154. JOHN BERGER. 2018. PARA O CASAMENTO. LISBOA: RELÓGIO D’ÁGUA

154. JOHN BERGER. 2018. PARA O CASAMENTO. LISBOA: RELÓGIO D’ÁGUA

Joana Graça

Tal como na poesia, este livro divide a nossa atenção entre o conteúdo e a forma. John Berger constrói um romance com linhas simples, elípticas e quase talismânicas. Apesar da aparente narrativa simples — em que as personagens surgem elipticamente para nos contar as suas histórias —, o romance possui uma atmosfera particular e densa, obrigando-nos a parar e a desfrutar deste stimmung particular de Para o Casamento. A história é sobre Ninon e Gino, um jovem casal de apaixonados que irão casar, apesar de Ninon ter sido diagnosticada com uma doença terminal. Ao invés de trágica, a história rejuvenesce o espírito. Trata-se de um romance sobre a transitoriedade da vida, sobre como coisas terríveis acontecem a pessoas inocentes, mas, sobretudo, como tudo por momentos pode ser eclipsado pelo mais singelo dos sentimentos: a ternura.

153. Alberto Pimenta. 2016. Nove fabulo, o mea vox / De novo falo, a meia voz. Lisboa: Pianola 12.

153. Alberto Pimenta. 2016. Nove fabulo, o mea vox / De novo falo, a meia voz. Lisboa: Pianola 12.

Joana Meirim

Nove fabulo, o mea vox / De novo falo, a meia voz, título do livro de Alberto Pimenta editado em 2016, sugere desde logo que alguém, que esteve em silêncio durante algum tempo, volta agora a falar, e que essa fala é a meia voz, uma voz menos audível, que parece ter perdido força. Significa isto que o poeta tem menos para dizer? Não, significa antes, como tentarei mostrar ao longo desta recensão, que o registo menos audível, mais melancólico e resignado se adequa aos tópicos que Alberto Pimenta elege como linhas de força deste seu livro de poemas: a passagem do tempo, o envelhecimento e a inevitabilidade da morte.

152. Alasdair MacIntyre. 2016. Ethics in the Conflicts of Modernity. Cambridge: Cambridge University Press.

152. Alasdair MacIntyre. 2016. Ethics in the Conflicts of Modernity. Cambridge: Cambridge University Press.

Pedro Franco

Aristóteles, São Tomás de Aquino e Marx. Não os costumamos ver juntos à mesa, mas são estes os autores de referência de Alasdair MacIntyre, uma das figuras mais cativantes do actual panorama filosófico. MacIntyre faz parte de uma corrente heterodoxa da ética (moral philosophy) que a libertou de uma subjugação à filosofia da linguagem, fazendo-a florescer de novo, o que constitui, desde logo, um motivo de interesse para o ler. Tem sido também invariavelmente uma voz de minorias: escocês em Inglaterra e nos E.U.A., marxista no mundo capitalista e depois católico num mundo académico secular.

151. Yo La Tengo. 2018. There’s a Riot Going On. Matador.

151. Yo La Tengo. 2018. There’s a Riot Going On. Matador.

Telmo Rodrigues

There’s a Riot Going On, último disco dos Yo La Tengo, terá em grande medida passado despercebido. O facto podia ser ponto de ataque de várias diatribes sobre a indústria musical e a maneira como se consome música hoje em dia, mas isso obrigaria a que se deixasse escapar uma conformidade óbvia entre forma e conteúdo: o disco é tão discreto que a sua existência recatada pode ser justamente apelidada de justiça poética.

150. Planet of the Apes (1968), The Omega Man (1971), Soylent Green (1973).

150. Planet of the Apes (1968), The Omega Man (1971), Soylent Green (1973).

João N.S. Almeida

Grande parte da carreira cinematográfica de Charlton Heston assemelha-se a uma biografia ideológica, onde os filmes e a expressão da pessoa pública do actor acompanham a constituição da sua personalidade privada e das suas ideias morais e políticas. Nessa progressão, podemos encontrar uma fase de referência, na passagem da década de 60 para a década de 70, quando Heston participa em Planet of the Apes (1968), The Omega Man (1971), e Soylent Green (1973), uma trilogia não premeditada de dramas de ficção científica com uma temática conservadora, republicana, e individualista.

149. Fernando Sobral. 2017. Futebol, o Estádio Global. Lisboa: FFMS.

149. Fernando Sobral. 2017. Futebol, o Estádio Global. Lisboa: FFMS.

Telmo Rodrigues

Na sequência de uma crítica aos jogadores da equipa de futebol, o presidente do Sporting Clube de Portugal, Bruno de Carvalho, viu-se envolvido num conjunto de situações peculiares que incluíram uma resposta oficial por parte dos jogadores e uma contra-resposta em que o presidente garantia que as pessoas não o percebem e que, por isso, todos os jogadores seriam castigados. Duramente criticado por muitos sócios, o Presidente do Sporting afastou-se dos meios de divulgação noticiosa (oficiais e oficiosos). Depois de alguns dias de silêncio forçado, ansioso por responder ao que apelidara de ingratidão, dirigiu-se aos críticos num discurso no Núcleo do Sporting de Soure onde, entre outras coisas filosoficamente interessantes, afirmou: «Se para vocês basta existir e respirar, está bom.»

