joyce, intitulada, precisamente, James Joyce (1959). Contudo, se por um lado a promessa feita pelo subtítulo (de que leremos «a biografia de uma obra-prima e de quem a fez») é não só cumprida, mas ultrapassada — uma vez que além de nos pôr a par de muitíssimos factos acerca da vida de Richard Ellmann, daquilo que o levou à escrita da biografia de James Joyce e do processo de escrita em si, Leader discute, por exemplo, questões relativas ao que constitui uma biografia e em que consiste a vida de um académico bem-sucedido —, por outro, fica parcialmente por cumprir, já que pouco nos é dito acerca da história de Ellmann depois da publicação da sua grande obra.

263. Rui Lage (selecção e ensaio), Adeus, Campos Felizes — Antologia do Campo na Poesia Portuguesa do Século XIII ao Século XXI

263. Rui Lage (selecção e ensaio), Adeus, Campos Felizes — Antologia do Campo na Poesia Portuguesa do Século XIII ao Século XXI

Hugo Miguel Santos

No prefácio ao primeiro volume de Poesia Italiana del Novecento (1969), Edoardo Sanguineti descreve a antologia como um género literário anfíbio «que oscila naturalmente entre o museu e o manifesto», convidando o leitor a «percorrer a galeria das suas salas ordenadas», sem nunca deixar de propor «uma linha de investigação, não só crítica como operativa, a partir da qual organiza o todo».

262. Alan S. Kahan, Freedom from Fear: An Incomplete History of Liberalism

262. Alan S. Kahan, Freedom from Fear: An Incomplete History of Liberalism

Filipe Marques Fernandes

Quem tem medo não é livre. Esta afirmação constitui o ponto de partida da definição de liberalismo proposta por Alan S. Kahan em Freedom from Fear. A uma vida livre de medo, o historiador aliou a esperança no futuro: eis o pai e a mãe do liberalismo; mas o entendimento de que as comunidades políticas vivem fundamentalmente na intersecção destas duas inquietações suscita algumas perguntas, por exemplo: medo de quê? Esperança em quê? Kahan dá-nos a conhecer as suas respostas nesta obra de síntese. Ao fazer uma história intelectual da unidade, diversidade e evolução dos liberalismos históricos, o autor assume também a ambição de reorientar o debate sobre esta tradição política, nortear os seus defensores e esclarecer os seus críticos, com a consciência de que o «ismo» da liberdade significa (cada vez mais) muitas coisas distintas para muitas pessoas diferentes.

261. Carminho, Eu vou Morrer de Amor ou Resistir

261. Carminho, Eu vou Morrer de Amor ou Resistir

José Álvaro Ruas

Ao longo do deserto tímbrico que habitamos, é um alívio ouvir este álbum. Já muito se escreveu sobre Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir e muito bem, mas no geral a autora continua a ser a melhor crítica. É uma obra completíssima e que abre caminhos: leva-nos a ouvir outros artistas, a conhecer novos velhos instrumentos, a perceber porque é que na primeira faixa a sua contra-voz só dura 7 segundos, a explorar mais a história do Fado, e mais. Mas focar-me-ei em apenas dois pontos. O primeiro é a tentativa de perceber qual é a receita do disco, o segundo é uma investigação arriscada sobre a temática do álbum a partir da crítica de alguns dos poemas.