Pedro Tiago Ferreira
In Under the Dome, a long and thrilling book, Stephen King caricaturises several problems which are transversal to all human societies. The environmental question posed by the greenhouse effect, the economic problem of scarcity of resources, the crumbling of law and justice before rhetorical demagogy, which is connected to the perversion of political power for personal rather than public use, are some of the issues King cleverly engages in this well-written and well-structured novel.
Telmo Rodrigues
Numa das trinta crónicas que compõem o livro A Ganhar ou a Perder, descrevendo um lance que se passa perto da baliza do topo norte do estádio de Alvalade, Mário Lopes afirma que «desde a bancada sul, não se percebe nada do que se passa» (p. 99). A afirmação é verdadeira e posso confirmá-la pelo simples facto de também eu me sentar nessa bancada, tão longínqua da «baliza pequena», nome usado por oposição à «baliza grande», aquela que fica junto ao topo sul, onde estão as claques do Sporting Clube de Portugal, e onde tanto eu como o autor nos sentamos quinzenalmente (num mundo ideal) para ver o nosso clube jogar.
Rodrigo Almeida e Sousa
Não deve ser só impressão minha. Lembro-me de ver, na velha estante do meu avô, o Discurso do Método assinado por «Renato» Descartes e sentir de imediato a ironia a correr-me nos axónios. Corrijam-me se estiver errado, mas parece-me que não sou o único a, no mínimo, sorrir ante traduções literais de nomes, terriolas, negócios locais, ou comidas. Existe, porém, uma grande diferença entre o filósofo francês e as personagens de Louis C.K.: enquanto René não é de todo um «Renato», Horace e Pete são efectivamente, ou quase, um «Horácio» e um «Pedro». Embora «Horácio» não seja por cá muito frequente, nem porventura tradicional, não deixa de soar à antiga; quanto a «Pedro», corresponde na perfeição às características pretendidas.
Pedro Tiago Ferreira
Paul Eggert sums up Securing the Past by stating that it “is the first book to bring the arts of restoration together to examine their linked, underlying philosophies.” (p. 9) The arts of restoration to which Eggert alludes encompass what is done in the field of Art lato sensu, which includes, as the subtitle of Securing the Past makes clear, Architecture and Literature, besides Art stricto sensu. I shall use the term “Art,” in this review, in its restricted sense to mean painting and sculpture, as these are the art forms with which Eggert is mainly concerned.
João Pedro Vala
Antes de lermos o terceiro volume da trilogia que Marylinne Robinson agora conclui tudo o que sabíamos acerca de Lila era apenas que tinha criado uma certa empatia com Jack, o filho pródigo do reverendo Robert Boughton, e que se casara com o pastor John Ames, depois de, num dia de chuva em que “there was no other doorway for her to step into” (página 11), ter entrado na Igreja onde Ames pregava. A narrativa desloca-se assim para o lado e alternadamente para a frente e para trás, contando-nos não só a história de Lila e John Ames mas também o que se passou com Lila antes de chegar a Gilead.
Elizabete M. de Sousa
Comecemos por uma brevíssima contextualização dos dois mais recentes livros de Pedro Mexia na sua variada produção. Biblioteca é o sexto livro de crónicas desde 2006, dos publicados em Portugal, e reúne sessenta e cinco crónicas inicialmente saídas em dois jornais, Público e Expresso, entre Março de 2008 e Março de 2015. É pois de assinalar que este volume inclui textos cuja génese será contemporânea de cinco dos seis livros de crónicas anteriormente editados.
Marana Borges
Ele dorme. A pouca luz que escapa quarto adentro basta para anunciar o dia, entorná-lo sobre as suas costas de garoto, insinuar na cintura a beleza oblíqua da adolescência. Todo o filme é essa pintura de um verão passado às sombras. Porque faz calor; é preciso salvar-se. Mas também é preciso salvar-se dos outros, e a penumbra é a que melhor alberga as formas, os corpos, os medos.
Helena Carneiro
Aceitar o que nos acontece não nos exime de responsabilidade; o truque está em percebermos que quaisquer que sejam os termos definidos, esses mudam no decurso do que vamos vivendo. As tentativas de equilíbrio e controlo que fazemos são para lidar com o que inevitavelmente teve de ser deixado para trás e com o que inevitavelmente nos deixou para trás. Munro sabe que não há acordos possíveis com o universo, apenas connosco.
Ana Ferraria
Il cavaliere inesistente, publicado em 1958, é o último volume da trilogia de Italo Calvino, trilogia essa que o autor reeditará, em 1960, com o título Os Nossos Antepassados (I nostri antenati), e com a qual pretende fazer despertar no homem contemporâneo do pós Segunda Guerra Mundial a consciência da raiz dos seus problemas. Calvino irá criar personagens e situações que lhe possibilitem levar ao extremo as dificuldades que pretende tratar
João Oliveira Duarte
Em Proust et les signes, Gilles Deleuze começa por afirmar, na topologia que faz dos diversos tipos de signos, a superioridade do ciúme em relação ao amor. Não apenas, afirma ele, “o ciúme é mais profundo” como, além disso, “ele contém a verdade do amor”. É o primeiro que confere ao segundo todo o seu peso, que abre neste a sua dimensão de pesquisa obstinada, que lhe revela toda a sua Paixão, que cria o signo amoroso. Se partirmos da já antiga proposição segundo a qual a verdade do amor deve ser interrogada do lado do amante e não do amado, encontramos no ciúme um limite que implica uma reversão da mesma. Neste, não é o amante que se limita a observar, a olhar, a interrogar, mas é a própria “paisagem” que nos olha e observa, que nos provoca.