148. Elena Ferrante. 2016. Escombros. Trad. Margarida Periquito. Lisboa: Relógio D’Água.

148. Elena Ferrante. 2016. Escombros. Trad. Margarida Periquito. Lisboa: Relógio D’Água.

Jorge Uribe

Quando La frantumaglia, traduzido em Portugal pela Relógio D’Água com o título Escombros, foi publicado pela primeira vez, Elena Ferrante era um nome de escritora conhecido sobretudo em Itália. Corria o ano de 2003 e tinha dois romances publicados, ambos acerca de mulheres nascidas em Nápoles que enfrentavam experiências traumáticas — o suicídio da mãe e o divórcio, em cada caso. Essas experiências desafiam a autoperceção destas mulheres e submetem-nas a laboriosas viagens de reconhecimento e reconstrução. O estilo de Ferrante é inconfundível: ligeiro e rápido no fluxo narrativo; incisivo e autocomplacente no aprofundamento de emoções e imagens perturbadoras. Trata-se de uma mistura incomum de objetivismo irónico e intrusão melodramática, que tem cativado leitores no mundo inteiro.

147. Martin McDonagh. 2017. Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. EUA. 115 min.

147. Martin McDonagh. 2017. Three Billboards Outside Ebbing, Missouri. EUA. 115 min.

Nuno Amado

Um dos temas fortes de Three Billboards outside Ebbing, Missouri, o mais recente filme de Martin McDonagh, é o preconceito. O filme não é, contudo, sobre um preconceito particular. Não é stricto sensu sobre racismo, homofobia, misoginia ou demais manifestações de ódio e intolerância, mas sobre aquilo que lhes é comum. O que interessa mostrar não é uma das várias facetas da América, mas a América. Dito assim, parece pretensioso. Até porque, evidentemente, os problemas de um lugarejo no Missouri não são iguais aos problemas de outros lugarejos nem iguais aos problemas de uma grande metrópole. Não obstante, é perfeitamente possível que problemas diferentes procedam de causas comuns. A pequena cidade de Ebbing, estrategicamente situada no coração da América (foi no Missouri, em Ferguson, que em Agosto de 2014 o jovem Michael Brown foi baleado por um agente da polícia e morreu, e foi esse incidente que deu origem ao movimento «Black Lives Matter»), é por sinédoque a própria América.

146. GIORGIO BASSANI. 2014, 2016, 2017. THE SMELL OF HAY. WITHIN THE WALLS. BEHIND THE DOOR. TRAD. JAMIE McKENDRICK. LONDRES: PENGUIN.

146. GIORGIO BASSANI. 2014, 2016, 2017. THE SMELL OF HAY. WITHIN THE WALLS. BEHIND THE DOOR. TRAD. JAMIE McKENDRICK. LONDRES: PENGUIN.

Tatiana Faia

A escala da obra de Giorgio Bassani, autor de Ferrara, nascido em Bolonha em 1916, é bastante singular na história do romance europeu do século XX. Bassani é verdadeiramente o autor de uma obra monumental escrita numa escala menor: novelas breves sobre personagens aparentemente insignificantes, obras primas de vinte páginas, contos imortais sobre gente que nunca sai de casa ou sobre uma discussão entre esposos, ao conduzir um carro pela província, sobre que estrada tomar na viagem de regresso a Roma. É difícil explicar o que seja ao certo o triunfo deste escritor, mas algo na sua ficção é vital não só como documento do mundo em que vivemos, mas na representação de tensões mínimas, equilíbrios fugazes entre as pessoas, por regra ocorridos sob um contexto histórico opressivo, que têm o poder de moldar as suas vidas.

145. R. W. Fassbinder. 1979. Die Ehe Der Maria Braun. Alemanha. 120 min.

145. R. W. Fassbinder. 1979. Die Ehe Der Maria Braun. Alemanha. 120 min.

Gonçalo Gomes

Serão poucos os pontos altos da carreira de Fassbinder que apresentem um carácter tão incontornável quanto Die Ehe Der Maria Braun (O Casamento de Maria Braun), filmado entre Janeiro e Março de 1978 e exibido pela primeira vez, de forma não oficial, no Festival de Cannes nesse mesmo ano (onde estava também em competição Despair), numa estreia anterior à do Festival de Berlim, em Fevereiro de 1979. Maria Braun tornou-se no filme mais triunfante de Fassbinder, tanto crítica como comercialmente. Contabilizou milhões de Deutschmarks na bilheteira alemã, valores bastante altos nos Estados Unidos, e esteve durante um ano em exibição num cinema prestigiado em Paris. Além de tornar Fassbinder numa estrela internacional, Maria Braun tornou-se um dos filmes chave do Novo Cinema Alemão, no centro do círculo que se preocupava em dominar o passado nazi, para onde contribuíam, entre muitos outros, Margarethe Von Trotta, Jutta Brückner, Helma Sanders-Brahms, Volker Schlöndorff, Hans-Jürgen Syberberg e Wim Wenders. 

144. BARBARA PYM. 2017. MULHERES EXCELENTES. LISBOA: RELÓGIO D’ÁGUA

144. BARBARA PYM. 2017. MULHERES EXCELENTES. LISBOA: RELÓGIO D’ÁGUA

Joana Graça

Mulheres Excelentes é um romance sobre pessoas comuns com expectativas realistas. Não são pessoas atraentes ou bafejadas pela sorte e nada fazem de grandioso nas suas vidas. Através da personagem principal, Barbara Pym desenvolve um romance que nos mostra a ironia das relações humanas por meio de pequenas subtilezas. Há mulheres que fazem chá em situações de crise, mulheres profissionalmente beatas, mulheres antropólogas que não sabem cozinhar, homens casados que seduzem funcionárias da Marinha, homens que parecem iludir-se facilmente e homens que sabem cozinhar e arrumar a casa. Este livro é, por isso, tanto sobre mulheres como sobre homens; porém, sobre homens e mulheres que andam visivelmente desencontrados: as mulheres excelentes ficam solteiras, e os homens excelentes entregam a sua vida a mulheres menos excelentes.

143. Miguel Pereira. 2017. Peça Feliz. 22-25 Novembro. Teatro Maria Matos. 80min.

143. Miguel Pereira. 2017. Peça Feliz. 22-25 Novembro. Teatro Maria Matos. 80min.

Raquel Montez Raimundo

Enquanto o público entrava na sala principal do Maria Matos podia ver-se, do lado esquerdo do palco, um homem jovem, com ar insosso, vestido com um fato-macaco azulão a varrer farinha (ou algo semelhante), que ia caindo de tempos a tempos do tecto. Do lado direito, víamos uma mulher e um homem sentados em frente a uma mesa que tinha sobre si um computador. No palco, podiam ver-se duas telas brancas rectangulares, uma presa ao chão, que marcava os limites cénicos dos actores/dançarinos, e outra, perpendicular à primeira, que servia simultaneamente para marcar o fim vertical do palco e reflectir inúmeras projecções no decorrer do espectáculo, que se iniciou, nesta sessão (24 de Novembro), com uma plateia particularmente pouco preenchida.

142. JOÃO TRABULO. 2017. DURANTE O FIM (DVD). 70 MIN.

142. JOÃO TRABULO. 2017. DURANTE O FIM (DVD). 70 MIN.

Sofia A. Carvalho

Cena 1, plano vertical, acção: No início era a Linha. Poderia ser este o fotograma da claquete inicial em Durante o Fim, documentário com argumento e realização de João Trabulo (cuja première, em Turim, data de 2003 e a estreia nacional de 2011, embora o início das filmagens remonte aos anos de 1999/2000) sobre o ofício linear e cerebral de Rui Chafes. Digo: a proposta fílmica de Trabulo não só recai no acompanhamento próximo dos matizes de uma linha de ferro negro a gravitar sobre um espaço, espécie de continuum metalúrgico, poético e telúrico que acompanha o trabalho artístico de Rui Chafes, como também marca um ponto de encontro entre duas linhas fortes e afinadas — as de forjadores de mundos.

140. William Shakespeare. 2017. Macbeth. 2 – 17 de Dezembro de 2017. Teatro Nacional D. Maria II. Encenação de Nuno Carinhas.

140. William Shakespeare. 2017. Macbeth. 2 – 17 de Dezembro de 2017. Teatro Nacional D. Maria II. Encenação de Nuno Carinhas.

Rita Faria

Na obra The Presentation of Self in Everyday Life (1956), onde se analisam a vida e as interacções sociais mediante categorias da dramaturgia, o sociólogo Erving Goffman escolhe para epígrafe uma citação de George Santayana em que este declara: «Masks are arrested expressions and admirable echoes of feeling, at once faithful, discreet, and superlative. (...) I would not say that substance exists for the sake of appearance, or faces for the sake of masks (…)».