Telmo Rodrigues
O primeiro livro de prosa do poeta Ben Lerner, Leaving the Atocha Station, recebeu, de forma geral, críticas muito positivas. Entre as várias questões levantadas nessas críticas, amais abordada foi a maneira como a relação óbvia entre o narrador, Adam Gordon, e o próprio autor se dilui através da bonomia que marca a ficção. O bom humor confere à história uma nota de liberdade que não seria expectável quando os factos descritos são tão claramente autobiográficos, sendo que os críticos destacaram muitas vezes o desprendimento do autor face à personagem Adam, que é declaradamente, em muitos momentos, reflexo de si próprio.
Ana Ferraria
À saída da projecção do mais recente filme de Alexandre Sokourov, Francofonia – O Louvre sob ocupação, durante a última edição do Lisbon Estoril Film Festival, dois desconhecidos pretenderam sondar a minha opinião acerca do mesmo. Segundo estes, Francofonia debruçava-se sobre tudo menos a francofonia (região linguística de língua francesa) e o seu título tratava-se, por isso, de propaganda enganosa. De acordo: este filme não tem como tema a cultura francesa e muito menos a sua língua.
Ana Margarida Ferraria
Depois de Image, Icône, Économie (1977) e Le Commerce des Regards (2003), a filósofa francesa Marie-José Mondzain prossegue, em Homo Spectator, o seu estudo sobre a história da iconoclastia e da construção de imagens enquanto marca da distinção entre o homem e os restantes animais. Especialista no período bizantino, com um conhecimento profundo dos textos antigos, Mondzain recorre ao seu vasto saber académico para escrutinar o papel contemporâneo da imagem e a sua relação com o sujeito.
Ana Cláudia Santos
Muito do que se tem escrito sobre Elena Ferrante conflui, mais cedo ou mais tarde, em reflexões acerca da natureza da ficção e das contaminações necessárias entre os géneros do romance e da autobiografia. Tal não se deve apenas ao facto de “Elena Ferrante” ser um pseudónimo e de a autora que assina com esse nome se recusar a dar uma cara e uma identidade ao nome; todos os seus livros até à data são protagonizados e narrados por mulheres que apresentam entre si vários pontos de contacto.
Alexandre Andrade
Poucas vezes a decisão de baptizar um romance com o nome da personagem principal (algo em que Bellow foi reincidente) terá sido tão apropriada. Mais do que dominar Herzog de uma ponta à outra, Moses Elkanah Herzog é a única razão de ser do romance. A identificação de Herzog com o próprio autor é do mais explícito que se possa imaginar, a ponto de ser plausível admitir que Bellow pretendeu sufocar à nascença quaisquer especulações sobre a natureza autobiográfica da obra.
Telmo Rodrigues
Há muitos anos, uma pessoa muito estúpida perguntou-me se eu «agora» só lia coisas em inglês. A pergunta surgiu no contexto de uma conversa banal sobre a relevância de artistas portugueses e terá tido origem no facto de eu ter sido apanhado a ler um livro em inglês (a trilogia do Roddy Doyle, provavelmente). A implicação era a de que agora, que dominava a língua inglesa ao ponto de ler uma coisa «grande» como um livro com três romances lá dentro, seria mais um dos que desbaratam toda a arte que se produz em Portugal com tanto afinco e tanto suor. Ainda hoje me orgulho do impropério que atirei à pessoa em causa, um registo de imaturidade linguística mas de alguma maturidade intelectual.
Ana Margarida Ferraria
No segundo volume da trilogia Os Nossos Antepassados (I Nostri Antenati), O Barão Trepador (Il Barone Rampante), publicado originalmente em 1957, Italo Calvino substitui as temática da guerra e da alienação do homem, fundamentais para O Visconte Cortado ao Meio, por uma busca mais ampla e espiritual da individualidade humana. Para isso, o autor faz incidir toda a acção num período histórico preciso – entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX – e num espaço físico bem delineado.
João Pedro Vala
No segundo volume da trilogia acerca da vida em Gilead, Marilynne Robinson desloca o centro da acção de casa do pastor John Ames para a casa do reverendo Robert Boughton, tirando da sombra personagens que, em Gilead, permaneciam obscuras, ao mesmo tempo que prepara o volume final, ao adensar o mistério à volta de Lila, a mulher de John Ames.
Maria Rita Furtado
«What's your story? It's all in the telling. Stories are compasses and architecture (…) and to be without a story is to be lost.» (p. 4) Assim começa The Faraway Nearby (publicado em 2015 pela Quetzal com o título Esta Distante Proximidade), um dos livros mais recentes da escritora norte-americana Rebecca Solnit, que se apresenta como um mapa feito de histórias, através do qual a autora tenta guiar-se após uma série de acontecimentos que seriam capazes de interromper as histórias acerca de si própria e do mundo, pelas quais se regera até então: o Alzheimer da mãe, o fim de uma relação, a possibilidade de ter cancro. É preciso voltar a unir as pontas e fazer sentido de caminhos que parecem não levar a lado nenhum, e isso faz-se contando histórias e ligando-as umas às outras, ponto por ponto.
Ana Ferraria
Escrita durante as décadas de 1950 e 1960, a trilogia Os Nossos Antepassados (I Nostri Antenati), de Italo Calvino (1923-1985), reúne histórias sobre a realização de sonhos humanos e pretende desenhar “uma árvore genealógica dos antepassados do homem contemporâneo”, antepassados, esses, que juntam em si características de todas as pessoas comuns que o leitor vê à sua volta. De acordo com Italo Calvino, o homem contemporâneo– dividido, mutilado, incompleto e inimigo de si mesmo – havia perdido a sua harmonia clássica, mas ganhara, em compensação, uma complexidade moderna, tornando-se, portanto, um tema literário por excelência.