139. The National. 2017. Sleep Well Beast. Hudson Valley: 4AD Records

139. The National. 2017. Sleep Well Beast. Hudson Valley: 4AD Records

Pedro Franco

Vencedor do Grammy de «Melhor Álbum de Música Alternativa», Sleep Well Beast vem marcar um ponto de viragem na sonoridade dos The National. Os fãs da velha guarda têm bons motivos para se queixar desta revolução sónica que Matt Berninger, o vocalista, refere com entusiasmo em entrevista à NME (25 Junho 2017): à malha das guitarras e das baterias sobrepõe-se, em muitas faixas, o sintetizador; recorre-se a loops; escutam-se outras cordas mais sofisticadas e mesmo coros de vozes contrastantes com o barítono de Berninger. A composição, em suma, torna-se mais complexa e não tão sincera, como talvez diriam os adeptos daquilo a que muitos chamam «college rock». O ouvinte impreparado agradece. Está diante de um dos álbuns mais desconcertantes do ano de 2017 — e é esse desconcerto que cativa.

138. Kazuo Ishiguro. 2017. O Gigante Enterrado. Lisboa: Gradiva.

138. Kazuo Ishiguro. 2017. O Gigante Enterrado. Lisboa: Gradiva.

Lauro Reis

O último romance do mais recente Nobel da literatura parte de uma premissa invulgar: um casal idoso, Axl e Beatrice, parte em busca de um filho do qual não se lembram, num mundo desconhecido, fantástico e hostil, povoado por dragões, ogres e cavaleiros da Távola Redonda. No decurso dessa jornada, o relacionamento entre Axl e Beatrice será testado, tanto pelas provações físicas que aquele mundo lançará, como pelas recordações que poderão emergir. A constante possibilidade de anagnórise por parte de ambos os protagonistas é o motor deste romance, um mecanismo usado como forma de humanizar as próprias personagens e a Grã-Bretanha imaginária onde se encontram, mas também como propulsor da acção para um desfecho ambíguo e alegórico.

137. E a Minha Festa de Homenagem? Ensaios para Alexandre O’Neill. 2018. Org. Joana Meirim. Lisboa: Tinta-da-China.

137. E a Minha Festa de Homenagem? Ensaios para Alexandre O’Neill. 2018. Org. Joana Meirim. Lisboa: Tinta-da-China.

Helena Carneiro

Este é um livro de ensaios no verdadeiro sentido do termo, com direito a notas de rodapé e citações devidamente referenciadas na bibliografia que acompanha a maior parte dos textos. É um livro académico, escrito por académicos. Além disso, resulta de uma actividade estritamente académica: a realização de conferências sobre um dado tema ou autor, neste caso um colóquio comemorativo dos trinta anos da morte de Alexandre O’Neill.

136. Gauguin L'alchimiste. 11 de Outubro de 2017 – 22 de Janeiro de 2018. Grand Palais, Paris. Exposição.

136. Gauguin L'alchimiste. 11 de Outubro de 2017 – 22 de Janeiro de 2018. Grand Palais, Paris. Exposição.

Marana Borges

Mulheres de pele morena à beira do mar. Algumas vezes sentadas, outras vezes em pares, compondo um plano de formas sinuosas e cores quentes. São tais imagens que nos vêm à tona ao falar de Paul Gauguin (1848-1903). O vocabulário para descrever o artista francês em geral acantona-se em poucas palavras: trópicos; Tahiti; exotismo. Posicionar-se contra esse reducionismo é o ponto forte de Gauguin, L'Alchimiste, exposição no Grand Palais que reúne duzentas e trinta obras, com empréstimos especiais do National Galery of Art (Chicago), do museu D'Orsay (Paris) e do Pushkin State Museum of Fine Arts (Moscou).

135. Mary Chase and Henry Koster. 1950. Harvey. EUA. 104 min.

135. Mary Chase and Henry Koster. 1950. Harvey. EUA. 104 min.

João N.S. Almeida

A comedy rooted in Irish folclore, Harvey is based on a play by the same name written by the relatively unknown playwright Mary Chase in 1944, in the midst of World War II. This somewhat provides the setting for her writing, although the plot does not directly reference the war. It portrays a middle-aged bachelor who is having what appears to be an hallucination about a giant rabbit named Harvey, who is accompanying him everywhere and is his close friend. The creature never makes a direct appearance, and is invisible to both the characters and the viewers. Although Harvey troubles his close relatives, it is far from being troubling for him, as it induces an opiate-like state where feelings of kindness and warmheartedness are nurtured. This premise could place the movie in the terrain of the farcical that can be found in some screwball or fantasy comedies of early Hollywood cinema. But there is something in the quasi-oneiric ambiguity of the plot that turns this apparently light-hearted comedy into a perhaps unintentional commentary on metafiction, with multiple layers, which I intend to analyze in this review. This is more evident in the movie, where James Stewart’s usual warm-hearted movie persona is used with effectiveness, than in the play, where the comedic elements are more recursive.